A fraude
- Que belas uvas, Catatua! São mesmo doces!
- Aproveita agora, Pinguim! No dia da vindima podes comer uvas à vontade.
Mas olha que o que é bom acaba depressa!
- Que sabor! Estas uvas valem oiro e têm a cor do sol! Que maravilha!
- Hoje, podes tirar a barriga de misérias! É uma fartura de uvas, este
ano!
- A fartura nunca deu fome nem sede, mas o meu avô não sabe o que fazer a
tanta uva!
- Agora é que ele pode encher as maiores pipas que tem lá, na adega,
Pinguim!
- E quem é que bebe o vinho?! Meia pipa é o suficiente para ele e para toda
a família!
- Então, tem que fazer como os outros. Põe lá o anúncio: “vende-se vinho
do lavrador”!
- Para isso tinha que escrever em chinês, japonês, russo e noutras línguas!
- Para quê, Pinguim?! Basta escrever em bom português para que todos entendam!
- Não sabes que agora vivemos na aldeia global?! Quem sabe se o meu avô não arranja também um cliente com um visto Gold para lhe comprar o vinho!
- Há dias disseste mal do governo por já ter vendido o país, quase todo, aos chineses e agora queres que o teu avô lhes venda também o vinho?!
- Metade do país emigrou, outra metade não bebe porque tem medo de soprar no balão! O meu avô tem que apostar também nos chineses! Tem que ir ao mercado!
- O teu avô não se meta nisso! Os negócios da china já foram chão que deu uvas!
- Para isso tinha que escrever em chinês, japonês, russo e noutras línguas!
- Para quê, Pinguim?! Basta escrever em bom português para que todos entendam!
- Não sabes que agora vivemos na aldeia global?! Quem sabe se o meu avô não arranja também um cliente com um visto Gold para lhe comprar o vinho!
- Há dias disseste mal do governo por já ter vendido o país, quase todo, aos chineses e agora queres que o teu avô lhes venda também o vinho?!
- Metade do país emigrou, outra metade não bebe porque tem medo de soprar no balão! O meu avô tem que apostar também nos chineses! Tem que ir ao mercado!
- O teu avô não se meta nisso! Os negócios da china já foram chão que deu uvas!
- Nunca ouviste falar das leis do mercado e do liberalismo?
- Liberalismo, neo-liberalismo, Pinguim? Isso não é política?
- É política! É economia! É tudo, Catatua! É a lei da oferta e da
procura! Quanto maior é a oferta, menor é a procura e vice-versa!
- Já estou a ficar baralhado, Pinguim! Onde é que tu queres chegar com essa coisa
da oferta e da procura?
- Quando a oferta é maior do que a procura, os preços descem! Fica o
vinho ao preço da chuva!
- Isso não é bem assim! A água já está mais cara do que o vinho! Então,
a chuva não entra nessa coisa da oferta e da procura? Olha a seca deste ano!
- Tens razão, Catatua! Mas com tanto vinho, por aí nas adegas, mais barato do que
a água, parece-me impossível que ainda haja que faça vinho a martelo!
- Não te digo nada, Pinguim! Há gente capaz de tudo! Deus nos livre de trafulhas, mentirosos e
ladrões! O vinho é uma bebida sagrada! Quem o falsifica devia ir para no
inferno!
- Tens razão, Catatua! Deve ser um grande pecado fazer vinho que não seja
do puro sumo de uvas tão verdadeiras e tão saborosas como estas!
- Cada vez há mais trafulhas, Pinguim! Não estás a par das notícias?!
- Ah! Estás a falar dos carros falsificados? É uma espécie de vinho a martelo dos carros! O mundo está perdido,
Catatua!
- Andamos todos enganados! Completamente enganados, Pinguim! E ninguém dá por nada!
- Olha, o meu professor de Filosofia tinha razão:
“Desde que Eva enganou Adão,
Com o fruto proibido,
A vida tornou-se a ilusão
Do paraíso perdido!”
- Adão e Eva?! Tu acreditas nessa história? Também é uma grande
aldrabice!
- Não é aldrabice nenhuma, Catatua! Desde que a Eva enganou Adão, a falsidade
espalhou-se por toda a Terra como o vento!
- Estás a confundir tudo, Pinguim! Tu queres comparar a maçã da Eva com
um carro falsificado e com o vinho a martelo?!
- Fazer vinho a martelo, dar um fruto proibido ou falsificar um carro é
tudo a mesma coisa, Catatua: é enganar! É fraude!
