segunda-feira, 31 de maio de 2010

Escolaridade dos portugueses

Da cabeça... para a cauda...
Vasco da Gama, em "Os Lúsíadas" apresenta Portugal, na Índia, como "cabeça, ali, da Europa toda". Se Luís  de Camões cá voltasse ficaria completamente desiludido. Há muito tempo que não ouvimos dizer senão que Portugal continua na cauda da Europa, nas mais diversas análises de que é objecto.
Por mais campanhas ou programas que se façam continuamos com os piores índices de escolaridade. Segundo o jornal:
"Portugal nunca conseguiu acompanhar os seus parceiros europeus no aumento do nível de qualificações da população activa". Isto sucede apesar da despesa em educação, em percentagem do Produto Interno Bruto, se situar, em 2006, em 5,6 por cento, muito próximo da média da OCDE que era de 5,7 por cento.

Atrás da cofragem XXIX

Que futuro?
- Alegra-te, Pinguim! São os últimos pingos de suor!
- Não sei se hei-de rir ou chorar, Catatua!
- Porquê? Não estás satisfeito depois de todo este trabalho?! Olha como ficou a escola! Não gostas? Não está melhor? Vê!
- Sabes o que me disse a minha avó?
- Já estava espera! Tu e a tua avó! Sempre do contra! Sempre a desfazer! Livra!
- És capaz de me dizer que ela não tem razão, és?
- A tua avó já cá veio ver? Se viesse não se punha a dizer…
- Nem vale a pena! A diferença entre o que estava antes o que está agora não é muita.
- Não é muita?! A tua avó deve estar cega ou não quer ver!
- Se os alunos quisessem estudar, estudavam! Não era por isso que…
- Tu não vês que agora tem melhores condições? Olha para estas salas, estes…
- O problema não está nas salas, Catatua! Nem nos quadros novos ou nos computadores!
- Já mexeste num computador? Nem sabes o que é! Está lá muito mais do que está nos livros, Pinguim!
- Eu sei, Catatua! Mas o problema não é esse…
- Então, para a tua avó, uma escola nova é a mesma coisa que uma escola velha?
- Não, Catatua! Se os alunos não quiserem estudar, tanto faz ser nova como ser velha!
- É muito diferente, Pinguim! Não se compara!
- Se não quiserem, não estudam! Não vale a pena…
- Temos cá alunos muito bons! Eu conheço alguns!
- Mas também, há muitos que só querem brincar e passar o tempo… estudar não é com eles!
- Esta escola nunca mais vai ter maus alunos! Não pode! Maus alunos aqui?! Nem pensar!
- Fia-te nisso! Vais ver! Isto não lhes custou nada!
- Já estou a ver aquelas salas novas, bem confortáveis, com aquelas janelas grandes, cheias de alunos a estudar… com os computadores…
- Também tenho sonhos assim, quando estou a dormir, Catatua!
- Sonhos?! Isto é a realidade! É o futuro!
- Um futuro de nada! Ilusões!
- Esta escola é uma ilusão, é? E este jardim tão bonito é uma ilusão?!
- A relva já está quase toda amarela! É o que acontece à escola: hoje é tudo muito bonito, mas amanhã ou depois…
- Estás enganado, Pinguim! Temos que esperar que o dia de amanhã seja melhor do que o de hoje!
- A minha avó já me disse, Catatua, que em cada dia que passa, estamos mais pobres. Não tarda, vamos passar fome…
- Se não fossem estas obras estaríamos muito pior! Não te esqueças.
- Quem é que pode estar nas aulas com a barriga vazia? Aprende-se alguma coisa?
- Isso era no tempo da tua avó! E agora mete-te isso tudo na cabeça, não é?
- No tempo da minha avó? Vinha ontem no jornal: na zona de Lisboa, há crianças que vão para a escola sem comer nada… à noite nem uma sopa! Só comem o que lhes dão na cantina!
- Acreditas em tudo o que vem nos jornais? Mas não acreditas no nosso trabalho… na escola…?!
- Temos uma escola nova mas ficámos de tanga, Catatua! O que é que nos valeu?
- De tanga? Tu não ouviste? O governo disse que a economia já está a melhorar!
- Isso é mais uma mentira! Cada vez há mais desempregados… sem dinheiro para subsídios…
- Sem subsídios? Conheces algum desempregado sem subsídio?
- O governo disse que criava medidas contra a crise, para ajudar os desempregados! Viste o que fez depois?!
- Mas não acabou com os subsídios! Sabes muito bem que a crise é mundial!
- Disse que não aumentava os impostos. Viste o que aconteceu? Quem é que pode acreditar?
- Mas ele disse que fez tudo, tudo, para não aumentar! Ele não tinha intenção…
- A minha avó diz que de boas intenções está o inferno cheio…
- O governo cumpriu o seu dever! Não podia fazer outra coisa! Ou querias…?
- Porque é que ele não baixa os ordenados dos presidentes executivos que ganham, numa hora, mais do que nós ganhamos em seis meses?
- Até que enfim que dizes uma coisa acertada, Pinguim! Mas, acho que fizeste mal as contas…

