sexta-feira, 7 de abril de 2017

Atrás da cofragem LIII

O bordel da política
- A Primavera começa com cara de Inverno, Catatua! Com este frio as batatas congelam debaixo da terra!
- Mal por mal, antes queria trabalhar nas obras, Pinguim!
- Obras?! Que obras? Os velhos morrem e deixam as casas a cair, os novos emigram…!
- Está um vento desagradável! A vida não está nada fácil!
- Os políticos é que deviam vir para aqui cavar e semear as batatas para verem o que custa a vida em vez de andarem a mandar bocas uns aos outros!
- Tu não achas que o holandês se devia demitir, Pinguim?
- Demitir porquê? O homem disse alguma coisa de grave?
- Ofendeu as pessoas! Disse coisas que não devia dizer!
- O que é que ele disse, Catatua? Não me digas que também ficaste ofendido?
- Eu trabalho todos os dias, Pinguim! Tenho lá tempo para andar na má vida?!
- Então, ele acusou-te de passares o tempo na paródia?!
- Não nomeou ninguém, mas disse que os países do sul gastam o dinheiro com mulheres e copos! Isso ouvi eu!
- Não acredito, Catatua! Tu enfiaste logo a carapuça?! Então, quer dizer que tu… Ah! Se a tua Deolinda sabe!
- Não te ponhas, aí, com maus pensamentos, Pinguim! Não sejas desconfiado! Olha que eu… nunca gastei dinheiro…
- Não estou com maus pensamentos! Mas tu és, tal e qual, a figura de quem está no governo!
- Eu?! A figura de quem está no governo?! Não estou a perceber!
- Certas pessoas que eu cá sei ficam muito ofendidas com o que os outros dizem, mas nunca se ofendem nem se envergonham com as suas próprias asneiras que são muito piores!
- Muito piores?! Quais?
- Tens a memória muito curta, Catatua! Conheço muita gente assim!
- A minha memória?! Tenho mais coisas em que pensar, Pinguim!
- Pois é! Já te esqueceste das promessas de que não ia aumentar os impostos!
- Eu também fiquei revoltado! Sabes muito bem! Foi uma grande aldrabice!
- Também prometeu que ia virar a página da austeridade! Não foi?!
- Eu acho que a austeridade nunca mais acaba, Pinguim! É uma doença que já chegou até aos ossos!
- Lembras-te de outras promessas mais antigas de que as SCUT eram auto estradas sem portagem?!
- Todos mentem, Pinguim! O governo e os outros! Eles passam a vida a mentir!
- Prometeu que ia aumentar o rendimento das famílias, melhorar os serviços públicos, acabar com o desemprego, resolver o problema dos bancos sem sacar mais dinheiro ao povo, etc., etc.
- Basta, Pinguim! Basta! Vamos pôr as batatas na terra para não morrermos à fome! O que é que a gente há-de fazer?!
- A minha avó também diz o mesmo! Já não há remédio! Se quem está no governo tivesse um pingo de vergonha!
- A tua avó também não resolve nada! O que é que ela quer dizer com essa conversa?
- Se ele tivesse um pingo de vergonha talvez pusesse a mão na consciência!
- Na consciência?! Não sei o que é que a tua avó quer dizer com isso! Já viste algum político pôr a mão na consciência?
- O problema é esse, Catatua! A maior parte dos políticos só sabe pôr a mão onde não deve!
- E a tua avó acredita que pôr a mão na consciência é o remédio para acabar com as mentiras dos políticos?
- Sabes que a minha avó é uma mulher de muita fé! Vive a quaresma muito a sério!
- A quaresma?! E então?! A tua avó pensa que toda a gente é como ela?!
- Já que estamos na quaresma, era tempo do chefe do governo se arrepender, fazer penitência e pedir perdão!
- Fazer penitência?! A tua avó devia estar a delirar! Já viste algum político a andar descalço e a passar os dias a pão e água?
- Tens razão, Catatua! A austeridade sobra sempre para o povo!
- Pedir perdão?! Como é que ele pode pedir perdão se não acredita em Deus?!
- Isso não é desculpa, Catatua! Devia pedir perdão a todos os portugueses! Se ele não acredita em Deus porque não O vê, devia vir aqui, pedir-nos perdão. Nós existimos. Não tem desculpa de que não nos vê!
- Pedir perdão de quê, Pinguim? Ele vai dizer que não tem pecados!
- Ah! Pois! Os políticos nunca têm pecados! Mas, não ouviste aquele grande rol de mentiras?
