Marito “O Baldas”
- Agora acabou-se a comédia, Catatua!
- Não acredito, Pinguim! O Alfredo já não tem mão nele! Não o segura, de maneira nenhuma!
- Se o Marito fosse teu filho, não fazias o mesmo?
- Talvez! Não sei!
- Só tirou negativas nos testes, falta às aulas, não pega nos livros! O que é que tu fazias?
- E achas que vai dar resultado? Só se o prender como um cão, à casota!
- Pelo menos já não vai andar, por aí, de mota … talvez aproveite o tempo!
- O que adianta trancar a mota a cadeado? Ele tem as dos amigos!
- Não, não! Sem mesada para a gasolina?! E com rédea curta?!
- Arranja sempre maneira de escapar! Já o viste alguma vez, em casa, agarrado aos livros?
- Só se for a servir de bandeja! Já estão cheios de nódoas de café!
- De bandeja?! Não, isso não vi, mas…
- E já não têm metade das folhas. Nas aulas, o Marito tem falta de material todos os dias.
- Isso pode lá ser, Pinguim? Se fosse assim já tinha chumbado!
- Chumbado? Já está mais que chumbado! É por isso que eu digo: ele devia vir para aqui, para o duro! Abrir alicerces, montar cofragens, atar ferro! Gostava de o ver com martelo pneumático nas mãos!
- Nem penses! Não o queria cá! Já que falaste em ferro, segura, aí, essa barra. Cuidado, se caíres, partes as costelas, lá, no fundo! Só páras na rua doutor José Galvão!
- Se o castelo de Montemor tivesse armaduras como estas, nas fundações, não estava, assim, em ruínas!
- Não está mau de todo! Tem, aí, muralhas vistosas! E vêm cá muitos turistas!
- É por isso que mandaram fazer esta escada nova?
- Escada rolante, Pinguim! Não é uma escada qualquer! Vai ser um mimo trepar esta encosta até ao castelo!
- Que grande baldas! Diz que não gosta daquilo! Não faz nada!
- Se não gosta e se está chumbado a meio do ano, porque é que não o põem a andar?
- Ah! O Alfredo, um dia, chega-lhe a roupa ao pêlo! Chega, chega! A gastar dinheiro para o menino andar à boa vida?!
- A gastar dinheiro?! Estás muito enganado, Catatua! Não gasta, nem um cêntimo!
- Não gasta um cêntimo?! E a matrícula, os livros, os…?
- E ainda tem subsídio! Tem tudo pago, Catatua! Tudo pago! Livros e tudo!
- Tem tudo pago?! Espera aí! Há qualquer coisa que eu não entendo: vai todos os dias para a escola, tem faltas de material, não estuda, está chumbado e a escola ainda lhe paga!
- É isso mesmo! Foi o que me disse o Alfredo!
- Tens, mesmo, a certeza disso?
- É como te digo! E quando quer lanchar, basta pedir uma senha!
- Para a minha filha, eu pago o passe todos os meses, a senha do almoço todos os dias, paguei não sei quanto da matrícula! Gastei um dinheirão nos livros, cadernos, canetas!… e o Marito…!
- Tem tudo de borla! Tudo de borla!
- Não poder ser, o Alfredo mentiu! De certeza! Foste enrolado!
- O Alfredo não é desses! Já alguma vez te mentiu? Pergunta-lhe!
- A minha filha paga, as colegas também! Sempre pagaram e agora…
- Da turma do Marito, ninguém paga nada!
- Não sei porque é que na turma da minha filha todos têm que pagar! Então, umas turmas são mais do que as outras?
- A tua Daniela só está no oitavo! O Marito não! Está mais adiantado!
- Mais adiantado?! Não estuda nada e está mais adiantado? Como pode ser isso?
- Não sei, Catatua! Parece mistério! No ano passado já era repetente e ia chumbar mais uma vez. O pai não esperava outra coisa! Era chamado cada vez que tinha negativa! Mas no fim, passou!
- Os professores não sabem o que fazem? Está visto! Passaram o Marito sem ele saber nada?
- Não sei! Sabes o que me parece? Os professores é que se passaram com ele e passaram-no! Perderam a paciência! Só pode ser!
- Não! Estás a imaginar coisas! A minha Daniela…
- O Marito, com negativas atrás de negativas! Os professores passaram-se, Catatua! Deram-lhe nota para passar e pronto! Se não, perdia o subsídio!
- Deram-lhe nota?! Sem ele merecer?! Tu estás maluco?
- Depois de estar no papel, quem é que vai saber? Fica com o diploma e…
- E os exames?! E os testes? E os trabalhos de casa? Está lá tudo! Há diplomas e diplomas! A minha Daniela tem cinco a tudo!
- Como é que os professores podem obrigar o Marito a estudar se não lhe podem levantar um cabelo e o pai não faz nada dele?
- O que os professores mandam é para cumprir! Eles têm outros modos, outras maneiras! O que não percebo é porque é que ele não paga! Não paga nada porquê?!
- A turma do Marito é profissional. É diferente, Catatua!
- Profissional? Então, o Marito já está chumbado e é profissional? Profissional de quê? E os outros não são profissionais?
- O Marito diz que o curso é profissional. No fim, vai trabalhar.
- A minha Daniela quer ser médica. Também vai trabalhar!
- Mas o Marito não quer estudar mais!
- Que não quer estudar sei eu! Se não tem notas…!
- Ele não quer ser médico nem engenheiro, não quer ir para a universidade e…
- Não quer ser médico e é profissional? E ainda lhe pagam! Essa agora!
- Não sei explicar, Catatua! Só sei que na turma do Marito ninguém paga nada!
- Não pagam, não pagam! São profissionais? E os médicos?
- O Alfredo poupa muito dinheiro! O negócio está fraco. É o que lhe vale para se safar da crise!
- E eu esfolo, aqui, o coiro a trabalhar, todos os dias! Pensam que sou rico?! Não é justo!
- O Marito é um sortudo! Não faz nada e dão-lhe tudo! Mas a minha avó também é contra!
- É contra o quê?
- Diz que os pais, agora, dão tudo aos filhos e por isso é que estamos em crise!
- A tua avó não sabe o que diz. Há pais que deixam os filhos a passar fome!
- Mas há outros que sempre deram tudo aos filhos que depois vão para deputado ou para o governo e nunca estudaram nada como o Marito. Acham que sabem mandar e têm direito a tudo mas põem toda a gente na miséria. Depois chamam a troika e fogem para viver à grande e à francesa!
