quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Obras para a Educação IV
Atrás da cofragem XI
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Atrás da cofragem X
A escola é um livro
- Que calor, Catatua! Nem parece que estamos em Outubro!
- Assim é que está bom, Pinguim! Não há lama, é melhor para trabalhar.
- A minha avó diz que isto é sinal de que o mundo vai acabar. Não chove, Morre tudo. É um castigo de Deus!
- Ela é que vai acabar!
- E tu também. Não ficas cá para a semente!
- Segura esta viga P20 simplex. Põe-na no cabeçal.
- P20 Simplex? O simplex não é do governo?
- Há mais simplexes. Mas estes funcionam a sério. Já viste os painéis de cofragem que colocámos em duas horas?
- É por isso que já tenho dores no pescoço e nos braços por assentar tantos prumos. Quem me dera voltar para a escola.
- Só pensas na escola, Pinguim.
- Sonhei que já tinha voltado para a escola!
- Como é que acabou essa história do encarregado a fazer discursos?
- Sonhei que o encarregado chamou toda a gente, subiu para cima de um andaime e pôs-se a falar: “quero saudar todos os trabalhadores e felicitá-los porque estão a contribuir para o progresso do país e para nos ajudar a vencer a crise.”
- Tens a certeza de que era o encarregado?
- Parecia ele…
- Não era o engenheiro?
- Qual engenheiro?
- O que costuma estar ali no gabinete e que às vezes anda por aí com uns papéis e uma fita métrica.
- Não sei. Pelo capacete parecia o encarregado.
- Não disse mais nada?
- Não me lembro muito bem. Só me lembro que fez alguns gestos com os braços estendidos e disse…: “ este investimento público é prioritário, mas nós não fazemos investimento só para dar emprego a cabo-verdianos e ucranianos, como diz a oposição. Nós também damos emprego a indianos, marroquinos, guineenses e árabes. Esta escola é muito importante e verifico que os trabalhos têm decorrido a um bom ritmo."
- Ó Pinguim, devias ter-lhe dito que nós, aqui, trabalhamos a sério, não brincamos em serviço.
- Depois disse mais umas coisas que eu não percebi muito bem: “Orgulhamo-nos de receber bem quem quer trabalhar connosco. Portugal está nos lugares da frente de quem recebe bem os seus imigrantes. Além do emprego queremos dar muito mais. A pá e a picareta, a colher e o martelo são as canetas com escreveis o vosso saber.”
- O martelo é uma caneta?
- “Esta escola é um grande livro feito com as lanças das gruas, os braços mecânicos das máquinas e com as mãos humanas que ligam as vigas aos pilares e desenham as paredes como páginas escritas com a tinta em suor. Quem sabe fazer uma escola, quem trabalha o ferro e o betão de uma forma tão profissional mostra competências que não estão só no papel. Esta é uma, entre muitas novas oportunidades para que os professores vos reconheçam essas competências. Proponho atribuir, no fim, a todos os que aqui estão, o título de ‘engenheiro honoris causa’, depois de se inscreverem no mais famoso sistema de formação e validação de competências da população trabalhadora, reconhecido de norte a sul do país e além fronteiras. Para isso todos têm que requisitar o célebre Magalhães. Temos que aumentar o nível de escolaridade dos portugueses distribuindo diplomas e computadores a todos.”
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Atrás da cofragem IX
O sonho do Pinguim
- Ajeita aí o ferro, Pinguim. Põe o fio-de-prumo.
- Está aprumado! Isto está bem, Catatua!
- Os pilares não podem ficar defeituosos. São eles que suportam todo o edifício.
- Não vão cair por falta de ferro! Já viste as barras de 12 desta armadura?
- Agora leva aqui a cofragem metálica e é só fazer a betonagem.
- Estou farto disto, Catatua! Ou é poeira, ou é lama! Que bem estaria agora na escola!
- Nunca estás bem onde estás, Pinguim. Vê se assentas de vez…
- Há tempos sonhei que tinha voltado à escola! Foi um sonho muito fixe! Foi nessa altura que pensei, mesmo a sério, em voltar!...
- Não fazes outra coisa senão sonhar! Põe os pés na terra! Tu, para escola? Fazer o quê?
- Tive um cinco no fim do quarto ano! Se voltar à escola vou tirar ainda melhores notas!
- Um cinco? Qualquer um tira um cinco!
- Mas, na semana passada tive um sonho muito estranho!
- Sonhaste que os professores não te quiseram na escola, não foi?
- Nada disso! Foi uma espécie de pesadelo.
- Pesadelo?
- Sonhei que o encarregado nos chamou a todos para aquele largo e se pôs em cima de uma andaime a fazer um discurso.
- O encarregado? Ele não tem jeito para discursos… o que é que ele dizia?
- Que todos têm que ter o máximo cuidado em cumprir as normas de segurança na utilização de ferramentas, principalmente no uso de máquinas para que não ocorram acidentes.
- Diz sempre a mesma coisa: o capacete de protecção, as luvas e as botas de pedreiro.
- Mas disse mais: "este é um grande investimento na educação. Ainda está para nascer o primeiro-ministro que tenha feito tanto investimento na educação. Nesta escola do Baixo Mondego os alunos terão ao seu dispor uma escola melhorada, com instalações de qualidade superior como nunca se fez em Portugal. A requalificação desta e de outras escolas vai custar-nos muito dinheiro, mas temos que olhar para o futuro com esperança e sem desânimos. Não aceitamos o discurso do 'botabaixismo'."
- Ó Pinguim, era o encarregado que estava a falar ou o primeiro-ministro?
- Como ele tinha um capacete branco e um colete reflector novo, ao longe, pareceu-me o encarregado.
- Fizeste confusão, de certeza, Pinguim! Não disse mais nada?
- Disse. A grua está a descer o painel da cofragem, cuidado!
