segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Atrás da cofragem LI

Palhaçadas
- Não sei o que é que se passa com o Alfredo! Pedi-lhe um café curto e traz-me esta banheira de água preta!
- Deve ter feito confusão, Catatua! Alguém pediu um abatanado e ele pensou que tivesses sido tu!
- Abatanado?! Aqui não há abatanados, Pinguim! Só em Lisboa!
- Ah! Já sei! Ele anda pior do que uma barata! Não o viste, há dias, todo assanhado?!
- Porquê? Aconteceu-lhe alguma desgraça?!
- Esqueceu-se de pagar o IUC em Fevereiro. Só se lembrou no princípio de Março!
- O imposto de circulação? E por causa disso é preciso andar, assim, alvoroçado?
- Recebeu uma carta das finanças! Ficou todo alterado, Catatua!
- Fraco! Fracote! Uma carta das finanças vai tirar a calma a um homem?!
- Ó Catatua, há por aí muita gente que fica aterrorizada só de ouvir falar nas Finanças! E o Alfredo vai ter que pagar uma coima de 25 euros!
- Para ele isso não é nada, Pinguim! Mais do que isso ganha ele aí a vender uns cafés e umas cervejas quando joga o Benfica!
- Não é pelo dinheiro, Catatua!
- Então? Ele pensa que é mais do que os outros?
- Não! Mas, o Alfredo, agora, também diz que a minha avó tem toda a razão!
- O quê?! A tua avó também se esqueceu de pagar o IUC?
- Não! Nada disso! Mas não pode com esta palhaçada que os políticos andam a fazer em Lisboa! Depois, nós é que pagamos!
- Que palhaçada, Pinguim?!
- Então, uma pessoa é castigada com uma coima só por um esquecimento de três ou quatro dias?
- É o que manda a lei! Se não pagar, não tem remédio!
- Ah é, Catatua?! E quantas vezes é que o Estado falta às promessas que faz e não paga as pensões e as reformas a tempo e horas?
- O Estado é o Estado! Nunca ouviste dizer que o Estado somos todos nós?!
- É por isso mesmo que a minha avó diz que o Estado não pode ser uma palhaçada sem rei nem roque?
- Uma palhaçada sem rei nem roque só por causa de um atraso na pensão da tua avó?!
- A minha avó diz que um esquecimento não é crime.
- Não é crime mas é uma infração, Pinguim!
- Porque é que o Estado despenaliza crimes muito mais graves, como o aborto, e não despenaliza uma infracção, um esquecimento?
- A tua avó anda sempre com queixinhas! Já a conheço há muito tempo!
- Queixinhas, Catatua?! Devias ver o que lhe aconteceu em Lisboa, na semana passada!
- O que é que a tua avó andou a bisbilhotar em Lisboa?
- A minha avó não andou a bisbilhotar nada! Foi com a minha mãe tratar de uns assuntos e veio de lá pasmada!
- O quê?! A tua avó nunca tinha ido à capital?
- Nada disso! A minha avó conhece Lisboa de uma ponta à outra! O pior…
- O pior?! Lisboa é uma cidade das mais bonitas do mundo!
- Pois é! Mas os transportes parecem os piores do mundo, Catatua!
- Os transportes?! Ah! Isso é porque havia jogo do Benfica! As ruas ficam todas bloqueadas!
- Qual jogo do Benfica? Para a próxima a minha avó vai de carro de bois ou de charrete!
- Carro de bois?! Coisas do passado! A tua avó tem medo de andar de metro?
- Nem de metro nem de autocarro! A minha avó não tem medo de nada!
- Também não gosta de andar de eléctrico? Alguns são autênticas peças de museu!
- A minha avó sabe isso tudo, Catatua! Ela lembra-se bem dos antigos autocarros verdes, de dois andares, e do metro que ia só até Sete Rios, Entre Campos e Alvalade!
- E então? O que é que lhe aconteceu, Pinguim?
