terça-feira, 18 de março de 2014

Atrás da cofragem XLIII

A tristeza e a revolta da avó

- Ficou triste, muito triste, Catatua! Nunca a vi assim!
- Está sempre em casa! Já nem sabe o que é a miudagem!
- Estás enganado! Vai todos os domingos à missa! Não sabe o que é a miudagem?!

- À missa? À missa, só lá vão velhos e velhas como ela, Pinguim!
- O quê?! Estás parvo?! Eu também vou à missa! Não vejo lá só velhos!
- Comparas a igreja a uma escola? Ela só conhece o caminho de casa para a igreja e da igreja para casa, sabe lá o que é a miudagem de hoje?

- Sabe mais do que tu pensas! Ora!...

- A tua avó?! Só sabe rezar, ler o “Amigo do Povo” e...

- Estás sempre com conversas dessas sobre a minha avó! Não sabes dizer mais nada?

- E não é verdade?

- Não! A minha avó é que tem razão! Não se calou! … três dias! Sempre...
- A tua avó pensa que a miudagem é... ela pensa que na escola só há broncos e betinhos, como no tempo dela?
- Que só diziam palavrões! Gritavam! Puxavam as mochilas uns dos outros!...
- Com este frio e esta chuva, a tua avó devia ficar em casa, à lareira, no quentinho, a rezar o terço e a ler o almanaque!
- E reza! Reza todos os dias! Liga o rádio, na Renascença e...
- Então, o que é que ela foi fazer à escola?
- Não sei! Foi dar um recado à neta, ou levar-lhe qualquer coisa...
- E foi a pé? A tua mãe...

- De autocarro! A minha mãe não podia lá ir e...

- A tua avó não pode sair, assim, sozinha! Qualquer dia dá-lhe um ataque!

- Ficou pasmada!...Tu nem fazes ideia! Não te passa pela cabeça!

- Afinal, o que é que aconteceu? Parece que nunca viu criançada!


- Que alguns miúdos... e as miúdas! Oh! Elas eram as piores!

- As miúdas, o quê?! As piores?!

- Que só diziam palavrões! Chamavam nomes... fumavam...

- As miúdas?! As miúdas?! Não pode ser! A minha filha!...

- Não me disse que era a tua filha, Catatua! A minha avó...

- E os professores? Não lhes diziam nada?

- Foi no intervalo! Lá fora! Andavam à vontade!
- A minha filha não diz essas coisas! A minha Daniela...
- E outras abraçadas aos rapazes, aos beijos, aos beijos!
- Que mal tem dar um beijo, Pinguim?

- Era pior do que na televisão! Cada cena! A minha avó ficou maluca!

- Então a tua avó nunca deu um beijo ao teu avô? Ora essa!

- Mas era demais! À descarada! Ali!... Parecia uma novela daquelas...!

- Tu nunca te enrolaste com a tua namorada? Que mal tem? Hã?! Que mal tem?!

- Daquela maneira, Catatua?! A minha avó só dizia que era uma vergonha! Uma vergonha!

- Ela não sabe que a miudagem de hoje é assim? Que estas coisas fazem parte da vida?

- Mas teimava, teimava! Que não devia ser assim! Que...

- O que é que a tua avó quer, Pinguim? As alunas não podem dar beijos aos alunos?

- Que não devia ser assim e que os professores...

- Então, ela agora quer mandar na escola, quer mandar nos professores e nos alunos?

