sexta-feira, 7 de abril de 2017

Atrás da cofragem LIII

O bordel da política
- A Primavera começa com cara de Inverno, Catatua! Com este frio as batatas congelam debaixo da terra!
- Mal por mal, antes queria trabalhar nas obras, Pinguim!
- Obras?! Que obras? Os velhos morrem e deixam as casas a cair, os novos emigram…!
- Está um vento desagradável! A vida não está nada fácil!
- Os políticos é que deviam vir para aqui cavar e semear as batatas para verem o que custa a vida em vez de andarem a mandar bocas uns aos outros!
- Tu não achas que o holandês se devia demitir, Pinguim?
- Demitir porquê? O homem disse alguma coisa de grave?
- Ofendeu as pessoas! Disse coisas que não devia dizer!
- O que é que ele disse, Catatua? Não me digas que também ficaste ofendido?
- Eu trabalho todos os dias, Pinguim! Tenho lá tempo para andar na má vida?!
- Então, ele acusou-te de passares o tempo na paródia?!
- Não nomeou ninguém, mas disse que os países do sul gastam o dinheiro com mulheres e copos! Isso ouvi eu!
- Não acredito, Catatua! Tu enfiaste logo a carapuça?! Então, quer dizer que tu… Ah! Se a tua Deolinda sabe!
- Não te ponhas, aí, com maus pensamentos, Pinguim! Não sejas desconfiado! Olha que eu… nunca gastei dinheiro…
- Não estou com maus pensamentos! Mas tu és, tal e qual, a figura de quem está no governo!
- Eu?! A figura de quem está no governo?! Não estou a perceber!
- Certas pessoas que eu cá sei ficam muito ofendidas com o que os outros dizem, mas nunca se ofendem nem se envergonham com as suas próprias asneiras que são muito piores!
- Muito piores?! Quais?
- Tens a memória muito curta, Catatua! Conheço muita gente assim!
- A minha memória?! Tenho mais coisas em que pensar, Pinguim!
- Pois é! Já te esqueceste das promessas de que não ia aumentar os impostos!
- Eu também fiquei revoltado! Sabes muito bem! Foi uma grande aldrabice!
- Também prometeu que ia virar a página da austeridade! Não foi?!
- Eu acho que a austeridade nunca mais acaba, Pinguim! É uma doença que já chegou até aos ossos!
- Lembras-te de outras promessas mais antigas de que as SCUT eram auto estradas sem portagem?!
- Todos mentem, Pinguim! O governo e os outros! Eles passam a vida a mentir!
- Prometeu que ia aumentar o rendimento das famílias, melhorar os serviços públicos, acabar com o desemprego, resolver o problema dos bancos sem sacar mais dinheiro ao povo, etc., etc.
- Basta, Pinguim! Basta! Vamos pôr as batatas na terra para não morrermos à fome! O que é que a gente há-de fazer?!
- A minha avó também diz o mesmo! Já não há remédio! Se quem está no governo tivesse um pingo de vergonha!
- A tua avó também não resolve nada! O que é que ela quer dizer com essa conversa?
- Se ele tivesse um pingo de vergonha talvez pusesse a mão na consciência!
- Na consciência?! Não sei o que é que a tua avó quer dizer com isso! Já viste algum político pôr a mão na consciência?
- O problema é esse, Catatua! A maior parte dos políticos só sabe pôr a mão onde não deve!
- E a tua avó acredita que pôr a mão na consciência é o remédio para acabar com as mentiras dos políticos?
- Sabes que a minha avó é uma mulher de muita fé! Vive a quaresma muito a sério!
- A quaresma?! E então?! A tua avó pensa que toda a gente é como ela?!
- Já que estamos na quaresma, era tempo do chefe do governo se arrepender, fazer penitência e pedir perdão!
- Fazer penitência?! A tua avó devia estar a delirar! Já viste algum político a andar descalço e a passar os dias a pão e água?
