segunda-feira, 19 de março de 2012

Atrás da cofragem XXXIX

Marito “O Baldas”
- Agora acabou-se a comédia, Catatua!
- Não acredito, Pinguim! O Alfredo já não tem mão nele! Não o segura, de maneira nenhuma!
- Se o Marito fosse teu filho, não fazias o mesmo?
- Talvez! Não sei!
- Só tirou negativas nos testes, falta às aulas, não pega nos livros! O que é que tu fazias?
- E achas que vai dar resultado? Só se o prender como um cão, à casota!
- Pelo menos já não vai andar, por aí, de mota … talvez aproveite o tempo!
- O que adianta trancar a mota a cadeado? Ele tem as dos amigos!
- Não, não! Sem mesada para a gasolina?! E com rédea curta?!
- Arranja sempre maneira de escapar! Já o viste alguma vez, em casa, agarrado aos livros?
- Só se for a servir de bandeja! Já estão cheios de nódoas de café!
- De bandeja?! Não, isso não vi, mas…
- E já não têm metade das folhas. Nas aulas,  o Marito tem falta de material todos os dias.
- Isso pode lá ser, Pinguim? Se fosse assim já tinha chumbado!
- Chumbado? Já está mais que chumbado! É por isso que eu digo: ele devia vir para aqui, para o duro! Abrir alicerces, montar cofragens, atar ferro! Gostava de o ver com martelo pneumático nas mãos!
- Nem penses! Não o queria cá! Já que falaste em ferro, segura, aí, essa barra. Cuidado, se caíres, partes as costelas, lá, no fundo! Só páras na rua doutor José Galvão!
- Se o castelo de Montemor tivesse armaduras como estas, nas fundações, não estava, assim, em ruínas!
- Não está mau de todo! Tem, aí, muralhas vistosas! E vêm cá muitos turistas!
- É por isso que mandaram fazer esta escada nova?
- Escada rolante, Pinguim! Não é uma escada qualquer! Vai ser um mimo trepar esta encosta até ao castelo!
- Que grande baldas! Diz que não gosta daquilo! Não faz nada!
- Se não gosta e se está chumbado a meio do ano, porque é que não o põem a andar?
- Só quando os professores lhe derem as notas! Mas mesmo que esteja chumbado, não se rala!
- Ah! O Alfredo, um dia, chega-lhe a roupa ao pêlo! Chega, chega! A gastar dinheiro para o menino andar à boa vida?!
- A gastar dinheiro?! Estás muito enganado, Catatua! Não gasta, nem um cêntimo!
- Não gasta um cêntimo?! E a matrícula, os livros, os…?
- E ainda tem subsídio! Tem tudo pago, Catatua! Tudo pago! Livros e tudo!
- Tem tudo pago?! Espera aí! Há qualquer coisa que eu não entendo: vai todos os dias para a escola, tem faltas de material, não estuda, está chumbado e a escola ainda lhe paga!
- É isso mesmo! Foi o que me disse o Alfredo!
- Tens, mesmo, a certeza disso?
- É como te digo! E quando quer lanchar, basta pedir uma senha!
- Para a minha filha, eu pago o passe todos os meses, a senha do almoço todos os dias, paguei não sei quanto da matrícula! Gastei um dinheirão nos livros, cadernos, canetas!… e o Marito…!
- Tem tudo de borla! Tudo de borla!
- Não poder ser, o Alfredo mentiu! De certeza! Foste enrolado!
- O Alfredo não é desses! Já alguma vez te mentiu? Pergunta-lhe!
- A minha filha paga, as colegas também! Sempre pagaram e agora…
- Da turma do Marito, ninguém paga nada!
- Não sei porque é que na turma da minha filha todos têm que pagar! Então, umas turmas são mais do que as outras?
- A tua Daniela só está no oitavo! O Marito não! Está mais adiantado!
- Mais adiantado?! Não estuda nada e está mais adiantado? Como pode ser isso?
- Não sei, Catatua! Parece mistério! No ano passado já era repetente e ia chumbar mais uma vez. O pai não esperava outra coisa! Era chamado cada vez que tinha negativa! Mas no fim, passou!
- Os professores não sabem o que fazem? Está visto! Passaram o Marito sem ele saber nada?
- Não sei! Sabes o que me parece? Os professores é que se passaram com ele e passaram-no! Perderam a paciência! Só pode ser!
- Não! Estás a imaginar coisas! A minha Daniela…
- O Marito, com negativas atrás de negativas! Os professores passaram-se, Catatua! Deram-lhe nota para passar e pronto! Se não, perdia o subsídio!
- Deram-lhe nota?! Sem ele merecer?! Tu estás maluco?
- Depois de estar no papel, quem é que vai saber? Fica com o diploma e…
- E os exames?! E os testes? E os trabalhos de casa? Está lá tudo! Há diplomas e diplomas! A minha Daniela tem cinco a tudo!
- Como é que os professores podem obrigar o Marito a estudar se não lhe podem levantar um cabelo e o pai não faz nada dele?
- O que os professores mandam é para cumprir! Eles têm outros modos, outras maneiras! O que não percebo é porque é que ele não paga! Não paga nada porquê?!
- A turma do Marito é profissional. É diferente, Catatua!
- Profissional? Então, o Marito já está chumbado e é profissional? Profissional de quê? E os outros não são profissionais?
- O Marito diz que o curso é profissional. No fim, vai trabalhar.
- A minha Daniela quer ser médica. Também vai trabalhar!
- Mas o Marito não quer estudar mais!
- Que não quer estudar sei eu! Se não tem notas…!
- Ele não quer ser médico nem engenheiro, não quer ir para a universidade e…
- Não quer ser médico e é profissional? E ainda lhe pagam! Essa agora!
- Não sei explicar, Catatua! Só sei que na turma do Marito ninguém paga nada!
- Não pagam, não pagam! São profissionais? E os médicos?
- O Alfredo poupa muito dinheiro! O negócio está fraco. É o que lhe vale para se safar da crise!
- E eu esfolo, aqui, o coiro a trabalhar, todos os dias! Pensam que sou rico?! Não é justo!
- O Marito é um sortudo! Não faz nada e dão-lhe tudo! Mas a minha avó também é contra!
- É contra o quê?
- Diz que os pais, agora, dão tudo aos filhos e por isso é que estamos em crise!
- A tua avó não sabe o que diz. Há pais que deixam os filhos a passar fome!
- Mas há outros que sempre deram tudo aos filhos que depois vão para deputado ou para o governo e nunca estudaram nada como o Marito. Acham que sabem mandar e têm direito a tudo mas põem toda a gente na miséria. Depois chamam a troika e fogem para viver à grande e à francesa!

