sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Atrás da cofragem VII

Escola nova
- Ó Pinguim não te esqueças da reunião, na sexta-feira à tarde.
- O que é que o encarregado quer?
- Pergunta-lhe. Ele é que sabe.
- Será que me quer despedir, Catatua?
- Não penses nisso. Talvez haja alguma novidade sobre a obra. Afinal os engenheiros mandaram deitar tudo a abaixo para fazer uma escola nova.
- Se a minha avó visse isto
- A tua avó?!
- Sim. Tu não a conheces. Diz que nós estamos aqui a cometer um crime.
- Um crime, porquê?
- Porque a escola estava muito bem como estava. Era uma escola nova! Ela lembra-se bem de a fazerem, diz que foi na altura que eu nasci!
- Os engenheiros é que sabem. Ouvi dizer que fica mais barato e é mais rápido fazer tudo de novo.
- Eu não sei onde é que o governo vai buscar tanto dinheiro! Já viste as toneladas de ferro que ali estão?!
- Não te preocupes com o dinheiro.
- O que mais há por aí é ordenados em atraso. Disso é que eu tenho medo.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Atrás da cofragem VI

Emigrar

- Hoje é que vai ser, pá. Isto não é vida para mim, Catatua.
- O que vais fazer, Pinguim? Vais mesmo embora, para o desemprego? Não tens coragem…
- Estou farto de obras. Vou arranjar outro emprego.
- Onde? Aproveita o que tens, pá e já te podes dar por muito feliz.
- Vou emigrar.
- Tu, emigrar? Para onde?
- Não sei.
- Tu estás doido! Não vês que agora a emigração é ao contrário? É para cá! Olha à tua volta!
- Há mais a ir do que a vir. Não há trabalho, nem dinheiro. Já viste o que eu ganho?
- Mas eles não se importam. Olha, marroquinos, indianos, guineenses, cabo-verdianos. Não ganham muito mais do que tu! …
- Vou conhecer outros sítios. Hei-de encontrar alguma coisa melhor.
- Andas muito iludido. O mundo agora é todo igual… a crise chegou a todo o lado…
- Mas eu quero viajar. Viajar. Nunca saí daqui. E hei-de encontrar trabalho…
- Queres viajar ou ganhar mais dinheiro?
- As duas coisas.
- E a tua família, deixa-te ir?
- A minha família? Eu já sou maior. Estou em casa dos avós. Mas eles não mandam em mim…
- Já disseste ao teu pai e à tua mãe?
- O meu pai? Sabes muito bem que ele há muito que não quer saber de mim. Até aos dezoito anos ainda me dava uma mesada, às vezes almoçava comigo. Passam-se meses que não falo com ele…
- De certeza que a tua mãe não te deixa ir…
- Mas eu vou. Lá porque ela me lava a roupa e às vezes me faz o almoço na minha avó, não quer dizer que…
- E a tua namorada?
- Namorada? Eu estou livre…
- Já disseste ao encarregado que te vais embora?
- Não. Mas…
- Tens de cumprir o contrato até ao fim, senão tens de pagar... Não podes ir…

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Fundações

Alicerces
As obras para o novo ginásio e para a nova biblioteca do Agrupamento de Escolas de Montemor-o-Velho estão no início. Apresentamos algumas fotos:

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

“Atrás da cofragem” V

Dia do diploma
- Porque é que está ali tanta gente, Catatua? Parece a feira do ano?
- A feira já acabou e não é ao pé da escola?
- Aconteceu ali alguma coisa, não sei o quê.
- Já sei, Pinguim. Hoje é o primeiro dia de aulas. Nem me lembrava.
- Não era eu que ia aturar os professores dentro daqueles caixotes.
- Caixotes?! São salas mais pequenas mas têm ar condicionado! Porque é que não voltas para ver como é?
- Já tinha pensado nisso. Mas ainda não tive coragem. Eu até tinha boas notas…
- Mais uma razão.
- Depois de o meu pai sair ainda andei um ano na escola, mas chumbei por faltas…
- És um piegas, pá. Só por o teu pai sair de casa e arranjar outra mulher ficaste perdido?!
- Eu gostava de saber se fosse contigo! ... Fiquei chateado! E depois? Não tenho o direito?
- Quantos anos tinhas?
- Dez. Nunca tinha chumbado, mas depois…
- Hoje até dão prémios aos melhores alunos. Podias ser um deles.
- Prémios? Se eu voltar a estudar não é para ter prémios!
- Não gostavas de receber um prémio à frente de toda a escola por seres o melhor aluno?
- Não. E não acho nada bem.
- Porquê?
- Isto não é como uma corrida dos 100 metros. Um coxo nunca pode ganhar e não tem culpa.
- Mas quem ganha também não tem culpa.
- Por isso mesmo. Se um aluno tem boas notas já se pode dar por muito contente. Não é já um bom prémio para o esforço?
- E não achas que a escola também gosta de dar um prémio aos melhores alunos?
- Sabes o que diz a minha avó? É só propaganda! E que quem estuda não deve estar à espera de um prémio como o macaco à espera do amendoim.
- O que é que a tua avó percebe disto?
- Mais do que tu pensas. Ela está a par de tudo. Diz que a escola dá prémios a um ou a dois mas deixa os outros todos de lado e que isso não está bem!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