- E qual deveria ser a penitência para tanta mentira?
- A penitência deveria ser a demissão! Imediatamente. Não foi isso que ele pediu para o holandês?
- Mas ele acusou o holandês de proferir afirmações “sexistas, xenófobas e racistas” que vão contra os valores da União Europeia e por isso devia desaparecer!
- Que autoridade tem uma pessoa destas para dar lições de moral a quem quer que seja se foi para o governo sem ganhar as eleições e à custa de grandes mentiras?
- Então, isto de dizer que as pessoas gastam dinheiro com mulheres e copos e depois vão lá pedir dinheiro não é uma acusação grave? Eu não ando a viver à custa dos outros!
- Não sei se andam a gastar dinheiro com mulheres ou com homens, Catatua! Nem quero saber!
- Nem eu! Nada disso! O mundo anda todo ao contrário! Mas muita gente ficou ofendida por essa europa fora!
- Ó Catatua, o que eu gostaria de saber era para onde foram os milhões e milhões que a Europa mandou para cá, anos e anos a fio e por que razão estamos agora na bancarrota e na miséria!
- Afinal, achas que o holandês mentiu ou não mentiu?
- Sabes o que te digo? Os políticos são uns grandes mentirosos, mas quando algum diz uma verdade, cai logo o “Carmo e a Trindade”! Não é?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Atrás da cofragem LII

Mentiras e aldrabices
- Também ouviste falar das mentiras do governo, Catatua?
- Das mentiras do governo?! Eu tenho que trabalhar, Pinguim! Tenho lá tempo para paródias?! Um pedreiro…
- Tu não ouviste falar dessas trapalhadas?! Há tanto tempo que se fala disso!
- Trabalho de manhã à noite! Chego a casa mais morto do que vivo! O que eu quero é descanso e que ninguém me diga nada!
- Nem tudo ao mar nem tudo à terra, Catatua! Então…!
- Isso é para quem não tem mais que fazer! Tretas, Pinguim! Tretas!
- Não me digas que não ouves as notícias do que se passa por aí!
- Ouvi, ouvi qualquer coisa mas… Vamos ao trabalho e deixa-te de lérias!
- Ah! Então! Tu não te importavas que alguém te pregasse uma grande mentira?! És do naipe deles!
- Olha lá, tu nunca mentiste, Pinguim?
- Que eu me lembre não… não costumo mentir! Eu falo de frente para as pessoas! Olhos nos olhos, Catatua!
- Nem quando eras miúdo? Aquelas mentirinhas que toda a criançada faz, na brincadeira…?!
- Nunca menti à minha professora! E fazia quase sempre os trabalhos de casa!
- Nunca mentiste à tua mãe ou à tua avó?
- Já não me lembro muito bem, mas… acho que não!
- Não acredito! Não te esqueças que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo!
- Eu sei, Catatua! Mas…
- Mas, o quê, Pinguim?
- Isto, agora, não é brincadeira nenhuma, Catatua! A coisa é séria!
- É séria?! Vais ver que isso vai ficar em águas de bacalhau! Arranjam lá umas desculpas e pronto! É como as comissões de inquérito!
- Olha que a minha avó não gostou nada desta grande trafulhice, Catatua! Ficou cá com uma cara!
- E a tua avó que não ficasse toda furiosa! Era para admirar!
- Mas a minha avó tem toda a razão! Isto não pode ser!
- Oh! O que é que isso lhe vale?!
- Se toda a gente se puser por aí a mentir quem é que pode confiar em alguém?!
- Mas nem toda a gente é mentirosa! Há muita gente séria!
- Nunca ouviste dizer que anda meio mundo a enganar o outro meio?!
- Tu acreditas em tudo, Pinguim? Isso não é bem assim! São ditos!
- E se for o chefe a mentir?
- O chefe? Qual chefe?
- Quem diz o chefe, diz o governo! Quem faz parte do governo não pode mentir!
- Pois não, mas são os que mentem mais! Que queres que eu faça?
- E tu ficas assim, na mesma?! Não dizes nada?!
- O que é que tu queres que eu diga? Que me ponha aí a gritar, feito doido?!
- Não, nada disso, Catatua! Mas tu ficas assim, mudo e calado?! Não te revoltas?
- Vamos trabalhar, Pinguim! Temos ali aquela massa toda para gastar! Daqui a pouco é noite!
- Não podemos ficar calados, Catatua! Já não é a primeira vez! Mentem todos os dias!