- Tens razão, Catatua! A austeridade sobra sempre para o povo!
- Pedir perdão?! Como é que ele pode pedir perdão se não acredita em Deus?!
- Isso não é desculpa, Catatua! Devia pedir perdão a todos os portugueses! Se ele não acredita em Deus porque não O vê, devia vir aqui, pedir-nos perdão. Nós existimos. Não tem desculpa de que não nos vê!
- Pedir perdão de quê, Pinguim? Ele vai dizer que não tem pecados!
- Ah! Pois! Os políticos nunca têm pecados! Mas, não ouviste aquele grande rol de mentiras?
- E qual deveria ser a penitência para tanta mentira?
- A penitência deveria ser a demissão! Imediatamente. Não foi isso que ele pediu para o holandês?
- Mas ele acusou o holandês de proferir afirmações “sexistas, xenófobas e racistas” que vão contra os valores da União Europeia e por isso devia desaparecer!
- Que autoridade tem uma pessoa destas para dar lições de moral a quem quer que seja se foi para o governo sem ganhar as eleições e à custa de grandes mentiras?
- Então, isto de dizer que as pessoas gastam dinheiro com mulheres e copos e depois vão lá pedir dinheiro não é uma acusação grave? Eu não ando a viver à custa dos outros!
- Não sei se andam a gastar dinheiro com mulheres ou com homens, Catatua! Nem quero saber!
- Nem eu! Nada disso! O mundo anda todo ao contrário! Mas muita gente ficou ofendida por essa europa fora!
- Ó Catatua, o que eu gostaria de saber era para onde foram os milhões e milhões que a Europa mandou para cá, anos e anos a fio e por que razão estamos agora na bancarrota e na miséria!
- Afinal, achas que o holandês mentiu ou não mentiu?
- Sabes o que te digo? Os políticos são uns grandes mentirosos, mas quando algum diz uma verdade, cai logo o “Carmo e a Trindade”! Não é?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Atrás da cofragem LII

Mentiras e aldrabices
- Também ouviste falar das mentiras do governo, Catatua?
- Das mentiras do governo?! Eu tenho que trabalhar, Pinguim! Tenho lá tempo para paródias?! Um pedreiro…
- Tu não ouviste falar dessas trapalhadas?! Há tanto tempo que se fala disso!
- Trabalho de manhã à noite! Chego a casa mais morto do que vivo! O que eu quero é descanso e que ninguém me diga nada!
- Nem tudo ao mar nem tudo à terra, Catatua! Então…!
- Isso é para quem não tem mais que fazer! Tretas, Pinguim! Tretas!
- Não me digas que não ouves as notícias do que se passa por aí!
- Ouvi, ouvi qualquer coisa mas… Vamos ao trabalho e deixa-te de lérias!
- Ah! Então! Tu não te importavas que alguém te pregasse uma grande mentira?! És do naipe deles!
- Olha lá, tu nunca mentiste, Pinguim?
- Que eu me lembre não… não costumo mentir! Eu falo de frente para as pessoas! Olhos nos olhos, Catatua!
- Nem quando eras miúdo? Aquelas mentirinhas que toda a criançada faz, na brincadeira…?!
- Nunca menti à minha professora! E fazia quase sempre os trabalhos de casa!
- Nunca mentiste à tua mãe ou à tua avó?
- Já não me lembro muito bem, mas… acho que não!
- Não acredito! Não te esqueças que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo!
- Eu sei, Catatua! Mas…
- Mas, o quê, Pinguim?
- Isto, agora, não é brincadeira nenhuma, Catatua! A coisa é séria!
- É séria?! Vais ver que isso vai ficar em águas de bacalhau! Arranjam lá umas desculpas e pronto! É como as comissões de inquérito!
- Olha que a minha avó não gostou nada desta grande trafulhice, Catatua! Ficou cá com uma cara!