“Atrás da cofragem” IV

O Pinguim
- Gosto muito da minha avó, Catatua, mas…
- Mas o quê, Pinguim?
- Está sempre a pedir que faça isto, que faça a quilo… pensa que não tenho mais que fazer!
- Só queres que ela te dê a papinha e mais nada, não?
- Agora trabalho todo o dia, pá, mas ela não vê isso. Quando chego a casa só me apetece deitar-me.
- Porque é que não voltas para a tua mãe?
- Sabes bem que desde que a minha mãe se juntou, eu saí. Fui para a minha avó. Sou maior!
- Tens problemas com o teu padrasto? Não te dás com ele?
- Padrasto? Não gosto desse nome. É um estranho. Já viste um estranho a dormir com a minha mãe?
- Se a tua mãe gosta dele!... Ela não é livre de fazer o que quiser? E se o teu pai tivesse morrido?
- Mas não morreu! E o meu pai há-de voltar!
- Se ele está com outra e já tem filhos, ainda pensas que volta? Não estás bom da cabeça!
- Pode ser que um dia também a deixe e volte.
- Não penses nisso, Pinguim. Agora agarrou e dali não sai.
- Se ele me abandonou, porque é que não pode abandonar, também, aquela mulher e aqueles filhos?
- Talvez tenha encontrado a mulher da vida dele. Não foi à primeira, foi à segunda.
- E tu achas isto, assim, muito normal, não é? Casam-se, gostam muito, gostam muito e depois vão-se embora?
- Tens de ver que as pessoas têm a liberdade de fazer o que querem, não é?
- Pois é! E eu não tenho a liberdade de ter um pai, o meu pai?!
- Ele ainda é o teu pai. Não deixou de ser o teu pai…
- Mas não me faz companhia nenhuma, é como não o ter! Quando eu estava no 4.º ano era ele que me ia buscar à escola. Nunca mais me esqueci daquele dia, quase no fim do ano, em que ele não apareceu. Fiquei à espera, à espera e nada. Nunca mais fui á escola…
- Dormia agora uma boa sesta, Pinguim.
- Não tens sorte, Catatua. Faltam cinco minutos.
- Não te esqueças que amanhã não vimos para cá. Vamos para outra escola.
- Quantas escolas é que esta empresa está a arranjar?
- Não sei. Quantas mais melhor. Assim temos mais emprego.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

"Cidade estudantil"

Instalações provisórias
No presente ano lectivo de 2009/2010 muitas aulas irão funcionar em contentores no Agrupamento de Escolas de Montemor-o-Velho. À distância e de fora, quem olhar para aquele aglomerado de "caixotes" dirá que temos um "bairro de lata" no espaço escolar.
As condições não serão as melhores mas diz o povo que "é na tempestade que se conhece o marinheiro", por isso nada há que temer.
Uma imagem do que vai ser, no futuro, a nova "cidade estudantil" de Montemor-o-Velho pode ser vista aqui, cedida pela "Parque Escolar" EPE.



quinta-feira, 3 de setembro de 2009

"Atrás da cofragem" III

Escola para o futuro
- Já sei que vens com dores de cabeça, Pinguim. Essa cara não engana.
- Não é isso, pá. Dormi mal, não sei o que se passa comigo.
- O quê? Estás doente? Não me digas que já apanhaste a gripe dos porcos!
- Não tenho gripe nenhuma. Estou cansado. Isto é duro!
- Estás mal habituado. Temos muito que fazer, mas o pior já passou.
- Já viste as mesas e cadeiras que passaram pelas mãos?
- Já. E os móveis, estantes e computadores…
- Não sei para quê. Para mim isto não faz sentido. Não auguro nada de bom.
- És como as aves agoirentas? Andas a pensar em coisas…
- Vives para quê? Para trabalhar, para comer e para dormir?
- Para que havia de ser? Não vives para trabalhar?
- Não. Eu trabalho para viver. Já pensaste que qualquer dia o mundo acaba.
- Goza a vida! Não penses demais! Faz mal à cabeça…
- Se é assim nem vale a pena fazer escolas? Para quê?
- Olha, esta escola vai dar trabalho a muita gente.
- Faz-se uma escola só para dar emprego e mais nada?
- Não. Estas obras precisavam de ser feitas. É uma escola para o futuro!