- Tu não vês as notícias? Andas com os olhos e os ouvidos tapados?
- Notícias da viagem da tua avó a Lisboa?
- Não, Catatua! Do mau funcionamento dos transportes da capital!
- Estás a falar do metro? Oh! Sempre foi assim: nas horas de ponta as pessoas vão mais apertadas do que a sardinha na canastra!
- Pior do que isso, Catatua! Muitas pessoas ficam em terra e depois esperam, esperam uma eternidade pelo próximo!
- A tua avó pensa que o metro é como um foguetão?
- Ainda bem que não é! Com tantas avarias não ficava muito tempo no ar!
- Todas as máquinas precisam de manutenção, Pinguim! E o metro…
- Precisam de manutenção e reparação mas é preciso comprar peças e pagá-las!
- É por isso que há atrasos? Não me digas que os comboios andam com os rolamentos gripados!
- Não brinques, Catatua! Os jornais dizem que os comboios estão parados por falta de peças!
- Tu acreditas em tudo o que vem nos jornais?
- Acredito, acredito, Catatua! E que há empresas de transporte em Lisboa que dão milhões de euros de prejuízo?
- O que é que tu tens a ver com os prejuízos das empresas de transporte de Lisboa?! Tu raramente lá vais!
- É por isso mesmo, Catatua! Nós estamos a pagar os transportes que, muito raramente, usamos! Isto não é justo!
- Nós, não! Eu não pago nada, Pinguim!
- Ah! Não?! Quando o Estado paga aqueles prejuízos milionários, todos os anos, onde é que vai buscar o dinheiro? Não é aos nossos impostos?
- Os transportes têm uma função social! É natural que não dêem lucro!
- Só em Lisboa é que os transportes têm uma função social? Olha o Alfredo!
- O Alfredo também teve prejuízo?
- Pagou uma coima só por se ter esquecido do IUC do veículo que ele usa todos os dias para trabalhar!
- As leis estão feitas assim! Não há nada a fazer!
- Quem é que faz as leis, Catatua? É por isso que a minha avó diz que isto é tudo uma grande palhaçada!
- O que é que a tua avó percebe de leis?


- Não sei! Mas o que a minha avó não percebe é porque razão há empresas a dar milhões de euros de prejuízo com gestores que ganham milhões de euros ao fim do mês e o povo é que tem que pagar milhões em impostos para sustentar esta palhaçada toda! O que é que os gestores estão lá a fazer?!

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Atrás da cofragem L

O amigo da onça!
- Que bom que se está na praia, Catatua! Com este calor, sabe tão bem dar um mergulho e sentir esta brisa fresca!
- É pena só virmos ao fim de semana! O dinheiro não estica!
- É verdade! Não temos sorte nenhuma!
- Não temos sorte? Por que é que dizes isso?! Estás à espera do euro milhões?!
- Nada disso! O problema é que não temos quem nos convide e nos pague para ver um jogo da selecção ou para umas férias nas Caraíbas ou num daqueles sítios de sonho que nos mostram na televisão!
- Andas a sonhar demais! Trabalha! Trabalha para sustentares esses moinantes! Se não fosse o nosso trabalho, que seria deles?!
- Afinal, em que é que ficamos, Catatua?! Estás do lado deles ou não estás?! Ah! Tu és da mesma cor!
- Alto aí e pára o baile! Eu dou-lhes razão, quando a têm! Se não têm, não dou!
- Não foi isso que disseste no dia da final do europeu de futebol, no café do Alfredo! Não te lembras?! Dizias que a escola pública…
- O Estado tem obrigação de dar educação ao povo para que o povo não fique burro, toda a vida! Mais nada! O Estado não é dono da educação mas ninguém pode ficar de fora!
- Pareces um cata-vento, Catatua! Não disseste ao Alfredo que o governo tem toda a razão quando defende a escola pública? Eu não sou surdo!