- E a tua avó que não ficasse toda furiosa! Era para admirar!
- Mas a minha avó tem toda a razão! Isto não pode ser!
- Oh! O que é que isso lhe vale?!
- Se toda a gente se puser por aí a mentir quem é que pode confiar em alguém?!
- Mas nem toda a gente é mentirosa! Há muita gente séria!
- Nunca ouviste dizer que anda meio mundo a enganar o outro meio?!
- Tu acreditas em tudo, Pinguim? Isso não é bem assim! São ditos!
- E se for o chefe a mentir?
- O chefe? Qual chefe?
- Quem diz o chefe, diz o governo! Quem faz parte do governo não pode mentir!
- Pois não, mas são os que mentem mais! Que queres que eu faça?
- E tu ficas assim, na mesma?! Não dizes nada?!
- O que é que tu queres que eu diga? Que me ponha aí a gritar, feito doido?!
- Não, nada disso, Catatua! Mas tu ficas assim, mudo e calado?! Não te revoltas?
- Vamos trabalhar, Pinguim! Temos ali aquela massa toda para gastar! Daqui a pouco é noite!
- Não podemos ficar calados, Catatua! Já não é a primeira vez! Mentem todos os dias!
- Estás a ver esta linha de pedreiro, Pinguim?
- Estou! O que é que tem a linha?
- Os pedreiros não fazem trapalhadas! Os tijolos ficam, aí, todos alinhados e aprumados!
- Que grande novidade, Catatua! Se não for assim, as paredes ficam tortas e empenadas! E um dia vem a casa toda abaixo!
- Por isso é que eu digo que um pedreiro não pode fazer aldrabices! Um bom profissional faz tudo bem feito! A obra tem que ficar perfeita!
- É também por isso que a minha avó não se cala! O governo anda todo desalinhado!
- Oh! Eles são profissionais de quê?! Já os viste a chapar massa ou a montar tijolos?! Gostava de os ver aqui!
- São profissionais da mentira! A minha avó diz que só sabem mentir e aumentar os impostos! Estamos desgraçados!
- Se viessem para aqui comer pó como nós, de manhã à noite…! Eles nem sabem pegar numa régua ou numa colher de massa!
- São mentiras atrás de mentiras, Catatua! Há anos que o povo anda a ser enganado!
- Mãos à obra! Temos muito que fazer! Olha que o trabalho não espera!
- Ó Catatua, o que seria de uma família se todos mentissem, uns aos outros?
- Tu, hoje, não te calas, Pinguim?! Andas a fazer o jogo da oposição! Bem me parece!
- Sentes-te, assim, tão incomodado? Perdes a paciência tão depressa?!
- Não perco a paciência! Já estou farto! Já estou farto dessa conversa! Só falas em mentiras e mentirosos!
- Tem calma, não te enerves, Catatua! Tens algum problema em falar do assunto?!
- Não, mas temos aí muito que fazer! Não te esqueças!
- Calma, ainda estamos na hora do almoço!... Ah!... Já estou a ver tudo! Tu, às vezes também gostas de pregar umas mentirinhas lá em casa! Não é? Confessa lá!
- O quê?! Tu pensas que eu engano a minha mulher?! Eu não te admito que digas uma coisa dessas!
- Não! Nada disso, Catatua! Mas diz-me: o que seria, se numa família, todos mentissem uns aos outros?
- Numa família?! Que família?
- Numa família qualquer!
- Olha que o governo não é uma família, Pinguim!
- Não é uma família?! Mas é muito mais importante do que uma família! E se vires bem, o governo tem lá mais famílias do que tu pensas!
- Não são só os “boys”?!
- Agora são os “boys”, as “girls” e toda a família! Ouve esta, agora, Catatua: o que seria se o marido, com a ajuda do advogado, contratasse uma empregada lá para casa sem contar nada à mulher?
