segunda-feira, 23 de maio de 2011

Atrás da cofragem XXXVII

Educação sexual II – as dúvidas do Catatua
- Gostava que alguém me explicasse isto tudo, muito bem explicadinho, Pinguim!
- A tua filha não te entregou um papel? Não vem lá tudo?
- Tudo?! Umas coisas! Assim… tudo muito vago!
- Muito vago? Como, Catatua?
- Eu sei lá se aquilo que eu percebo é o que lá está?
- Não percebeste o que lá está?
- Isso é o que eu gostava de saber!
- Não leste o papel?
- Ler, li. Mas… não sei…!
- Não sabes o quê? Não está bem…?
- Quero saber tudo! Quero perceber bem aquilo... o que vão ensinar! E para quê?!
- Não é a educação sexual?
- Mas o que é isso, Pinguim?! És capaz de me explicar? Educação sexual para os miúdos?
- Então, é… Olha, ao certo, ao certo, não sei. Quer dizer… vão ensinar coisas sobre…
- Vão ensinar o quê àquelas crianças que mal deixaram as fraldas?!
- Não me disseste que iam falar de amor… de relacionamentos afectivo-sexuais…?
- Amor?! Amor?! Tenham juízo!
- Porquê Catatua? Não queres que a tua filha…?
- Isso é coisa que se ensine, Pinguim? O que é que os professores ou as professoras sabem mais do que os outros sobre isso? Em que livro estudaram?
- Estudaram, com certeza… tiraram cursos…
- Alguém me ensinou? A mim? E à minha Deolinda? Foi-me preciso algum livro?
- E tu sabes tudo? Eles dizem que agora é diferente, Catatua! Que isso nunca foi falado na escola!
- É diferente? Pensam que eu não trato bem a minha filha em casa? Educação sexual?! Para a minha filha?! Para quê?!
- É para a tua filha e para as outras!
- Quero lá saber das outras!
- Tu sempre foste a favor! Agora, por ser para a tua filha é que és do contra?
- E tem que ser já? Não há outras coisas mais… outras coisas para ensinar?
- E ela? Não te disse nada?
- Já sabes como é! As colegas… e ela vai na onda!
- Achas que para elas, as meninas… não se devia falar nisso?
- Ó Pinguim, o que eu gostava … mesmo, mesmo…
- Gostavas de lá estar, para ver? Não é?
- De saber o que é que fazem dentro da sala! Do que é que falam!
- Lê o plano, já te disse! … ou então pergunta à Directora de Turma!
- Já lhe perguntei!
- E ela? Não te explicou?
- Ora aí está! O que é que eu te disse?
- Que não percebeste bem! Que ela…
- É bom de ver! Como é que tu queres que uma mulher…
- Não é uma mulher qualquer! É a Directora de Turma!
- E não é uma mulher? Como é que tu queres que fale de relações sexuais com…
- Que fale de quê, Catatua?
- Que fale de sexo, de educação sexual com um homem?
- Não me disseste que era de relações afectivo sexuais?
- E não é a mesma coisa?
- Não sei! Estou tal qual como tu!
- Não vês que começam, logo, por lhes dar aquelas… aquelas camisas? Sabes?
- Camisas? Que camisas?
- Camisinhas!
- Ah! Os preservativos?
- Não é a primeira coisa que aprendem nessas aulas? Até lhos dão de borla!
- Não sei se dão! Às alunas, também?
- Nem penses, Pinguim! À minha filha?! Não deixo que façam uma coisa dessas!
- Perguntaste à Directora de Turma?
- Nem quero perguntar! Dar camisinhas dessas à minha filha? Nunca!
- Dizem que é para evitar doenças…
- Evitar doenças? E eu não tenho, também, que evitar doenças?
- Querias camisinhas grátis! Não tens sorte!
- Isso é que está mal! Quem é que precisa mais delas? Está tudo ao contrário! Está o mundo do avesso!
- Mas também servem para evitar… outras coisas, Catatua!
- Eles pensam que a minha filha é dessas? Como nos filmes?
- Nos filmes? Também lá vêem filmes desses?
- Não sei! Mas... por isso é que eu digo: estão todos a brincar com o fogo!
- Às vezes, a minha avó diz o mesmo.
- Coisas para adultos! E vão dá-las a criancinhas?! Tenham juízo!
- Devia ser só para maiores de dezoito anos?
- Para maiores de dezoito anos e só para homens!
- Só para homens?
- Sim! Se nós usarmos as tais camisinhas para que é que elas precisam...?
- Ó Catatua, há aí uma coisa que eu não estou a perceber!
- Nunca usaste uma camisinha? Não sabes o que é isso?
- Se já usei ou não, não tens nada com isso! Mas se todos forem como tu para que te servem as tais camisinhas?
- O que não falta por aí são oportunidades!



sábado, 16 de abril de 2011

Memórias do Pinguim e do Catatua

A antiga cantina da EB23 do Agrupamento de Escolas de Montemor-o-Velho
Pinguim e Catatua decidiram partilhar algumas imagens de arquivo.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Onde está a liberdade?