- Nada disso!... Ó Catatua, a minha avó pensava que a escola era assim... assim como...
- Como o quê? Desembucha!
- Como um jardim cheio de flores!
- Um jardim cheio de flores? Como? Não há lá um grande jardim?! Não percebo!
- Assim como... um campo cheio de flores, na Primavera!
- Um campo cheio de flores?! A tua avó tem cada ideia!
- Nunca foste à quinta do Laranjal Grande, num dia cheio de sol, muito sol? Nunca viste aquelas flores?!
- Tem chovido todos os dias! Como é que ela quer ter um dia de sol? E flores? Já não está boa da cabeça, Pinguim!
- Nunca ouviste falar da Primavera da vida?
- Primavera, Verão, Outono e Inverno! Sei muito bem!
- A Primavera da vida, Catatua! Quando as crianças são como as flores!
- Como as flores? Como? Não são pessoas?
- Tu, quando eras pequeno, a tua mãe não te chamava uma flor? – “Ai a minha florzinha!”
- Não! Uma flor?! Tu pensas que sou uma menina? Eu, cá, sou macho! Nada de confusões!
- Com essa trunfa, pareces um cravo! Esse penacho de Catatua...
- Tu endoideceste ou quê?! Agora também te deu para a maluqueira?
- Estás a ver aquelas flores muito delicadas, em botão, a abrir, muito bonitas, com algumas gotas de orvalho, como se estivessem a sorrir?!
- A tua avó quer que os alunos passem o tempo a arreganhar os dentes?! Ora essa!
- Nada disso, Catatua! O que ela diz é que muitos alunos parecem flores amarrotadas!
- Amarrotadas? Flores amarrotadas?!
- Sim! Sim! Flores amarrotadas, murchas e sem brilho!
- A tua avó diz cada coisa! Ela sabe o que diz?
- Olha o Marito! Já viste a cara dele?!
- Já! O que é que tem? Também está amarrotada?
- E a da namorada? Já viste aqueles olhos tristes? Aquela cara de enjoada?
- Tem a cara que tem! Que cara é que havia de ter?
- Anda sempre agarrada ao Marito! Não o larga, nem um minuto, sempre amarrada a ele, aos beijos!
- Amarrada? Ainda agora disseste que estava amarrotada!
- Mas não se agarra aos livros como se agarra ao Marito! Não estuda nada! É por isso que a minha avó...
- O que é que a tua avó tem a ver?...
- Diz que a Sandrita não tem juízo! Está maluquinha de todo! Ela e o Marito! Miúdos que mal deixaram as fraldas! Amarrados! Para quê?!
- Maluquinha, está a tua avó, Pinguim!
- É por isso que ela não estuda nada! Depois nas aulas...
- Nas aulas, o quê?
- A minha irmã diz que às vezes nem pode ouvir os professores! É só barulho! Ela e outros como ela...
- Não é bem assim, Pinguim! A minha Daniela...
- Muitos levam o telemóvel às escondidas! Mandam mensagens...
- Não pode ser! Eles têm o Regulamento! Eles não podem levar telemóveis para as aulas!
- Levam-no às escondidas! Não têm respeito nenhum!
- Depois a minha avó diz certas coisas! Até parece que está a ralhar comigo! Incomodada!
- Ralhar contigo? Essa é boa! Tu tens a culpa de os alunos não estarem com atenção às aulas?
- “Andaste lá a trabalhar! Tu e os outros!” “A fazer uma escola nova, toda nova, a gastar dinheiro do Estado e agora os alunos não aproveitam o que têm, não estudam peva! Uma escola onde não falta nada! E depois admiram-se de estarmos todos em crise?!”

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Atrás da cofragem XLII

O Marito e as meias-finais da taça da Liga
- Nem queria acreditar, Pinguim? Fiquei pasmado!

- Não querias acreditar em quê, Catatua?

- Eu não vi nada, mas, pelo que me contaram, a coisa aqueceu… Aqueceu bem!

- Não sei do que estás a falar, Catatua. Tem estado tanto frio e tanta chuva!...

- Às vezes, a chuva é outra!

- Chuva é chuva! E não aquece nada!

- Não discutiste com o Zé da Ponte, no café do Alfredo?

- Só lhe disse o que pensava! E tenho as minhas razões!

- Mas ele queria ir-te aos queixos?! Olha que ele é ferrenho!

- O Zé da Ponte? Nada disso, Catatua! Estás enganado!

- Ele é dragão! Põe-te a pau!

- E o que é que tem?

- Olha que os dragões são perigosos! Não te metas com eles!

- Não são mais do que os outros! E os diabos vermelhos? E os lagartos?

- O árbitro é que apita para acabar o jogo! É preciso discutir assim? Ele é que manda!

- Ó Catatua, tu percebes menos disto do que eu! Eles tinham que começar à mesma hora!

- Mais minuto, menos minuto, que diferença faz?

- Os jogos tinham que começar e acabar, todos, à mesma hora. A lei tinha que ser cumprida, Catatua!

- Tu nunca te atrasaste três ou quatro minutos ao trabalho? Acontece a qualquer um!

- Não é a mesma coisa, Catatua!

- Tu trabalhas nas obras, eles jogam futebol!

- Vir todos os dias às oito para o trabalho não é o mesmo que jogar uma vez por semana, Catatua!

- Às vezes jogam duas ou três vezes!

- Um jogo para a Taça da Liga? Meias-finais? Não é como assentar tijolos ou despejar um balde de massa!

- É a profissão deles! Também se atrasam!

- Pensa um bocadinho, Catatua! Um jogo destes, com o estádio cheio de gente, é como fazer um exame! Uma prova real!

- Não há alunos que chegam atrasados aos exames?

- Claro que há, o Marito é um deles! Chega sempre atrasado!

- Mas os professores deixam-no entrar! Por isso...

- Qual quê? Se passar a tolerância, não entra, fica à porta!

- Não me disseste, um dia destes, que o Marito já tinha mudado, que não faltava às aulas?

- Tem dias, Catatua! Mas continua a ser um grande baldas!

- Ele, às vezes, cumpre! E no futebol...