- O governo não pode cortar as pernas aos alunos que estudam nos colégios! Era o que faltava!
- Não dizias que o Estado só deve pagar as escolas públicas e que quem escolher os colégios que os pague!
- Isso não é nó que se desate, assim, do pé para a mão, Pinguim! Não são favas contadas! Isso vai fazer correr muita tinta!
- Diz-me uma coisa, Catatua! A tua filha vai para o colégio ou para a escola pública?
- A minha filha vai para a escola onde sempre esteve! É a que está mais perto de casa! Não precisa de andar tantos quilómetros, se tem uma escola ao pé de casa!
- Como?! Essa não é uma daquelas escolas que está na lista dos cortes do governo?!
- A minha Daniela já me disse que não vai mudar de escola!
- Não é isso que a secretária de Estado dizia! Algumas turmas não podiam renovar a matrícula?
- Por que é que o colégio não pode renovar as matrículas, se já cá estava quando foi feita a escola pública?
- Tens razão, Catatua! A escola tem meia dúzia de anos e o Estado gastou lá uma pipa de massa!
- A minha filha não vai deixar as amigas nem os professores! E neste ano, a turma dela vai continuar!
- Então, como é que vais descalçar essa bota no ano que vem? Vais pagar, para a tua filha continuar no colégio?
- Como é que eu posso pagar, Pinguim?! Sabe Deus o que me custa pagar os livros e o material escolar!
- Há por aí muitas famílias que não vão poder pagar, Catatua! Vão ser obrigadas a pôr os filhos na escola pública!
- Obrigadas, Pinguim?! Obrigadas?! Que conversa é essa?! Já não há liberdade neste país?!
- É o que diz a minha avó, Catatua! Eles só falam em liberdade nos comícios, para caçar votos, mas depois, esquecem-se de tudo! Só sabem fazer promessas! É só garganta!
- Como é que eu posso pagar aquelas mensalidades todas, sem trabalho certo, a ganhar esta miséria de ordenado?! Não há trabalho! Não há obras para fazer!
- Foi isso que disse a minha avó: os pobres não têm liberdade! Só os ricos! Como é que os pobres podem pôr os filhos num colégio?!
- Desta vez o governo meteu o pé na argola! Os pobres como eu vão ficar em maus lençóis!
- O Alfredo diz que este governo promove a discriminação, o sectarismo e a exclusão social!
- Oh! O Alfredo?! Ele agora, também se quer armar em intelectual?!
- Ele tem razão, Catatua! O governo está a dividir os portugueses entre ricos e pobres. Os que podem pagar e os que não podem pagar os colégios! Quer voltar à luta de classes!
- Luta de classes?! A professora da minha Daniela disse que um dia vamos todos viver em liberdade, numa sociedade sem classes! Uma maravilha!
- Isso é treta, Catatua! Sociedade sem classes? Como, se quem quiser estudar nos colégios não pode contar com este governo?! Isso é discriminação!
- Isso não pode ser, Pinguim! A minha filha não pode ser discriminada! Eu não pago, também, os meus impostos, como os outros?
- Está visto! Os impostos que pagas não ajudam nada a tua filha! Se quiseres que ela continue no colégio, tens que pagar tudo do teu bolso!
- Amigos da onça! Saíram piores do que a encomenda! São uns amigos da onça!
- Amigos da onça?! Quem?! Os colégios?!
- Não! Este governo e quem os apoia!
- Este governo?! Porquê? Não estou a perceber!
- Não estás a ver, Pinguim? Não estás a ver?! São como certas pessoas que eu cá sei: quando lhes interessa, é só beijinhos e abraços, mas quando não lhes interessa, mandam toda a gente à fava!
- E muitos professores vão ficar no desemprego, Catatua! Vai ser um desastre! É isso que o governo não quer ver!
- Todos os anos há professores no desemprego, nas escolas do Estado! E muitos vão ficar lá com horário zero!