sexta-feira, 2 de março de 2012

Atrás da cofragem XXXVIII


O “Márito”
- Então não vais, hoje, à escola, Pinguim?
- Eu não! Nem quero saber!
- Então, como é?! Ora dizes uma coisa ora, outra?!
- Aquilo não me dá gozo nenhum, Catatua! Novas oportunidades?!
- Se estudasses a sério…
- Estas a dizer que eu não estudo a sério? E não está tudo nos livros, não foi o que me disseste, há tempos, Catatua?
- O que tu queres, já eu sei! Paródia!
- Olha, já aprendi francês e nem precisei de livros…
- Não acredito! Aprendeste francês? Então, se tivesses um patrão francês, eras capaz de lhe pedir um aumento?
- Oui messier! C’est vrai! J’ai déjà eu un patron français! J’ai travaillé en France pendant six mois. Tu as compris?
- Estamos em Portugal, fala-me em português. Deixa-te disso, Pinguim!
- Já não queres que fale em francês? Je vais inviter mon patron à visiter le château à Montemor-o-Velho et le nouvel ascenseur pour les touristes. Ils ne seront pas plus fatigués pour monter jusqu’à ce beau château.
- Turistas? Só pensas em turistas! Em passear…
- Mon patron, il ne connais pas cette région très belle, les plages, les montagnes, le soleil et les monuments.
- Passa-me esse balde de massa e deixa-te de lérias!
- Vou voltar para França, um dia, e não me vês mais! Estou farto de obras e de andar aqui a comer pó, a subir e a descer a encosta do castelo de Montemor!
- És um troca-tintas! Ora dizes que vais estudar para ser engenheiro, ora dizes que vais emigrar ou que vais…
- Isto não é vida, Catatua! Olha as minhas mãos todas gretadas, cheias de calos! Tira-me a vontade de estudar!
- Dizes sempre o mesmo!
- Para quê? Para ficar desempregado?
- Estás muito mal habituado! Também tenho calos nas mãos e não me queixo!
- Passo o dia a trabalhar no duro, Catatua! Quem é que tem paciência para olhar para aquela letra miudinha…?
- Os livros não têm só letra miudinha! E são mais leves do que estas pedras!
- Não dá, Catatua? Como é que eu tenho tempo? À noite, depois de um dia de trabalho?
- Pois é, mas não perdes um jogo do Ronaldo, no café do Alfredo, com o Zé, o Ricardo, o Fernando…
- Mentira, Catatua! Tenho que ajudar a minha avó… Sabes há quanto tempo não ponho lá os pés?
- Eu não te vi, na semana passada, com o filho dele, de mota?!
- Só fizemos um giro de motocross! Mas foi no domingo, só para tirar a ferrugem!
- O Alfredo quer que o miúdo se agarre aos livros, mas tu…
- Ó Catatua, bem sei que o Márito é um baldas, mas eu não tenho culpa!
- Ele não pega nos livros! Não estuda nada! O Alfredo martela-lhe os ouvidos, mas…!
- O Márito?! O Márito devia andar aqui a carregar baldes de massa, de manhã à noite, a montar cofragens…
- Isso era pior, Pinguim! Se já não gosta de livros, pior…
- Se fosse eu que mandasse, era isso que fazia! Para ele ver o que custa a vida!
- Olha este muro, Pinguim! Já está a ficar alto! Estás a ver? Nunca esteve assim! Tudo em pedra!
- Está a ficar bonito, Catatua! Mas essa pedra passou-me toda pelas mãos, não te esqueças!
- Quem te ouvir, há-de pensar que só tu é que trabalhas aqui!
- O Márito, a estudantada toda e os políticos! Esses é que deviam andar aqui seis meses! No duro! E só deviam comer sopa e peixe! Todos os dias!
- Peixe?
- Sim, Catatua! A minha irmã conta-me que ninguém, lá na cantina da escola, quer peixe! Nem sopa!
- E se não comessem o peixe?!
- Ias ver se não comiam! Com a fome a apertar! Se não tivessem mais nada…!
- E os políticos? Nem punham cá os pés! Eles sabem lá pegar numa colher de pedreiro?
- Deviam sentir, aqui, os pés cheios de pó e dores no corpo todo para aprenderem!
- Aprenderem o quê? Nem sabem para que serve o fio-de-prumo, quanto mais…
- A trabalhar no duro e a ganhar só o ordenado mínimo para saberem o que é a crise. Não é só andarem lá nos corredores do governo, de gravata, de sapato engraxadinho e a comerem bons almoços à custa de quem trabalha!