Parede de betão
- Isto é que é uma parede de betão bem feita, Pinguim. Nem é preciso fazer mais acabamentos!
- Estou cansado de desmontar tantos prumos, tantas vigas e tantas tábuas, Catatua.
- Coloca os prumos naquela palete para que a grua os possa içar.
- Não parece uma escola?
- Parece mais um bunker. Mesmo que aconteça aqui um grande tremor de terra, a escola não cai.
- Os engenheiros é que sabem. Só temos que fazer o que eles põem no papel…
- Eu não estou contra eles, Catatua. Só gostava de saber porque é que são precisas paredes assim, para uma biblioteca!
- Uma obra como esta tem que ficar bem segura, para durar muitos anos! Não pode cair ou abrir fendas se vier um terramoto…
- Mesmo assim!
- Ó Pinguim, não sabes que estas paredes podem estar sujeitas a fortes esforços de compressão, de flexão e?…
- Eu é que ando aqui sujeito a esforços de compressão, de tracção e de deformação, Catatua!
- Os engenheiros é que fizeram os estudos sobre o comportamento sísmico, deslizamento ou abatimento de solos, quando a chuva ensopa a terra…
- É pena que os engenheiros só façam estudos para isto e ninguém pense noutros terramotos...
- Noutros terramotos? Não estou a perceber, Pinguim!…
- Sabes muito bem que terramotos são, Catatua…
- Quais?
- Já viste na televisão as casas todas destruídas, as paredes desfeitas, nos sítios de grandes tremores de terra?
- Já!
- Olha que eu tenho pensado muito nisto…
- Pensado muito em quê?
- Na minha vida!
- Na tua vida? Nos tremores de terra? O que é que tu queres dizer?
- No grande terramoto da minha vida.
- O grande terramoto da tua vida? Deves estar a brincar, até me dás vontade de rir…
- Mas não é para rir, Catatua. Desde que o meu pai saiu de casa a minha vida ficou feita em cacos…
- E o que é que querias que os engenheiros fizessem?
- Que fizessem qualquer coisa como uma parede de betão como esta, construída na obra, para impedir que o meu pai e muitos pais abandonassem os filhos!
- Querias que o teu pai ficasse fechado dentro de casa?
- Não… que ele sentisse que tinha uma parede de betão à frente quando pensasse em abandonar-me.
- Ó Pinguim, não vale a pena!... Deixa!... Estás sempre a voltar ao mesmo!
- Ainda me lembro, como se fosse hoje. Foi numa sexta-feira. Fiquei à espera, à espera, junto à escola primária e o meu pai nunca mais apareceu.
- Já passaram mais de dez anos… esquece isso…
- O meu tio viu-me ali, perguntou-me o que estava ali a fazer, tão tarde. Eu disse: “o meu pai esqueceu-se de mim”! Ele, então, ofereceu-me boleia na carrinha dos pedreiros.
- Tens que olhar para o futuro, Pinguim.
- Desde então, eu é que tenho construído, sozinho, a minha vida.
- Foi por isso que vieste para as obras?
- Não quero favores de ninguém!
- Se vivesses com a tua mãe, a tua irmã e o teu padrasto, estarias a pedir-lhes favores?
- Padrasto não é pai. É um pai de segunda!
- Ele não é bom para ti?
- Não é bom, nem mau. Para mim é como uma pessoa qualquer...
- Agora que já tens uma irmã, que é filha dele e da tua mãe…
- É por isso que eu não gosto nada de misturas, de meios irmãos e meias irmãs.
- Não falas com a tua “meia irmã”?!
- Falo. Ela não tem culpa de nada.
- Pediste-lhe os livros para estudar, não foi?
- Alguns livros do ano passado.
- Estudaste muito no domingo e ouviste música?
- O meu avô tinha uma dor nas costas, dizia que era uma pontada, que não conseguia fazer nada. Pediu-me para tratar das vacas todas, das galinhas… nem descansei quase nada!
- Se tivesses vindo, comigo, à pesca tinhas descansado mais…
- Quando estou cansado até tenho mais sonhos!...
- Se os sonhos forem bons, tens que fazer, aqui, os trabalhos mais duros!
- Sonhei que a minha mãe tinha vindo aqui...
- Para ver as obras?
- Não! Veio perguntar se precisávamos de materiais de construção.
- Materiais de construção?
- Como ela está no escritório e as vendas são poucas, o patrão mandou-a cá!

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