- Isso está certo, Catatua? Que grande injustiça! Já viste um pedreiro com horário zero a receber o ordenado sem fazer nada?!
- Isso não é bem assim, Pinguim! Quem tem horário zero tem que ir para uma escola onde tenha trabalho!
- Como?! Não há alunos! Cada vez há menos alunos! Por isso é que a minha avó diz que o primeiro ministro devia ter vergonha!
- Se nunca teve vergonha não é agora que a vai ter! Devia ter vergonha porquê, Pinguim?
- Cada vez há menos alunos e a natalidade em Portugal é das mais baixas da europa, mesmo assim, o primeiro ministro paga 100% a todas as mulheres que fazem abortos!
- Ó Pinguim, isso, do aborto, faz parte da liberdade da mulher!
- Que liberdade, Catatua?! Então, achas bem que o primeiro ministro dê toda a liberdade às mulheres que façam abortos, lhes pague todas as despesas e não dê liberdade nenhuma às mulheres que queiram escolher a escola para os seus filhos a quem não paga nada ou dá um abono miserável?!
- Eu sou pela liberdade, Pinguim! Mas essa é também uma grande argolada que vai sair cara a este governo!
- É por isso que o Alfredo também não pode com eles!
- O Alfredo?! Ele tira um bom ordenado no café! Pode bem escolher o colégio!
- Não é o que ele diz! A clientela está a baixar e os impostos levam-lhe tudo!
- O pior é aturar os bêbados, todos os dias! Quem é que ele vai pôr no colégio?!
- O filho, o Marito!
- O Marito?! Ele não tinha já deixado de estudar?
- Tinha, mas o Alfredo é teimoso, quer que o filho volte a pegar nos livros! Por isso é que o quer pôr no colégio!
- Tempo perdido, Pinguim! O melhor era arranjar-lhe um trabalho para o pôr na ordem!
- Isso queria ele! Onde é que ele consegue um trabalho a sério? Isso é coisa rara!

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Atrás da cofragem XLIX

Eles andam a mangar com o povo!
- Olha para esta vinha, Pinguim! Parece uma selva! Já cá devias ter vindo há muito tempo!
- O tempo não chega para tudo, Catatua! E tem chovido quase todos os dias!
- As cepas! Coitadas! Estão abafadas pela erva! Como podem dar uvas?!
- Há coisas piores! A minha avó diz que esta vinha é mais ou menos como a selva em que vivemos!
- Em que vivemos, não! Eu não vivo em selva nenhuma!
- Estás enganado, Catatua! Estamos rodeados de parasitas muito maiores do que estas ervas daninhas!
- Lá vens tu outra vez com as histórias da tua avó!
- A minha avó tem razão, Catatua! Ela adivinha sempre quando vai haver aumento de impostos!
- Isso é fácil de adivinhar, Pinguim! Cada vez que entra um novo governo há aumento de impostos! É sempre a subir!
- E cada vez dói mais! São como carraças a chupar o sangue!
- Mas este governo disse que ia virar a página da austeridade, não te lembras?! Temos que esperar para ver!
- Tu acreditas nisso, Catatua?! Bem podes esperar sentado! Onde é que já se viu alguém diminuir a austeridade, mas carregar mais nos impostos? Isso é treta! Eles andam a mangar com o povo!
- Essas coisas não se fazem de um dia para o outro, Pinguim! É como a vinha…
- A minha avó não acredita neste governo! Se ela pudesse, já o tinha demitido!
- A tua avó demitia o governo?! Oh! Ela pensa que é a dama de ferro?!
- Mais do que isso, Catatua! A minha avó é uma dama de aço! Tem ideias que não enferrujam! São como o aço inoxidável!
- Eu não acredito! A tua avó demitia o governo. Porquê?!
- Obviamente! Porque não cumpriu o que prometeu! Já chega de mentiras!