Lealdade implica obediência?
Desde quando é que lealdade implica obediência? Ninguém se lembra da atitude do senhor primeiro ministro aquando da discussão do estatuto dos Açores que em desacordo com o senhor Presidente da República, respondeu que "liberdade não implica obediência"?
Porque é que um Coordenador da DREC tem que ser demitido só porque manifestou uma simples opinião?

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Atrás da cofragem XXXVI

Arroz “falhido”
- Então, Pinguim? Vieste trabalhar hoje?
- Porquê? Não havia de vir? Achas-me com cara de preguiçoso?
- Não! Ninguém te está a chamar preguiçoso! Mas pensei que...
- Que já tinha sido despedido! Queres ver-te livre de mim? Não é?
- Nada disso! Estás doido?!
- Que já estava no desemprego? Se eu for, vamos todos!
- Só pensas na crise, no desemprego... o diabo seja cego e surdo!
- Então? Já não há que fazer?! Está tudo acabado? Já não há trabalho?
- Não! Pensava que… estivesses de férias!
- De férias? No inverno?! Olha este! De férias!
- Então, não és quase um doutor?
- Endoideceste?! Este tempo faz-te mal à mona! Deves ter o cérebro congelado!
- Se não és doutor, para lá caminhas!
- Acordaste mal disposto? Tiraste o dia para me azucrinar a cabeça?!
- A estudantada não está toda nas férias do Natal? Pensei que estivesses no Brasil!
- Eu? No Brasil?! Vai pastar caracóis! Nem te quero ouvir!
- Não disseste que ias viajar… com a namorada?!
- Tu sonhas muito alto! Andas a sonhar demais!
- Não gostas do calor? Daquelas praias de sonho?
- Já te disse. Tu é que andas a sonhar. Mas quando acordares…
- Só gostas de climas frios, de neve e gelo… os pinguins são…
- Tu é que podias ter ido para a terra das catatuas, para mostrar a tua bela crista! Porque é que não aproveitaste?
- O que é que tens contra as catatuas?
- Nada!
- Abre uns roços aí, nessa parede! Temos que fazer isto depressa!
- Abrir roços para quê? O trabalho não ficou bem feito?
- Ficou, mas temos que modificar isto.
- Modificar o quê? O que é que vamos fazer aqui?
- Colocar as canalizações para pôr aqui uns sanitários.
- Já estou a ver tudo! Não querias que eu viesse para não ver esta vergonha!
- Qual vergonha?
- Estarmos aqui a partir esta parede!
- Nunca fizeste nada assim lá em casa?
- Ai! Se a minha avó visse isto!
- Isto, o quê? Já estava no projecto! Vai falar com o encarregado.
- E há mais! Há aí muita coisa que não funciona…
- O quê? O que é que não funciona?
- Olha, as portas estão a desmanchar-se, o alarme está sempre a tocar, a energia está sempre a faltar…
- As portas a desmanchar-se? Ainda te hás-de desmanchar primeiro do que elas!
- Não vês que tens que arrancar as unhas para abrir uma porta?
- Para mim, esta escola está cada vez melhor e mais bonita!
- Mais bonita? A minha avó ia morrendo quando viu esta escuridão…
- A tua avó devia cá vir, agora…
- Para quê? Queres acabar com ela?
- Para ver estes vasos de plantas que enfeitam os corredores e os átrios! Vê lá se não estão bonitos?
- Não penses que enganas a minha avó!
- Porquê? Ela não gosta de plantas?
- Não há ninguém que goste mais de plantas do que a minha avó! De todas as plantas!
- É por isso que ela devia cá vir!
- Só para ver as plantas?
- E ver que também cá há gente com bom gosto!
- Olha, sabes o que é que ela me disse ontem?
- Não. Não foi coisa boa, não!
- Que quer cá vir para ver o meu arrozal!
- O teu arrozal? No inverno? Dentro da escola?!
- Sim! Disse que eu devia ter aqui um grande arrozal!
- Ela está muito enganada! Isto não é nenhum pântano!
- É o arrozal que eu cultivo todos os dias à noite quando venho para as aulas, EFA – nível básico!
- Cada vez percebo menos, Pinguim!
- Eu também não estava a perceber…
- E então? Ela pensa que a escola é a herdade do arroz carolino?
- Disse que a escola tem mais arrozais do que todo o Baixo Mondego!
- Desta vez é que a tua avó perdeu o juízo todo!
- Porque aqui se fazem três colheitas por ano, disse-me ela!
- Três colheitas? Os jardins têm relva! Mas a relva não dá arroz!
- É a colheita do Natal, da Páscoa e…
- Só se for arroz doce!
- Não! Estás enganado! A minha avó diz que cada aluno é um arrozal!
- Do tipo japónico ou índica?
- Do japónico! Mas a minha avó desconfia que o meu arrozal está cheio de arroz “falhido”.
- Arroz “falhido”?
- É como na quinta. Nos sítios onde não há estrume, o arroz cresce, dá muita palha mas não dá grão!