- Talvez a mulher dele não soubesse cozinhar! Acho que fazia muito bem!
- E se o marido e o advogado ajustassem com a empregada um bom ordenado, um ordenado chorudo, em segredo e às escondidas da mulher e dos filhos?!
- A mulher podia desconfiar, mas as mulheres são quase todas muito desconfiadas, Pinguim!
- E se o advogado trocasse SMS com a empregada a confirmar que ela não seria obrigada a declarar, lá em casa ou nas finanças, a fortuna que iria ganhar por mês?
- Não vale a pena fazeres essas comparações, Pinguim! Ninguém se iria preocupar com isso!
- E se o marido transferisse dez mil milhões de euros para offshore sem dizer nada à mulher nem aos filhos?
- Olha lá?! Onde é que há famílias que tenham dez mil milhões de euros no banco se quase toda a gente ganha um ordenado mínimo miserável que mal chega para comer e para pagar os impostos ao Estado?
- Então para ti, mentir ou não mentir é tudo a mesma coisa, Catatua?
- Quem é que, nessa família, iria descobrir a diferença entre a verdade e a mentira?
- Essa agora! Então tu pensas que a mulher, os filhos e os amigos da família andavam todos cegos?
- Não! Mas, tu não sabes que uma mentira, repetida todos os dias, passa a ser uma verdade?
- Não pode ser, Catatua! A mentira não se pode confundir com a verdade! A mulher e os filhos teriam de criar uma nova comissão de inquérito para apurar a verdade até às últimas consequências!
- Impossível, Pinguim! Uma mentira votada, democraticamente, transforma-se em verdade oficial do regime!
- Bem, nesse caso, só lhes resta o protesto e umas queixinhas contra a opressão da ditadura da esquerda unida e da claustrofobia democrática porque:
Para a mentira ser verdade,
Sem causar a discussão,
Tem que vir da autoridade,
Livre de toda a oposição!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Atrás da cofragem LI

Palhaçadas
- Não sei o que é que se passa com o Alfredo! Pedi-lhe um café curto e traz-me esta banheira de água preta!
- Deve ter feito confusão, Catatua! Alguém pediu um abatanado e ele pensou que tivesses sido tu!
- Abatanado?! Aqui não há abatanados, Pinguim! Só em Lisboa!
- Ah! Já sei! Ele anda pior do que uma barata! Não o viste, há dias, todo assanhado?!
- Porquê? Aconteceu-lhe alguma desgraça?!
- Esqueceu-se de pagar o IUC em Fevereiro. Só se lembrou no princípio de Março!
- O imposto de circulação? E por causa disso é preciso andar, assim, alvoroçado?
- Recebeu uma carta das finanças! Ficou todo alterado, Catatua!
- Fraco! Fracote! Uma carta das finanças vai tirar a calma a um homem?!
- Ó Catatua, há por aí muita gente que fica aterrorizada só de ouvir falar nas Finanças! E o Alfredo vai ter que pagar uma coima de 25 euros!
- Para ele isso não é nada, Pinguim! Mais do que isso ganha ele aí a vender uns cafés e umas cervejas quando joga o Benfica!
- Não é pelo dinheiro, Catatua!
- Então? Ele pensa que é mais do que os outros?
- Não! Mas, o Alfredo, agora, também diz que a minha avó tem toda a razão!
- O quê?! A tua avó também se esqueceu de pagar o IUC?
- Não! Nada disso! Mas não pode com esta palhaçada que os políticos andam a fazer em Lisboa! Depois, nós é que pagamos!
- Que palhaçada, Pinguim?!
- Então, uma pessoa é castigada com uma coima só por um esquecimento de três ou quatro dias?
- É o que manda a lei! Se não pagar, não tem remédio!
- Ah é, Catatua?! E quantas vezes é que o Estado falta às promessas que faz e não paga as pensões e as reformas a tempo e horas?
- O Estado é o Estado! Nunca ouviste dizer que o Estado somos todos nós?!
