O combate à crise
- A tua mãe veio cá, Pinguim?
- Não, Catatua. Eu é que sonhei!...
- Ah! Andas sempre a sonhar!
- Se um homem não sonhar, morre mais depressa!
- A tua mãe ainda trabalha no escritório?
- Ainda. Sonhei que quando estávamos a colocar o betão de limpeza na sapata daquele pilar, o porteiro chamou-me…
- Chamou-te para quê?
- A minha mãe estava lá e queria falar comigo.
- Ficaste aflito? Pensaste que era uma má notícia?
- Mais ou menos… normalmente telefona-me.
- E então?
- Disse-me que o patrão a tinha mandado cá porque estava interessado em fornecer materiais para a obra.
- O senhor Mário pensa que não há mais ninguém que venda uns tijolos e umas carradas de areia?
- Ó Catatua, isto foi só a sonhar!
- Até nos sonhos ele é danado para o negócio!
- Com a crise, o negócio está fraco…
- Não tenhas pena dele, Pinguim!
- Já despediu algum pessoal e se as vendas baixarem mais…
- A tua mãe está com medo de ir também para a rua?
- Não sei, mas o desemprego está a aumentar todos os dias…
- Ah! A tua mãe, agora, passou a ser escriturária e “caixeira viajante”!
- Antes assim do que ir para o desemprego!
- “Caixeira viajante”? Isso não é trabalho para mulheres!...
- Nos tempos de hoje nada se pode desperdiçar!
- É um trabalho sem horário e bastante perigoso!
- E a lei da paridade não é também para “caixeiras viajantes”?
- Nunca ouviste falar do problema do caixeiro-viajante?
- Não, qual é?
- Contaram-me há tempos... mas eu não sei explicar muito bem!
- Mas que problema é? Faz com que as mulheres não possam ser “caixeiras viajantes”?
- Não! Ser homem ou mulher é indiferente. Parece-me que o problema tem a ver com a matemática…
- Com a matemática? A minha mãe é boa em matemática! Passa a vida a fazer contas!
- Se eu percebi, o problema é mais ou menos assim: se fosses caixeiro-viajante e tivesses de visitar, por exemplo, clientes na Figueira, na Tocha, em Cantanhede, em Pombal, em Condeixa, em Penela e em Coimbra e se o da Tocha só estivesse disponível ao meio dia, o de Pombal às 9 da manhã, o da Figueira às 3 da tarde e os outros em qualquer hora, qual seria o percurso mais rápido e económico para os visitares a todos e voltares a Montemor?
- Isso não é um problema, é um quebra-cabeças!
- E ainda achas que ser caixeiro-viajante é trabalho para mulheres?!
- Por que não, Catatua? Pensei que fosse um problema diferente!…
- Um problema diferente?
- Sim! Uma mulher sozinha… por sítios desconhecidos…
- Já ouviste falar de “a morte do caixeiro-viajante”?
- Olha! Tu queres meter-me medo?
- Não! Eu também não sei bem... acho que é um filme!
- A minha mãe só veio trazer uma carta para o encarregado, da parte do senhor Mário Pires.
- Mas afinal, o que é que o senhor Mário Pires queria?
- Vender materiais porque o governo mandou fazer obras em quase todas as escolas do país para dar emprego aos desempregados e pôr a economia a mexer.
- Ele é muito esperto! Tem olho! Se fornecesse só o ferro que gastámos aqui era como se lhe saísse a sorte grande!

Sem comentários:
Enviar um comentário