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Atrás da cofragem XXVIII

A escola e a crise
- Tens andado muito enganado, Pinguim!
- Enganado porquê, Catatua?
- Teimavas que a escola nunca mais ficava pronta, que não havia meio de te livrares do cimento, da colher de pedreiro, dos andaimes, dos…
- Ainda aí há muito que fazer, Catatua!
- Só se for para electricistas, técnicos de ar condicionado, de isolamento…
- Ainda sobra muito para a colher de pedreiro: lancis, passeios, caixas!
- A escola está fina! Quase pronta! Já viste?!
- A minha avó não acredita! Mas também não adianta…
- Não lhe disseste que a Escola vai ficar pronta muito antes do prazo? Uma coisa nunca vista!
- É por isso que ela não acredita… diz que “depressa e bem há pouco quem”!
- Ela que venha cá e veja! “Depressa e bem somos nós quem”! Se não fossemos bons profissionais ainda andávamos aí montar cofragens ou a assentar tijolo!
- Quando vier o Inverno é que ela quer ver! Que um tecto vai cair na cabeça das pessoas como tem acontecido por aí...
- O quê?! Esta escola não é como a ponte da Figueira!
- Eu também lhe disse que demos, aqui, o máximo…
- Digo-te uma coisa, Pinguim! Gostei muito de trabalhar aqui… e ver esta escola como está agora! Uma maravilha! A obra mais importante de Montemor!
- A obra mais importante ou a obra mais nova de Montemor?
- Se eu fosse professor dava-lhe a nota máxima! Até gostava de ficar aqui todos os dias! Começo a ter inveja dos alunos…
- Estás sempre a tempo de voltar, Catatua!
- Acho que já não tenho paciência, Pinguim! Nem tempo… há muito tempo que não pego num livro…
- Não vale a pena estares com lamúrias!
- Mas vou ter muita pena quando me for embora…
- Ontem a minha avó disse-me que só andamos aqui a perder tempo, que o país cada vez tem menos dinheiro e estas obras não resolveram nada… só ficamos com mais dívidas! A crise é cada vez maior!
- Não lhe disseste que se não fossem estas obras, o desemprego ainda seria pior?
- Ela diz que mesmo assim, cada dia que passa, os desempregados são cada vez mais e que a escola não mata a fome a ninguém…
- Não mata a fome a ninguém?! Se não for a escola não podemos ter bons médicos, bons engenheiros que, no futuro, possam fazer bem ao país!
- Diz que temos mais médicos, mais engenheiros, mais professores e mais políticos e cada vez estamos pior… não se vê bem nenhum!
- A tua avó não sabe o que diz… deixa-a falar…
- E que o dinheiro que veio para aqui devia ser para os agricultores! Eles é que matam a fome e não são ajudados…
- Vai tu, Pinguim! Vai ajudar a tua avó e o teu avô! Estás contente?!
- Olha, Catatua, não sei o que vai ser o meu futuro! Acho que a minha avó tem razão em certas coisas.
- Em certas coisas? Em quê?
- Há dias estive com a Sónia…
- A tua namorada?! Agora é que vai!
- Não tenho emprego estável, ela trabalha no centro comercial, mas ali também não tem futuro… quase todos os dias fecha uma loja!
- Sabes muito bem que a crise é mundial, temos que aguentar…
- Quem são os culpados da crise? A minha avó diz que quando se tinha que mondar o arroz à mão é que havia crise. As pessoas trabalhavam de sol a sol e não tinham nada…
- O governo diz que há mais de cem anos que não havia uma crise assim!
- Se soubesse governar não havia crise!
- Pensas que o governo não faz tudo o que pode?!
- Podia fazer melhor! Se os pedreiros não souberem trabalhar e estiverem sempre a emendar, a voltar a fazer, a estragar materiais, a perder tempo, qual é o resultado? Só prejuízo!
- Nós demos, aqui, muito prejuízo? Nem por isso!
- Olha, aquele muro de betão ficou empenado! Já viste o tempo que estive ali a picar, a martelar, a partir?!
- E achas que o governo não sabe o que faz?
- Quantas vezes é que diz uma coisa e depois diz e faz outra, ao contrário do que tinha dito antes? Isto não é como ter um pedreiro que só dá prejuízo?