Perspectivas
- A minha avó diz que só vou perder tempo, Catatua! Que ir à escola ou não ir, é quase o mesmo!
- O que é que a tua avó sabe de escolas e de ensinar, Pinguim?
- A minha irmã comprou um livro para cada disciplina e eu, nada!
- Se te matriculaste também vais precisar! Um estudante sem livros?! Pode lá ser? Talvez não sejam iguais, mas...
- Eu queria acabar o 7.º, passar para o oitavo e a seguir...
- Se estudares e não fores burro...
- Disseram-me que ia fazer três anos de uma vez: 7.º, 8.º e 9.º! Nunca vi nada assim!
- Não me disseste que aprendes mais depressa do que a tua irmã? Podes fazer tudo com uma perna às costas!
- Pensei que ia ter um livro de Português, outro de Matemática, de Ciências...
- Depois de um dia a montar cofragens e a alombar com estas vigas, pensas que tens cabeça para ler um livro todo, de uma ponta à outra?
- Que remédio?! Como é que queres que eu aprenda?!
- Pensas que vem tudo nos livros! Já aprendi muito sem olhar para um livro!
- A dar marteladas nos dedos, e outras coisas assim: os “abre-olhos”, não é?!
- E a trabalhar Não sabes assentar uma fiada de tijolo, hoje, melhor do que quando começaste?
- Mas eu não me matriculei para aprender a assentar tijolos ou a pregar pregos. Não! Eu quero aprender outras coisas!
- Outras coisas?! Que coisas?! Olha! Vamos encher esta parede de betão que o balde já aí vem.
- Toda a gente de férias e nós aqui, Catatua! Nem posso respirar com tanto pó e tanto calor!
- Não gozaste já as tuas férias? No mês passado?
- Ó Catatua, nunca te apeteceu fugir e ir para longe daqui e esquecer isto tudo?
- Ir para onde? Para o pólo norte? Lá deve estar fresquinho!
- Nós aqui, e a esta hora, toda a gente, de férias, na praia ou a passear...
- Não querias mais nada?
- Devia ser proibido trabalhar, no Verão, com tanto calor! É só pó, suor e calor!
- Ah! Já sei! Já sei o que estás a pensar! Já descobri tudo!
- Sabes, sabes! Descobriste o quê?
- Só pensas em namorar na praia! Não é?
- Nada disso! Eu...
- Não mintas, Pinguim! Vê-se nos teus olhos... Está tudo às voltas na tua cabeça!
- Não quero ver mais ferro e betão à minha frente! Isto não é para mim!
- Não te vás já embora, temos de acabar esta betonagem!
- Isto não é para mim... que raio de vida esta! Devia estar doido!
- Lá estás tu a delirar! Pára, Pinguim! Stop! Stop!
- Só paredes de betão, de ferro... Isto mais parece uma prisão! Quero liberdade, liberdade!
- Não estás bom da cabeça! Estás com remorsos? Não é?
- Remorsos de quê, Catatua?
- Desprezaste a namorada! Agora só pensas na praia! Em fugir...
- Tu é que estás a delirar! Alguma vez desprezei a minha namorada?
- Não disseste, há tempos que eram só amigos, que ias deixar passar o tempo?...
- Isso já foi há muito tempo, Catatua!
- Segura o vibrador, Pinguim. Temos que compactar bem o betão! Tem que ficar tudo bem aprumado e sem falhas!
- Não tenhas medo que isto não cai! Nem parece uma cantina de uma escola! Tanto ferro e betão, só para guardar as panelas e os tachos!
- O tempo não pára, Pinguim! Nunca ouviste dizer: “não guardes para amanhã o que podes fazer hoje”?
- Não posso “pôr o carro à frente dos bois”, Catatua!
- Olha que o dia de hoje não volta mais! O dia de hoje, amanhã, já é passado.
- Que queres dizer com isso? Onde queres chegar, Catatua? Não percebo nada...
- Andas todo apaixonado, queres fugir com a namorada!
- Já estás a inventar!
- Não te iludas! Toma cuidado! Estás doido por ela!
- Tenho os pés bem assentes na terra. Eu sei o que faço!
- Cuidado, Pinguim! As mulheres são muito mentirosas! Não te deixes enganar!
- E tu, não te deixaste enganar, também?
- Só se deixa enganar quem quer! Eu não...
- Já não estás apaixonado? Nunca pensaste em fugir?
- Fugi e nunca mais voltei! É por isso que ainda aqui estou!