- Estás a ver esta linha de pedreiro, Pinguim?
- Estou! O que é que tem a linha?
- Os pedreiros não fazem trapalhadas! Os tijolos ficam, aí, todos alinhados e aprumados!
- Que grande novidade, Catatua! Se não for assim, as paredes ficam tortas e empenadas! E um dia vem a casa toda abaixo!
- Por isso é que eu digo que um pedreiro não pode fazer aldrabices! Um bom profissional faz tudo bem feito! A obra tem que ficar perfeita!
- É também por isso que a minha avó não se cala! O governo anda todo desalinhado!
- Oh! Eles são profissionais de quê?! Já os viste a chapar massa ou a montar tijolos?! Gostava de os ver aqui!
- São profissionais da mentira! A minha avó diz que só sabem mentir e aumentar os impostos! Estamos desgraçados!
- Se viessem para aqui comer pó como nós, de manhã à noite…! Eles nem sabem pegar numa régua ou numa colher de massa!
- São mentiras atrás de mentiras, Catatua! Há anos que o povo anda a ser enganado!
- Mãos à obra! Temos muito que fazer! Olha que o trabalho não espera!
- Ó Catatua, o que seria de uma família se todos mentissem, uns aos outros?
- Tu, hoje, não te calas, Pinguim?! Andas a fazer o jogo da oposição! Bem me parece!
- Sentes-te, assim, tão incomodado? Perdes a paciência tão depressa?!
- Não perco a paciência! Já estou farto! Já estou farto dessa conversa! Só falas em mentiras e mentirosos!
- Tem calma, não te enerves, Catatua! Tens algum problema em falar do assunto?!
- Não, mas temos aí muito que fazer! Não te esqueças!
- Calma, ainda estamos na hora do almoço!... Ah!... Já estou a ver tudo! Tu, às vezes também gostas de pregar umas mentirinhas lá em casa! Não é? Confessa lá!
- O quê?! Tu pensas que eu engano a minha mulher?! Eu não te admito que digas uma coisa dessas!
- Não! Nada disso, Catatua! Mas diz-me: o que seria, se numa família, todos mentissem uns aos outros?
- Numa família?! Que família?
- Numa família qualquer!
- Olha que o governo não é uma família, Pinguim!
- Não é uma família?! Mas é muito mais importante do que uma família! E se vires bem, o governo tem lá mais famílias do que tu pensas!
- Não são só os “boys”?!
- Agora são os “boys”, as “girls” e toda a família! Ouve esta, agora, Catatua: o que seria se o marido, com a ajuda do advogado, contratasse uma empregada lá para casa sem contar nada à mulher?
- Talvez a mulher dele não soubesse cozinhar! Acho que fazia muito bem!
- E se o marido e o advogado ajustassem com a empregada um bom ordenado, um ordenado chorudo, em segredo e às escondidas da mulher e dos filhos?!
- A mulher podia desconfiar, mas as mulheres são quase todas muito desconfiadas, Pinguim!
- E se o advogado trocasse SMS com a empregada a confirmar que ela não seria obrigada a declarar, lá em casa ou nas finanças, a fortuna que iria ganhar por mês?
- Não vale a pena fazeres essas comparações, Pinguim! Ninguém se iria preocupar com isso!
- E se o marido transferisse dez mil milhões de euros para offshore sem dizer nada à mulher nem aos filhos?
- Olha lá?! Onde é que há famílias que tenham dez mil milhões de euros no banco se quase toda a gente ganha um ordenado mínimo miserável que mal chega para comer e para pagar os impostos ao Estado?
- Então para ti, mentir ou não mentir é tudo a mesma coisa, Catatua?
- Quem é que, nessa família, iria descobrir a diferença entre a verdade e a mentira?
- Essa agora! Então tu pensas que a mulher, os filhos e os amigos da família andavam todos cegos?
- Não! Mas, tu não sabes que uma mentira, repetida todos os dias, passa a ser uma verdade?
- Não pode ser, Catatua! A mentira não se pode confundir com a verdade! A mulher e os filhos teriam de criar uma nova comissão de inquérito para apurar a verdade até às últimas consequências!
- Impossível, Pinguim! Uma mentira votada, democraticamente, transforma-se em verdade oficial do regime!
- Bem, nesse caso, só lhes resta o protesto e umas queixinhas contra a opressão da ditadura da esquerda unida e da claustrofobia democrática porque:
Para a mentira ser verdade,
Sem causar a discussão,
Tem que vir da autoridade,
Livre de toda a oposição!