- Eu sei que o Marito já se habituou a levar os livros para a escola e, às vezes, faz o TPC, mas...

- Estás a ser injusto com o Marito, Pinguim! Já não é assim, um baldas!...

- O Alfredo foi à escola. A directora de turma chamou lá os pais e...

- E no futebol não há tolerância?

- Se uma equipa cumpre, todas têm que cumprir! Tolerância zero, Catatua!

- Podia ter havido um motivo forte. Ninguém sabe! Não tiveram intenção de...

- Motivo? Intenção?

- Sim, sim! Alguém sabe se a equipa teve a intenção de atrasar o jogo?

- Como é possível saber qual foi a intenção, Catatua? A intenção é uma decisão íntima!

- E não é possível saber?

- Vai ver um livro de Filosofia! Vai!

- Livro de Filosofia? O que é que a Filosofia tem a ver com o futebol, Pinguim?

- Não é só com o futebol! É com tudo o que a gente faz!

- Tudo o que a gente faz? Como? Isso é muito vago!

- Sobre a acção humana, Catatua!

- O que é que tem a acção humana?

- As características da acção humana! Sabes quais são?

- O que é que isso me interessa, Pinguim?

- Olha, só, uma coisa! Quem é que manda entrar uma equipa em campo?

- Não sei, Pinguim! Só se for o capitão!

- E ele não sabe que tem que mandar entrar a equipa toda, na hora marcada?

- Deve saber! E depois?

- Ora aí está, Catatua! Ele tem consciência do que está a fazer!

- Mas pode ter havido algum impedimento!

- Qual impedimento? Qual quê? Eles estão lá com muita antecedência!

- Pode ter sido sem intenção, Pinguim! Já te disse!

- A justiça julga factos, não julga intenções!

- Factos, como?

- Factos, factos! Aquilo que toda a gente vê e que é possível provar.

- E as intenções não são factos?

- Não, claro que não! As intenções não se vêem, estão na cabeça das pessoas!

- Não percebo! As intenções não se vêem? E os factos...

- O facto que toda a gente viu foi que a equipa não compareceu. Não interessa saber se houve ou não intenção! A intenção não se vê!

- Não é bem assim, Pinguim! Se eu pegar no martelo toda a gente vê que eu quero martelar um prego!

- Nada disso, Catatua!

- Nada disso como? Não se vê que o martelo serve para pregar um prego?

- É claro que a intenção mais provável é essa. Mas, se pegares no martelo, eu não sei se vais martelar um prego, se vais partir um tijolo ou partir a cabeça de alguém!

- Estás sempre contra eles, Pinguim! Por isso é que o Zé da Ponte...

- Não estou contra nem a favor! Factos são factos!

- Não me disseste que eram acções? E que a Filosofia...

- Tens razão, Catatua! Mas as acções também são factos!

- Que confusão! Que embrulhada! A filosofia só complica as coisas!

- Não complica nada! Pelo contrário, põe tudo muito claro!

- Misturas Filosofia com futebol, acções, factos... eu não te entendo!

- A filosofia diz que as acções humanas são conscientes, voluntárias, livres, intencionais e têm, habitualmente, um motivo!

- Ainda agora disseste o contrário! Não te quero ouvir mais!

- Eu só disse que as intenções não se vêem e que os motivos...

- Se não se vêem, acabou. A equipa não teve culpa!

- Quando pegas no martelo toda a gente sabe qual é a tua intenção! Não foi o que me disseste? O mesmo acontece quando toda a equipa se atrasa!

- Tu pensas que eles são alguns anjinhos? Que iam fazer de propósito?

- Não sei se são anjinhos ou se são diabos! Isso não interessa!

- Não interessa? Tu és lagarto! Estás sempre a atacá-los! Olha o Zé da Ponte!

- Não ataco ninguém! Lei é a lei, ponto final!

- Eu bem te conheço, estás, sempre, contra o sistema! Tu não me enganas!

- O sistema? O sistema da Filosofia diz que todas as acções exigem a responsabilidade!

- Responsabilidade? Responsabilidade de quê?

- Quem faz o que faz de forma livre, deve assumir as consequências!

- Quem marca, ganha, quem não marca, perde! Estas são as consequências!

- E quem não cumpre a lei, deve ser castigado! É como o Marito, chega atrasado, chumba no exame!

- Mas a equipa jogou mais de noventa minutos e o Marito nem sequer entrou, ficou à porta!

- É um jogo ilegal, Catatua, não conta! É nulo!

- Então, os dragões devem ser eliminados?

- Claro! Os lagartos começaram a horas. Quando o jogo acabou estavam apurados!

- O almoço acabou, Pinguim! Vamos à segunda parte! Se não começares o trabalho a horas, vais ter um dia de trabalho nulo! E o patrão não te paga!