O Pinguim
- Gosto muito da minha avó, Catatua, mas…
- Mas o quê, Pinguim?
- Está sempre a pedir que faça isto, que faça a quilo… pensa que não tenho mais que fazer!
- Só queres que ela te dê a papinha e mais nada, não?
- Agora trabalho todo o dia, pá, mas ela não vê isso. Quando chego a casa só me apetece deitar-me.
- Porque é que não voltas para a tua mãe?
- Sabes bem que desde que a minha mãe se juntou, eu saí. Fui para a minha avó. Sou maior!
- Tens problemas com o teu padrasto? Não te dás com ele?
- Padrasto? Não gosto desse nome. É um estranho. Já viste um estranho a dormir com a minha mãe?
- Se a tua mãe gosta dele!... Ela não é livre de fazer o que quiser? E se o teu pai tivesse morrido?
- Mas não morreu! E o meu pai há-de voltar!
- Se ele está com outra e já tem filhos, ainda pensas que volta? Não estás bom da cabeça!
- Pode ser que um dia também a deixe e volte.
- Não penses nisso, Pinguim. Agora agarrou e dali não sai.
- Se ele me abandonou, porque é que não pode abandonar, também, aquela mulher e aqueles filhos?
- Talvez tenha encontrado a mulher da vida dele. Não foi à primeira, foi à segunda.
- E tu achas isto, assim, muito normal, não é? Casam-se, gostam muito, gostam muito e depois vão-se embora?
- Tens de ver que as pessoas têm a liberdade de fazer o que querem, não é?
- Pois é! E eu não tenho a liberdade de ter um pai, o meu pai?!
- Ele ainda é o teu pai. Não deixou de ser o teu pai…
- Mas não me faz companhia nenhuma, é como não o ter! Quando eu estava no 4.º ano era ele que me ia buscar à escola. Nunca mais me esqueci daquele dia, quase no fim do ano, em que ele não apareceu. Fiquei à espera, à espera e nada. Nunca mais fui á escola…
- Dormia agora uma boa sesta, Pinguim.
- Não tens sorte, Catatua. Faltam cinco minutos.
- Não te esqueças que amanhã não vimos para cá. Vamos para outra escola.
- Quantas escolas é que esta empresa está a arranjar?
- Não sei. Quantas mais melhor. Assim temos mais emprego.