- É por isso mesmo que a minha avó diz que o Estado não pode ser uma palhaçada sem rei nem roque?
- Uma palhaçada sem rei nem roque só por causa de um atraso na pensão da tua avó?!
- A minha avó diz que um esquecimento não é crime.
- Não é crime mas é uma infração, Pinguim!
- Porque é que o Estado despenaliza crimes muito mais graves, como o aborto, e não despenaliza uma infracção, um esquecimento?
- A tua avó anda sempre com queixinhas! Já a conheço há muito tempo!
- Queixinhas, Catatua?! Devias ver o que lhe aconteceu em Lisboa, na semana passada!
- O que é que a tua avó andou a bisbilhotar em Lisboa?
- A minha avó não andou a bisbilhotar nada! Foi com a minha mãe tratar de uns assuntos e veio de lá pasmada!
- O quê?! A tua avó nunca tinha ido à capital?
- Nada disso! A minha avó conhece Lisboa de uma ponta à outra! O pior…
- O pior?! Lisboa é uma cidade das mais bonitas do mundo!
- Pois é! Mas os transportes parecem os piores do mundo, Catatua!
- Os transportes?! Ah! Isso é porque havia jogo do Benfica! As ruas ficam todas bloqueadas!
- Qual jogo do Benfica? Para a próxima a minha avó vai de carro de bois ou de charrete!
- Carro de bois?! Coisas do passado! A tua avó tem medo de andar de metro?
- Nem de metro nem de autocarro! A minha avó não tem medo de nada!
- Também não gosta de andar de eléctrico? Alguns são autênticas peças de museu!
- A minha avó sabe isso tudo, Catatua! Ela lembra-se bem dos antigos autocarros verdes, de dois andares, e do metro que ia só até Sete Rios, Entre Campos e Alvalade!
- E então? O que é que lhe aconteceu, Pinguim?
- Tu não vês as notícias? Andas com os olhos e os ouvidos tapados?
- Notícias da viagem da tua avó a Lisboa?
- Não, Catatua! Do mau funcionamento dos transportes da capital!
- Estás a falar do metro? Oh! Sempre foi assim: nas horas de ponta as pessoas vão mais apertadas do que a sardinha na canastra!
- Pior do que isso, Catatua! Muitas pessoas ficam em terra e depois esperam, esperam uma eternidade pelo próximo!
- A tua avó pensa que o metro é como um foguetão?
- Ainda bem que não é! Com tantas avarias não ficava muito tempo no ar!
- Todas as máquinas precisam de manutenção, Pinguim! E o metro…
- Precisam de manutenção e reparação mas é preciso comprar peças e pagá-las!
- É por isso que há atrasos? Não me digas que os comboios andam com os rolamentos gripados!
- Não brinques, Catatua! Os jornais dizem que os comboios estão parados por falta de peças!
- Tu acreditas em tudo o que vem nos jornais?
- Acredito, acredito, Catatua! E que há empresas de transporte em Lisboa que dão milhões de euros de prejuízo?
- O que é que tu tens a ver com os prejuízos das empresas de transporte de Lisboa?! Tu raramente lá vais!
- É por isso mesmo, Catatua! Nós estamos a pagar os transportes que, muito raramente, usamos! Isto não é justo!
- Nós, não! Eu não pago nada, Pinguim!
- Ah! Não?! Quando o Estado paga aqueles prejuízos milionários, todos os anos, onde é que vai buscar o dinheiro? Não é aos nossos impostos?
- Os transportes têm uma função social! É natural que não dêem lucro!
- Só em Lisboa é que os transportes têm uma função social? Olha o Alfredo!
- O Alfredo também teve prejuízo?
- Pagou uma coima só por se ter esquecido do IUC do veículo que ele usa todos os dias para trabalhar!
- As leis estão feitas assim! Não há nada a fazer!