- Isso é o que fazem todos! Deixa andar, Pinguim! Não vale a pena!…
- Não vale a pena?! Se houver aí uma cepa bravia, que não dá uvas, não se arranca?! Ou fica aí a chupar a terra?!
- Enquanto houver vinho na adega e qualquer coisa que chegue para a bucha…
- Para a bucha?! Há aí muita gente a passar mal, Catatua, que já não tem, sequer, para a bucha!
- A tua avó mete-te cada ideia na cabeça!
- Ela tem razão, Catatua! Isto está cada vez pior! A gasolina sobe todas as semanas! Eles andam, mesmo, a mangar com o povo! E toda a gente se cala!
- O que é que ela quer? Por que é que a tua avó não vai para lá, para o governo?!
- Ela já pensou nisso, muitas vezes! E fazia melhor do que muitos que lá estão!
- Gostava de ver! Ela sabia lá entender-se com os políticos de Bruxelas?
- Tu não conheces a minha avó! Tu não a conheces, Catatua! Ela ia lá, bater o pé àquela corja sem vergonha! Ia lá sem medo nenhum! O que é que tu pensas?!
- Fazer o quê? O que é que ela sabe de leis?
- Ó Catatua, tu já viste isto?
- Isto, o quê?
- Esses políticos, lá da Europa juntamente com os nossos, acabaram com a agricultura e com a pesca, acabaram com os nossos empresários e levaram as fábricas à falência, roubaram o nosso dinheiro e levaram-no para os offshore e agora, querem castigar-nos quando o nosso deficit sobe mais do que eles querem? Isso é um abuso! Eles andam a mangar com o povo!
- O nosso governo também já bateu o pé à Europa! Já lá foi pedir para que não viessem para cá com sanções! Tu não viste as notícias?!
- E achas bem termos que nos ajoelhar e lamber as botas a Bruxelas e à Alemanha para não virem para cá com sanções, enquanto a França fica sem castigo nenhum?
- Deixa lá, Pinguim! A França é a França! Não penses mais nisso! Olha, isto é que tu devias ver! Com esta desgraça é que te deves preocupar!
- Que desgraça, Catatua?! Já estás a desviar a conversa?!
- Já viste como está a vinha da tua avó?! É só maleitas! A praga já está, aí, a atacá-la, com toda a força!
- É o que a minha avó diz: todas as pragas nos caem em cima, a praga da vinha, a praga do governo e a praga da Europa!
- Eh, lá tanta praga! A tua avó vê pragas em todo o lado! Mas tu tens que atacar já a praga da vinha se não queres ficar sem uvas! E as outras, deixa-as lá! Não podes fazer nada!
- Estás enganado, Catatua! Se não atacarmos as pragas da Europa e do governo não podemos atacar a praga da vinha!
- Essa agora! Porquê, Pinguim? Não te deixam curar a vinha?
- Claro que não, Catatua! E a minha avó tem toda a razão! Estas pragas são piores do que uma ditadura! Nunca se viu uma coisa assim!
- Uma ditadura?! Que conversa é essa?! Que eu saiba, a nossa democracia já tem mais de quarenta anos!
- Democracia?! Não! O que temos é uma grande bagunça com mais de quarenta anos, como diz a minha avó!
- Uma grande bagunça é o que a tua avó tem na cabeça, Pinguim! Bem me parece!
- Chamas democracia a isto? Um governo de três partidos em que nenhum ganhou as eleições? Ou não será uma ditadura de três partidos?
- Eles têm a maioria no parlamento! Não é o que dizem?!
- A maioria?! Diz-me uma coisa, Catatua: como é que os deputados que perderam as eleições têm poder para votar leis, um poder igual àqueles que as ganharam?!
- Eles representam o povo, tal como os outros!
- Representam o povo mas não podem mandar! Quem é que lhes deu o poder? Já viste três equipas de futebol que ficaram no fim ou no meio da tabela, somarem os pontos para ganharem o campeonato? Isso é uma grande aldrabice!
