Educação sexual I – A revolta do Catatua
- Anda tudo doido! Estão todos doidos! Isto não pode ser!
- Ó Catatua, tu é que estás mesmo doido! Então, ficaste todo contente quando…
- Que coisa mais sem jeito, Pinguim! Pode lá ser? Ai, se eu pudesse…!
- Estou pasmado! Não sei o que se passa contigo! Que bicho te mordeu?!
- Estou contra! Estou contra! Não concordo de maneira nenhuma!
- Fizeste uma festa quando este governo aprovou a lei! E agora…
- Não vês que estão a brincar com o fogo?! Não pode ser!
- Já não te lembras? Então, tu já não te lembras, Catatua?
- Já não me lembro de quê?!
- Pagaste uma cerveja a toda a gente, no café do Alfredo! Fizeste uma grande festa…!
- Para a minha filha?! Nunca! Estão todos doidos?! Sabem lá o que fazem?!
- Porquê? Onde é que está o mal?
- “Informação aos pais e encarregados de educação: programa de educação sexual” – qual programa, qual quê! Essa agora!
- Todos os professores têm que fazer um plano! Então, tu não sabes, Catatua?
- Um plano? Que façam um plano para eles! Que fiquem lá com o plano!
- Isso é obrigatório! Pensei que tu…
- “Objectivos da educação sexual em meio escolar” – sabes o que é que isto quer dizer, Pinguim? Sabes? Sabes?
- Não! Já não sei nada, Catatua! Não percebo nada, nem de ti nem de ninguém! Estou-me nas tintas!
- Olha aqui, Pinguim: “ Melhorar os relacionamentos afectivo/sexuais!
- Melhorar o quê?
- Os relacionamentos afectivo/sexuais!
- Isso não é o que estás a pensar! Tu estás noutra onda!
- Noutra onda? Estou noutra onda?! Estou! Estou!
- Pára de fumar, Catatua! O tabaco já te está a dar volta ao miolo!
- Melhorar os relacionamentos…! os professores sabem lá se a minha filha tem esses relacionamentos, se precisa deles, se os quer ter…?!
- Não é o que estás a pensar! Estás enganado, Catatua!
- A minha filha? A minha menina?! A minha Daniela?! – Relacionamentos…?!
- Tens que te informar bem, Catatua. Isso de… educação sexual… não é…
- Não é para ser falado na escola… para toda a miudagem… à frente de toda a gente!
- Há certas coisas que tu não sabes, Catatua. Não sabes tudo. Os professores…
- Os professores?! Os pais é que devem dar a educação! Os professores pensam que a minha filha não tem pai nem mãe?!
- Ah! Agora dás-me razão! A minha avó também diz o mesmo!
- “Melhorar os relacionamentos…!
- Já falaste com a tua filha sobre isso? O que é que lhe disseste?
- Isso é com a mãe! Coisas de mulheres. Os homens…
- Nunca lhe disseste nada? Não falas com a tua filha?
- Isso são perguntas que se façam?! Eu? Não falar com a minha filha?
- E então? O que é que lhe dizes?
- Quando posso, ajudo-a fazer os trabalhos de casa, converso com ela, faço-lhe o lanche… e muitas vezes, sou eu que faço o jantar!
- Mas o que é que lhe dizes?
- Olha, faço cá umas torradinhas! Ela adora! Depois falamos…
- Sobre educação sexual? Olha, eu, se eu um dia tiver uma filha, não sei o que lhe hei-de dizer! Não faço ideia nenhuma!
- A minha filha? Pensas que a minha filha é uma coitadinha? Uma triste? Que não tem ninguém? Que anda cheia de aflições…?
- Mas, há tempos, tu eras a favor das aulas de educação sexual, na escola!
- Para a minha filha? Nunca! Nunca! Para quê?
- Então essas aulas são só para as coitadinhas? Para as infelizes?
- Essas infelizes, essas desgraçadas que deitam os filhos na sanita e no lixo, ou os enterram no jardim, essas é que precisam dessa educação!
- Ninguém está livre de vir a ser um infeliz… ou um desgraçado! Cada vez pior!
- A minha filha, não! Eu mato-me a trabalhar todos os dias! E a minha Deolinda…
- A minha avó está sempre a dizer-me: “toma muito cuidado, Filipe! Não sejas um desgraçadinho!”
- A minha filha, não! Não quero que lhe falte nada! Mas essa educação…
- E não tem faltado. Já está uma mulher!
- Está no quinto ano e nunca chumbou!
- Não parece ter a idade que tem! Está crescida! Deu, cá, um pulo!
- Está crescida, está.
- Deu nas vistas no atletismo, no dia da criança! Tu viste bem? Ia sempre na frente!
- É muito habilidosa e inteligente! Há-de ser uma doutora!
- Nem parecia ela, toda corada, com os cabelos soltos e aquelas borbulhas…
- O que é que têm as borbulhas, Pinguim?
- Nada! Nada! É próprio da idade… não é?
- É capaz de ser. Chega! A minha filha não tem borbulha nenhuma! Não quero que fales mais da minha filha! Está bem?
- Porquê? Disse alguma coisa de mal? Só disse que nem parecia ela!
- Pronto, acabou! Passa aí o martelo! A chuva amainou, esta cofragem está pronta a encher. Isto tem que ficar bem feito!
- Não estive parado, Catatua! Não precisas de falar comigo dessa maneira!
- Quero que fique aqui um muro em condições!
- Não há dúvida nenhuma! Os engenheiros fizeram aqui uma obra que se pode ver!
- Esta escola! Olha, Pinguim! É um gosto só de olhar para ela! Os alunos não têm desculpa para não estudar!
- Se eles estudassem com o mesmo gosto com que nós trabalhamos, todos teriam um vinte. Mas desconfio que não é bem isso que acontece…