- Quem é que faz as leis, Catatua? É por isso que a minha avó diz que isto é tudo uma grande palhaçada!
- O que é que a tua avó percebe de leis?


- Não sei! Mas o que a minha avó não percebe é porque razão há empresas a dar milhões de euros de prejuízo com gestores que ganham milhões de euros ao fim do mês e o povo é que tem que pagar milhões em impostos para sustentar esta palhaçada toda! O que é que os gestores estão lá a fazer?!

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Atrás da cofragem L

O amigo da onça!
- Que bom que se está na praia, Catatua! Com este calor, sabe tão bem dar um mergulho e sentir esta brisa fresca!
- É pena só virmos ao fim de semana! O dinheiro não estica!
- É verdade! Não temos sorte nenhuma!
- Não temos sorte? Por que é que dizes isso?! Estás à espera do euro milhões?!
- Nada disso! O problema é que não temos quem nos convide e nos pague para ver um jogo da selecção ou para umas férias nas Caraíbas ou num daqueles sítios de sonho que nos mostram na televisão!
- Andas a sonhar demais! Trabalha! Trabalha para sustentares esses moinantes! Se não fosse o nosso trabalho, que seria deles?!
- Afinal, em que é que ficamos, Catatua?! Estás do lado deles ou não estás?! Ah! Tu és da mesma cor!
- Alto aí e pára o baile! Eu dou-lhes razão, quando a têm! Se não têm, não dou!
- Não foi isso que disseste no dia da final do europeu de futebol, no café do Alfredo! Não te lembras?! Dizias que a escola pública…
- O Estado tem obrigação de dar educação ao povo para que o povo não fique burro, toda a vida! Mais nada! O Estado não é dono da educação mas ninguém pode ficar de fora!
- Pareces um cata-vento, Catatua! Não disseste ao Alfredo que o governo tem toda a razão quando defende a escola pública? Eu não sou surdo!
- O governo não pode cortar as pernas aos alunos que estudam nos colégios! Era o que faltava!
- Não dizias que o Estado só deve pagar as escolas públicas e que quem escolher os colégios que os pague!
- Isso não é nó que se desate, assim, do pé para a mão, Pinguim! Não são favas contadas! Isso vai fazer correr muita tinta!
- Diz-me uma coisa, Catatua! A tua filha vai para o colégio ou para a escola pública?
- A minha filha vai para a escola onde sempre esteve! É a que está mais perto de casa! Não precisa de andar tantos quilómetros, se tem uma escola ao pé de casa!
- Como?! Essa não é uma daquelas escolas que está na lista dos cortes do governo?!
- A minha Daniela já me disse que não vai mudar de escola!
- Não é isso que a secretária de Estado dizia! Algumas turmas não podiam renovar a matrícula?
- Por que é que o colégio não pode renovar as matrículas, se já cá estava quando foi feita a escola pública?
- Tens razão, Catatua! A escola tem meia dúzia de anos e o Estado gastou lá uma pipa de massa!
- A minha filha não vai deixar as amigas nem os professores! E neste ano, a turma dela vai continuar!
- Então, como é que vais descalçar essa bota no ano que vem? Vais pagar, para a tua filha continuar no colégio?
- Como é que eu posso pagar, Pinguim?! Sabe Deus o que me custa pagar os livros e o material escolar!
- Há por aí muitas famílias que não vão poder pagar, Catatua! Vão ser obrigadas a pôr os filhos na escola pública!
- Obrigadas, Pinguim?! Obrigadas?! Que conversa é essa?! Já não há liberdade neste país?!
- É o que diz a minha avó, Catatua! Eles só falam em liberdade nos comícios, para caçar votos, mas depois, esquecem-se de tudo! Só sabem fazer promessas! É só garganta!
- Como é que eu posso pagar aquelas mensalidades todas, sem trabalho certo, a ganhar esta miséria de ordenado?! Não há trabalho! Não há obras para fazer!
