segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Atrás da cofragem XIV

A desilusão da avó
- Ontem, a minha avó foi ao Centro de Saúde.
- A tua avó está doente, Pinguim? Não me digas que  está com gripe suína!
- Não. Queixa-se dos olhos. Diz que às vezes não consegue ler...
- Talvez precise de mudar de lentes…
- Sabes o que ela me disse quando, ontem, cheguei a casa, Catatua?
- Não ficou contente com o médico?!...
- E não só! Que passou aqui quando veio da consulta!
- E depois?
- Que mais valia estarmos quietos, que estava aqui uma escola que era um mimo e agora é uma lástima!
- Uma lástima?! Porquê?

- Que havia um jardim e agora é só lama; a verdura e as árvores desapareceram e nem os pássaros podem fazer ninho!
- Agora que está a chegar o Inverno é que a tua avó queria ver os pássaros a fazer ninhos?!
- Que com todo este barulho os pássaros fogem!
- As árvores estão cá! … Algumas tiveram que ser cortadas… não dava para trabalhar! …
- Que ouviu dizer que esta era a escola mais moderna mas só viu tapumes a toda a volta que nem dava para ver quase nada…
- A tua avó não sabe o que diz! Ela queria que ficasse tudo aberto aos ladrões?!
- Que ficou desiludida, que só viu gruas no ar, ouviu o barulho de máquinas e viu camiões de cimento a entrar e a sair!
- O que é que ela queria ver mais?
- Não sei!
- Ela sabe muito bem que “Roma e Pavia não se fizeram num dia”.
- Eu disse-lhe que quando esta escola ficar pronta todos os alunos vão ter a educação de melhor qualidade…
- Não lhe disseste que a escola vai ter um novo ginásio, dos mais modernos?! …
- Disse! Claro!
- E que ali vai ficar uma grande biblioteca para todos os alunos desde o primeiro ao décimo segundo ano?
- Mas ela disse que está farta de promessas. E que, se hoje se aprende tantas coisas e se faz tudo tão depressa porque é que é preciso esperar meses e meses por uma consulta e gastar tanto dinheiro para tratar da saúde?!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Atrás da cofragem XIII

O Magusto

- Tem cautela, Pinguim! Estamos a mais de cinco metros de altura! Segura esse prumo!
- Parecemos uns macacos no circo, Catatua!
- Temos que cumprir as normas de segurança!
- Quais normas de segurança?! Estou farto betão, cofragens, prumos, vigas…
- Todas as obras têm plano de segurança! Não vês aí essas guardas vermelhas, essas…
- Pois e estes cintos e argolas de correr, os cabos de aço…
- O arnês é a tua segurança. Se caíres ficas suspenso, não bates com as costelas no chão!
- Espero bem que não!
- Olha que se caíres não temos Magusto?
- Magusto?
- Não me digas que não vais amanhã à Associação? Vai haver festa!
- A minha mãe vai jantar à minha avó. Traz também a minha irmã! … E vai assar as castanhas…
- Porque é que não lhe dizes para vir no domingo?
- No domingo não pode, vai sair com o meu… padrasto!
- Vais-te arrepender! A Sónia não vai faltar e vai perguntar por ti…
- Está tudo acabado entre mim e ela!
- Olha que ela ainda não te esqueceu! Há dias falou-me de ti!
- Não quero saber, Catatua! Diz-lhe que nunca mais a quero ver!
- O quê? Não acredito! Mas?!
- É isso mesmo, nunca mais a quero ver!
- Porquê? Aconteceu alguma coisa, algum problema?
- Problemas tenho eu demais, todos os dias!
- Andas assim tão desanimado, Pinguim?
- Só sei que me mato a trabalhar, todos os dias, de manhã à noite… para quê?
- Tens de acreditar no futuro!
- A minha avó também me diz a mesma coisa, mas…
- Mas o quê?
- A vida está muito difícil! Se eu quiser comprar uma casa para mim, nem daqui a trinta anos…
- Mas não podes desanimar!
- Não vês a notícias todos os dias? Uns têm tudo outros não têm nada!
- Mas isso foi sempre assim!
- Era já bem tempo disto mudar! Estou farto de promessas! Só vejo mentiras e corrupção e ninguém faz nada!
- Anima-te, Pinguim! Porque é que não vais com a tua mãe, a tua irmã e os teus avós ao Magusto, na Associação, no sábado à noite? Não te vais arrepender!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Atrás da cofragem XII

A Gripe

- Estás doente, Pinguim? Tens a cara um pouco pró amarelo…


- Estou cheio de lama, dos pés à cabeça, Catatua! Estou amarelo, e de todas as cores! E ainda perguntas?!…


- Estás sempre a tossir, pensei que estivesses doente! Não tens dores de cabeça?!


- Não me dói só a cabeça, Catatua, dói-me o corpo todo! Estou farto disto!


- Cuidado com a gripe! Se pegas a gripe a este pessoal todo…


- Isso é que era bom! Iríamos todos para casa! Estou farto de obras, cimento e ferro até aos cabelos!


- Nem penses! Quem é que faz a escola? Estás maluco?!


- A minha avó diz que esta gripe é um grande negócio… mais nada!


- Um negócio? Mas já morreram muitas pessoas!... Eu vou pedir para ser vacinado...


- Também queres encher a carteira a quem vende as vacinas, as máscaras e os desinfectantes?


- O meu pai sempre me disse: “HOMEM PREVENIDO VALE POR DOIS!”


- Mas nem toda a gente pode ser vacinada! ...


- Se os pedreiros adoecerem quem é que faz a escola?


- Há muitos no desemprego. Qualquer pedreiro pode ser substituído por outro!


- E se morrerem os pedreiros todos com a gripe?


- Podemos passar bem sem pedreiros! ... Não fazem cá falta nenhuma! …


- Não fazem falta?! Essa agora?! Como é que a escola pode ficar feita daqui a um ano e tal?!


- Se não houver pedreiros qualquer um faz este trabalho…


- E os pedreiros não merecem ser vacinados? Eu não quero morrer! … Tenho mulher e uma filha, tenho amigos…


- Todos temos amigos, para isso toda a gente teria que ser vacinada!


- Assim é que devia ser! Não somos todos iguais?!


- Não há dinheiro para vacinar toda a gente e, por isso, é preciso escolher!


- Escolher quem?


- Quem faz mais falta!


- E nós não fazemos falta? E o encarregado? E o engenheiro?


- Nada! Só o governo, os deputados, os médicos…


- Não acho bem. Se não houver pedreiros não há escolas, se não houver escolas não há professores nem alunos…


- Se o governo morrer com a gripe quem é que governa?


- E se morrer toda a gente, o governo governa quem?


- É por isso que é preciso vacinar os médicos para que acudam ao governo e às pessoas!... e não morra toda a gente!


- Se eu mandasse, mandava vacinar, primeiro, os agricultores e os padeiros porque esses é que dão comida a toda a gente. Desses é que ninguém se lembra!