- Enganar com frutos proibidos?! Não! Falsificar um carro é muito
mais grave, Pinguim!
- Pensas que se a Eva pudesse não enganava o Adão com um carro
falsificado? Ela já lá tinha as manhas todas! Só lhe faltava a tecnologia!
- Eu não acredito! Estou desiludido!
- É o que te digo, Catatua! A Eva não era de confiança, a Bíblia é que
não diz tudo!
- Que manhas é que ela tinha?
- As manhas que as mulheres têm! A tua mulher não pinta os olhos e não
faz depilação?
- Às vezes põe uma sombra nos olhos e quer que olhe para o novo penteado!
- A Eva, para manter a linha e aquele ar sedutor de mulher fatal, fez
plásticas, retirou gorduras localizadas, substituiu os seios por silicone, colocou
botox e andava sempre com aqueles decotes ousados e provocantes!
- Ah! Foi por isso que Adão se sentiu enganado! Se a minha Deolinda me
enganasse assim, dessa maneira, eu punha-a fora de casa!
- Um dia, ao acordar, Adão olhou para a Eva, ainda nos lençóis, e
disse-lhe: “ainda és pior do que os carros alemães! Para além do software, também tens o hardware todo falsificado!”
- Tu pensas que a Eva era, assim, tão velhaca que tenha deixado cá essa
peste, até hoje?
- Claro! Por causa dela é que nós temos que trabalhar como escravos,
Catatua!
- Por causa dela?! Então, não temos que fazer pela vida? Toda a gente tem
que trabalhar! Sempre foi assim!
- Estás enganado, muito enganado, Catatua! Adão e Eva foram castigados e
o castigo sobrou também para nós! Viviam no Jardim do Éden e não precisavam de
trabalhar!
- Eu não acredito nisso, Pinguim! Viviam de quê?
- Olha, viviam como a maior parte dos nossos políticos! Como é que eles
vivem?! A política não é uma espécie de Jardim do Éden para muita gente?!
- Alguns abotoam-se bem! Gostava de os ver aqui a vindimar e a carregar
as uvas para saberem o que é trabalho!
- Pois é! Não há certos gestores de empresas públicas e de outros
organismos do Estado que têm um cartão de crédito para viajar por todo o mundo e
irem a restaurantes de borla?!
- Queres dizer que Adão e Eva iam comer ao restaurante todos os dias, de
graça? Ou tinham também um amigo com uma conta choruda na Suíça?
- Melhor do que isso! O Jardim do Éden era uma espécie de resort de luxo! Não faltava ali nada!
Tinham fruta de toda a espécie, de melhor qualidade, sem precisarem de andar na
vindima como nós!
- Eu não acredito nessa história, Pinguim! Alguém pode passar a vida toda
em férias, como se tivesse um cartão de crédito com plafond ilimitado, comida à farta, diversões, viagens, tudo pago e
depois apanhar um castigo só por comer uma maçã, um fruto proibido?!
- Aí é que eu tenho algumas dúvidas, Catatua. A história não me parece
muito bem contada! Talvez a fruta tenha sido outra!
- Outra?! Qual?!
- Uns marmelos! E Deus tê-los-á apanhado em flagrante!
- Em flagrante?! Não estou a perceber!
- Estavam na marmelada! Foi um crime de desobediência!
- Que mal tinha isso, Pinguim? É o que se vê mais por aí, hoje!
- É muito grave, Catatua! Se a minha avó aqui estivesse dava-te logo a
resposta! “Não sabes o que diz o Pai-nosso”? “Seja feita a Vossa Vontade, assim
na Terra como no Céu”!
- Deus não os tinha feito um para o outro?! Não lhe arranjou uma namorada
para que ele não ficasse sozinho?!
- Tu já imaginaste o que é um par de namorados provar o fruto da árvore
da vida que estava no meio do Jardim, da árvore da ciência do bem e do mal, sem
autorização?!
- Da árvore da vida?! Que árvore é essa?
- Olha, Catatua, eu acho que não era uma árvore como as outras! O corpo
humano é a própria árvore da vida!
- Ora aí está! Deus não tinha dito para eles se multiplicarem e encherem
a Terra?!
- Aí é que está o problema, Catatua! Casar?! Engravidar?! Ter filhos?
Alto lá! Pára aí!
- Já estou a ficar baralhado outra vez, Pinguim! Então, Adão e Eva não
tiveram dois filhos?
