segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Atrás da cofragem XXXVI

Arroz “falhido”
- Então, Pinguim? Vieste trabalhar hoje?
- Porquê? Não havia de vir? Achas-me com cara de preguiçoso?
- Não! Ninguém te está a chamar preguiçoso! Mas pensei que...
- Que já tinha sido despedido! Queres ver-te livre de mim? Não é?
- Nada disso! Estás doido?!
- Que já estava no desemprego? Se eu for, vamos todos!
- Só pensas na crise, no desemprego... o diabo seja cego e surdo!
- Então? Já não há que fazer?! Está tudo acabado? Já não há trabalho?
- Não! Pensava que… estivesses de férias!
- De férias? No inverno?! Olha este! De férias!
- Então, não és quase um doutor?
- Endoideceste?! Este tempo faz-te mal à mona! Deves ter o cérebro congelado!
- Se não és doutor, para lá caminhas!
- Acordaste mal disposto? Tiraste o dia para me azucrinar a cabeça?!
- A estudantada não está toda nas férias do Natal? Pensei que estivesses no Brasil!
- Eu? No Brasil?! Vai pastar caracóis! Nem te quero ouvir!
- Não disseste que ias viajar… com a namorada?!
- Tu sonhas muito alto! Andas a sonhar demais!
- Não gostas do calor? Daquelas praias de sonho?
- Já te disse. Tu é que andas a sonhar. Mas quando acordares…
- Só gostas de climas frios, de neve e gelo… os pinguins são…
- Tu é que podias ter ido para a terra das catatuas, para mostrar a tua bela crista! Porque é que não aproveitaste?
- O que é que tens contra as catatuas?
- Nada!
- Abre uns roços aí, nessa parede! Temos que fazer isto depressa!
- Abrir roços para quê? O trabalho não ficou bem feito?
- Ficou, mas temos que modificar isto.
- Modificar o quê? O que é que vamos fazer aqui?
- Colocar as canalizações para pôr aqui uns sanitários.
- Já estou a ver tudo! Não querias que eu viesse para não ver esta vergonha!
- Qual vergonha?
- Estarmos aqui a partir esta parede!
- Nunca fizeste nada assim lá em casa?
- Ai! Se a minha avó visse isto!
- Isto, o quê? Já estava no projecto! Vai falar com o encarregado.
- E há mais! Há aí muita coisa que não funciona…
- O quê? O que é que não funciona?
- Olha, as portas estão a desmanchar-se, o alarme está sempre a tocar, a energia está sempre a faltar…
- As portas a desmanchar-se? Ainda te hás-de desmanchar primeiro do que elas!
- Não vês que tens que arrancar as unhas para abrir uma porta?
- Para mim, esta escola está cada vez melhor e mais bonita!
- Mais bonita? A minha avó ia morrendo quando viu esta escuridão…
- A tua avó devia cá vir, agora…
- Para quê? Queres acabar com ela?
- Para ver estes vasos de plantas que enfeitam os corredores e os átrios! Vê lá se não estão bonitos?
- Não penses que enganas a minha avó!
- Porquê? Ela não gosta de plantas?
- Não há ninguém que goste mais de plantas do que a minha avó! De todas as plantas!
- É por isso que ela devia cá vir!
- Só para ver as plantas?
- E ver que também cá há gente com bom gosto!
- Olha, sabes o que é que ela me disse ontem?
- Não. Não foi coisa boa, não!
- Que quer cá vir para ver o meu arrozal!
- O teu arrozal? No inverno? Dentro da escola?!
- Sim! Disse que eu devia ter aqui um grande arrozal!
- Ela está muito enganada! Isto não é nenhum pântano!
- É o arrozal que eu cultivo todos os dias à noite quando venho para as aulas, EFA – nível básico!
- Cada vez percebo menos, Pinguim!
- Eu também não estava a perceber…
- E então? Ela pensa que a escola é a herdade do arroz carolino?
- Disse que a escola tem mais arrozais do que todo o Baixo Mondego!
- Desta vez é que a tua avó perdeu o juízo todo!
- Porque aqui se fazem três colheitas por ano, disse-me ela!
- Três colheitas? Os jardins têm relva! Mas a relva não dá arroz!
- É a colheita do Natal, da Páscoa e…
- Só se for arroz doce!
- Não! Estás enganado! A minha avó diz que cada aluno é um arrozal!
- Do tipo japónico ou índica?
- Do japónico! Mas a minha avó desconfia que o meu arrozal está cheio de arroz “falhido”.
- Arroz “falhido”?
- É como na quinta. Nos sítios onde não há estrume, o arroz cresce, dá muita palha mas não dá grão!