- Futebol é futebol e política é política, Pinguim! Basta ver que no futebol uma vitória dá três pontos e uma derrota dá zero.
- Pois é, Catatua! Porque é que, na política, uma vitória nas urnas não corresponde a uma vitória no parlamento?!
- No parlamento quem ganha é quem tem mais deputados, Pinguim!
- Mas como é que a soma de três derrotas dá mais pontos do que uma vitória?! No futebol também é assim?!
- Não! Mas na política, o que conta é a quantidade!
- E não conta também a qualidade? Como é que tu explicas que um voto de um deputado derrotado nas urnas tenha a mesma qualidade do voto de um deputado vencedor?
- Em democracia, os votos são todos iguais! Já te disse que no futebol as regras são diferentes!
- Diferentes?! Porquê?!
- No futebol há regras muito rigorosas! O árbitro está sempre a apitar! E na política…
- O problema é esse, Catatua! Alguma vez viste o árbitro da política a apitar?
- No futebol há cartões amarelos e vermelhos, jogos de suspensão, tecnologia de baliza e…
- Então, na política não devia ser a mesma coisa?! Tem menos valor do que o futebol? Não tem importância nenhuma?! Não precisa de regras?! É tudo uma bandalheira?!
- Querias que os políticos também levassem um cartão vermelho?!
- É por isso que a minha avó não se cala. Então, eles podem fazer essa bagunça toda na política e não a podem fazer no futebol?!
- O futebol não tem nada a ver com política, Pinguim! No futebol não há democracia! Manda a lei do mais forte! Este ano o Benfica foi o maior! Ganhou o campeonato!
- E na política manda a lei dos mais fracos?
- Já me estás a baralhar as ideias, Pinguim! Se manda a lei dos mais fracos por que é que dizes que eles estão a impor uma ditadura?
- Não sabes que os ditadores são todos, uns fracos?!
- Alguns têm armas muito fortes!
- Mas são os mais fracos em competência, em legitimidade eleitoral e na força da razão!
- Legitimidade eleitoral? Porquê?
- Porque os ditadores nunca ganham as eleições e obrigam o povo a cumprir certas leis que são injustas!
- Leis injustas? Que leis? És capaz de me dar um exemplo?
- Claro que dou, Catatua. Eu e a minha avó não podemos curar a vinha se não tivermos aquele cartão para comprar os produtos que sempre usámos para atacar estas pragas!
- O cartão dos fitossanitários?!
- Esse mesmo! Agora, o governo passou um atestado de ignorância toda a gente e obriga-nos a uma formação para aprendermos a fazer aquilo que já fizemos uma vida inteira?
- E é por isso que estamos em ditadura?!
- Uma ditadura a triplicar ou a quadruplicar porque vem de Lisboa e de Bruxelas! É o que diz a minha avó: se antes havia ditadura, só, porque era proibido falar, agora estamos muito pior, estamos proibidos de trabalhar!
- Há produtos muito perigosos, Pinguim! É preciso muito cuidado! Fazem muito mal ao ambiente!
- Se são assim tão perigosos para o ambiente por que é que os fabricam e os põem à venda?
- Mas alguns também fazem muito mal à saúde! Há muitos agricultores com graves doenças por causa disso!
- Se os políticos se preocupam assim tanto com a nossa saúde por que é que não exigem também um cartão aos fumadores quando vão comprar tabaco?
- Os fumadores não têm paciência para isso! Como é que eles poderiam alimentar o vício?
- Se o problema é a saúde, tu sabes de que químicos são feitas as pílulas e outros comprimidos que algumas mulheres põem no corpo para… para…
- Para não engravidar?! E querias que o governo também as obrigasse a ter um cartão?!
- Claro! Eles andam a mangar com o povo! Por que é que o governo me proíbe de comprar produtos para atacar a praga da vinha e não se preocupa com outras pragas muito piores? Assim não podemos governar a vida!