- Dois, pelo menos, mas só depois do castigo! Antes, só queriam borga e
boa vida!
- Não me digas que a Eva já usava a pílula ou tinha legalizado o aborto!
- É muito provável! Eles não estavam a colaborar!
- Não estavam a colaborar com quem?
- Com Deus! Deus tinha acabado de criar a humanidade e se eles não
tivessem filhos, a espécie ficava, logo ali, em risco de extinção!
- Achas que foi por causa disso?!
- Hoje é a mesma coisa, Catatua! Não vês por aí essa malta nova que passa
a vida em farras, festas, férias e coisas assim, sempre a curtir, à custa dos
pais, sem arrumarem a vida?! Não vês que também estamos em perigo de extinção?!
Olha a natalidade!
- Então, achas que os jovens de hoje que provam o fruto proibido devem abandonar
o resort de luxo onde fazem farras e
festas e tem tudo pago?!
- A maior parte dos pais paga e deixa andar! Mas Deus apanhou-os em
flagrante, expulsou-os e começou a austeridade!
- O Quê?! A austeridade já vem desde Adão e Eva?!
- Claro que vem, mas hoje temos muito mais, porque os políticos pensam
que ainda estão no Jardim do Éden, têm todas as mordomias, depois quem paga
somos nós!
- Lá isso é verdade! Alguns só fazem promessas!
- Principalmente a esquerda! Promete tudo de bom, não quer saber de
dívidas mas, no fim, alguém há-de trazer a conta!
- Afinal, o Adão e a Eva casaram ou não casaram?
- Não tiveram outro remédio senão casar! Mas a Eva sentiu-se humilhada
por ter sido expulsa do paraíso!
- Qual era a profissão do Adão?
- Nenhuma! Nunca tinha feito nada na vida nem sabia fazer! Era tipo, um
“boy” que não foi reconduzido ou um deputado que perdeu o mandato! Ainda tentou
pedir um subsídio de reintegração mas Deus deu-lhe a Terra toda e disse-lhe que
se governasse porque também lhe tinha dado inteligência e liberdade suficientes
para isso!
- Então, ele tornou-se, assim, uma espécie de gestor ou um latifundiário?
- No princípio ele pensava que era o dono disto tudo, mas depois de cair
em desgraça foi para o desemprego e teve que tirar um curso de formação com
estágio não remunerado!
- Ah! Então, Adão e Eva eram um casal jovem, sem filhos à espera do
primeiro emprego?
- Foram lançados às feras, Catatua! O Éden transformou-se numa selva como
a maior parte dos nossos campos abandonados, por aí, cheios de mato, silvas e
ervas daninhas!
- Não acredito que encontrassem mais silvas do que as que temos hoje!
Além disso, podiam escolher os sítios mais agradáveis e mais férteis para
viver!
- Mas eles estavam no princípio do mundo! Não tinham quaisquer ajudas do
Estado, subsídios ou abonos! Estavam no zero! Adão teve que trabalhar no duro!
- Sem emprego, sem subsídio de desemprego, sem RSI e sem abono de
família! Como é que eles sobreviveram e criaram os filhos?!
- Como é que uma família cria, hoje, os filhos? Como é que podem comprar
livros, pagar propinas e ter acesso ao ensino superior?! Há muita gente a
passar fome e a ficar para trás!
- A Eva também ajudava o marido a cortar silvas e a colher os frutos?!
- Querias que ela fosse para lá estragar o botox? Tomara ela educar os filhos!
- Porquê? Achas que ela se baldou?!
- Não teve grande sucesso como encarregada de educação! Caim começou com
pequenos delitos na infância, atirava pedras aos pássaros e aos gatos, roubava
queijos e copiava nos testes!
- Foi verdade que o primeiro crime de homicídio ocorreu nessa altura, com
os filhos de Adão e Eva?
- Homicídio e fratricídio! Caim matou o irmão!
- O crime foi investigado e julgado ou foi arquivado por prescrever e
falta de provas como acontece hoje?
- Não tenho a certeza! Mas parece-me que Caim foi expulso de casa para
não criar mais problemas!
- Os irmãos zangaram-se porquê?
- Deus gostou muito das ofertas de Abel que era pastor mas o mesmo não
aconteceu com as de Caim que era agricultor!
- E só por isso é que Caim matou o irmão?
- O problema deve ter sido outro: Deus sabia que Caim tinha uma
licenciatura tirada ao domingo! E o domingo é um dia sagrado em que não se deve
trabalhar nem tirar licenciaturas!
