A pesca
- Vamos à pesca, no domingo, Pinguim?
- À pesca?! Estás doido?! Preciso de descansar, Catatua?
- Não te cansas… sentamo-nos num sítio calmo…
- Todos os dias me levanto cedo! … ao meio dia vou com a minha avó à missa.
- Vais à missa?!
- Sempre fui, desde pequeno com a minha mãe, a minha avó, o meu avô…
- Vamos de tarde! … A minha mulher vai visitar a mãe, eu não fico em casa! … e tu…
- Não tenho paciência para estar à espera de nada, a olhar para uma cana espetada no chão…
- Não te dá gozo?! Quando Vês a cana a balançar puxas a linha, ela curva-se e tens um grande peixe no anzol a sair da água!...
- Tens muita sorte, Catatua!... Gaba-te! Não?! O peixe é manhoso!...
- Há dias fiz cá um petisco com umas carpas e bogas, nem te digo nada!
- Pescar?!... ao domingo à tarde?!
- Não é bom? É melhor do que andar por aí a gastar gasolina! Não precisas de poupar dinheiro?!
- E quem te disse que não poupo?
- Conheço cá um sítio! Trago sempre peixe! E do bom!
- Onde?
- No açude do Laranjal, uma maravilha!
- Isso é para reformados! …
- Isso é para reformados! …
- Ah! Tens outros planos!... Pronto! Tens a tua vida… amigo não empata amigo!
- Preciso de descansar, Catatua! Estou farto de betão e de cofragens…
- Agora temos menos cofragens, vamos assentar tijolo. Os acabamentos é que demoram mais. Vai ficar aqui uma escola que é um mimo!
- É por isso que eu preciso de descansar…
- Não queres ir à pesca porquê? … vais estar com a Sónia no domingo?
- Quero ficar sozinho! Descansar, ouvir música, estudar…
- E não vais fazer companhia à Sónia? Vai ficar triste…
- Já te disse que acabei tudo com ela! Só somos amigos!
- Não acredito. Na festa do S. Martinho estava toda contente ao pé de ti!
- As mulheres são muito fingidas!
- Eu sei que não vale a pena escolher muito, vai tudo dar ao mesmo!
- É por isso que não estou com pressa para me enforcar.
- Mas olha que a Sónia é boa rapariga, tiveste bom gosto!
- Já te disse! Não quero pensar na Sónia nem em mais ninguém.
- Olha que te arrependes! Não podes pensar assim, desanimar…
- Não tenho emprego certo! Não quero andar toda a vida a pedir papinhas à minha avó e à minha mãe!
- Não hás-de arranjar um emprego qualquer? Tens de procurar…
- Não quero um emprego qualquer. Quero um bom emprego. Quero ser independente!
- Anima-te, rapaz! Vais comigo à pesca ou vais namorar? Não fiques sozinho, ainda enlouqueces!...
- Nem uma coisa nem outra. Vou ficar em casa.
- A estudar? Não me digas que já voltaste para a escola e não disseste nada?
- Não! A minha irmã já está no sétimo ano e eu…
- Ah! Abandonaste a escola e a tua irmã, agora, está a passar-te à frente, não é?
- Mostrou-me alguns livros de Língua Portuguesa, de Ciências, de História …
- Agora é ela que te dá lições?! Já sabe mais do que tu!...
- Sabe, algumas coisas! Mas olha, se eu estudasse aquilo, a sério, fazia tudo a brincar! Não me custava nada…
- Já não vives com a tua avó? Estás com a tua mãe, a tua irmã e o teu padrasto?
- Já não vives com a tua avó? Estás com a tua mãe, a tua irmã e o teu padrasto?
- Nem me fales nesse nome. Ele não me é nada. Só lá fui a casa ver os livros. Mais nada!
- Se a tua mãe gosta dele… Isso não é vida para ti. Porque é que não vives com a tua família?
- Família?! Eu é que sei! O meu pai teve liberdade para me abandonar. A minha mãe teve liberdade para se juntar. E eu não tenho liberdade para viver a minha vida?
- Não estou a perceber. O que é que queres fazer? Estás a pensar em...
- Não estou a perceber. O que é que queres fazer? Estás a pensar em...
- Nada. Quero aprender mais do que o que o meu pai e a minha mãe me ensinaram!
- Como? Sobre o quê?
- Hei-de voltar para a escola. Quero saber se lá se ensina o que é a liberdade. Se um pai pode abandonar a família e um filho mesmo que ele não queira.
- Mas já sabes que sempre foi assim! Não podes fazer nada!
- Sempre ouvi dizer que a liberdade de uma pessoa não pode prejudicar a liberdade das outras.
- E alguém te prejudicou a tua liberdade?
- O meu pai. Só ele é que é livre de ir para onde quer e eu não sou livre de querer que ele fique?!
- Se sabes o que é a liberdade, nem precisas de ir para a escola…
- Há muitas outras coisas que eu não sei: sobre História, Ciências, Geografia. E quero aprender línguas!
- Está combinado! Quando a escola de Montemor ficar pronta quero ver-te a estreare-la…
- Estudar e trabalhar não vai ser fácil, Catatua!
- Eu sei, Pinguim. Nunca ouviste dizer que “querer é poder”?
- O problema é outro, Catatua. Temos de olhar para o futuro.
- Que problema, Pinguim?
- Quando as obras da escola acabarem vamos ficar todos no desemprego…
- Espero que o patrão tenha mais obras para fazer!
- Não vês as notícias?!
- Às vezes vejo. E depois?
- Todos os dias fecham fábricas, escritórios… O governo não tem dinheiro para pagar as obras que já mandou fazer, quanto mais…
- Só pensas no pior! Ganha confiança, Pinguim!
- Cá para mim, quando acabarmos esta obra, estas gruas e tudo o resto vai ficar a enferrujar por aí…
- Estás enganado. Não há-de haver mais trabalho?


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