- Foi isso que disse a minha avó: os pobres não têm liberdade! Só os ricos! Como é que os pobres podem pôr os filhos num colégio?!
- Desta vez o governo meteu o pé na argola! Os pobres como eu vão ficar em maus lençóis!
- O Alfredo diz que este governo promove a discriminação, o sectarismo e a exclusão social!
- Oh! O Alfredo?! Ele agora, também se quer armar em intelectual?!
- Ele tem razão, Catatua! O governo está a dividir os portugueses entre ricos e pobres. Os que podem pagar e os que não podem pagar os colégios! Quer voltar à luta de classes!
- Luta de classes?! A professora da minha Daniela disse que um dia vamos todos viver em liberdade, numa sociedade sem classes! Uma maravilha!
- Isso é treta, Catatua! Sociedade sem classes? Como, se quem quiser estudar nos colégios não pode contar com este governo?! Isso é discriminação!
- Isso não pode ser, Pinguim! A minha filha não pode ser discriminada! Eu não pago, também, os meus impostos, como os outros?
- Está visto! Os impostos que pagas não ajudam nada a tua filha! Se quiseres que ela continue no colégio, tens que pagar tudo do teu bolso!
- Amigos da onça! Saíram piores do que a encomenda! São uns amigos da onça!
- Amigos da onça?! Quem?! Os colégios?!
- Não! Este governo e quem os apoia!
- Este governo?! Porquê? Não estou a perceber!
- Não estás a ver, Pinguim? Não estás a ver?! São como certas pessoas que eu cá sei: quando lhes interessa, é só beijinhos e abraços, mas quando não lhes interessa, mandam toda a gente à fava!
- E muitos professores vão ficar no desemprego, Catatua! Vai ser um desastre! É isso que o governo não quer ver!
- Todos os anos há professores no desemprego, nas escolas do Estado! E muitos vão ficar lá com horário zero!
- Isso está certo, Catatua? Que grande injustiça! Já viste um pedreiro com horário zero a receber o ordenado sem fazer nada?!
- Isso não é bem assim, Pinguim! Quem tem horário zero tem que ir para uma escola onde tenha trabalho!
- Como?! Não há alunos! Cada vez há menos alunos! Por isso é que a minha avó diz que o primeiro ministro devia ter vergonha!
- Se nunca teve vergonha não é agora que a vai ter! Devia ter vergonha porquê, Pinguim?
- Cada vez há menos alunos e a natalidade em Portugal é das mais baixas da europa, mesmo assim, o primeiro ministro paga 100% a todas as mulheres que fazem abortos!
- Ó Pinguim, isso, do aborto, faz parte da liberdade da mulher!
- Que liberdade, Catatua?! Então, achas bem que o primeiro ministro dê toda a liberdade às mulheres que façam abortos, lhes pague todas as despesas e não dê liberdade nenhuma às mulheres que queiram escolher a escola para os seus filhos a quem não paga nada ou dá um abono miserável?!
- Eu sou pela liberdade, Pinguim! Mas essa é também uma grande argolada que vai sair cara a este governo!
- É por isso que o Alfredo também não pode com eles!
- O Alfredo?! Ele tira um bom ordenado no café! Pode bem escolher o colégio!
- Não é o que ele diz! A clientela está a baixar e os impostos levam-lhe tudo!
- O pior é aturar os bêbados, todos os dias! Quem é que ele vai pôr no colégio?!
- O filho, o Marito!
- O Marito?! Ele não tinha já deixado de estudar?
- Tinha, mas o Alfredo é teimoso, quer que o filho volte a pegar nos livros! Por isso é que o quer pôr no colégio!
- Tempo perdido, Pinguim! O melhor era arranjar-lhe um trabalho para o pôr na ordem!
- Isso queria ele! Onde é que ele consegue um trabalho a sério? Isso é coisa rara!