quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Obras para a Educação IV

Mais um resumo de imagens das obras do Novo Agrupamento de Escolas de Montemor-o-Velho.

Atrás da cofragem XI

Paridade
- “Defendo a lei da paridade, não só para os detentores de cargos políticos mas também para os restantes cidadãos onde quer que trabalhem. Temos de acabar com a discriminação. Irei criar uma comissão que fiscalize a aplicação desta lei a começar pelos trabalhadores da construção civil e obras públicas. Não é justo que o governo faça um grande esforço no investimento público e deixe as mulheres de lado, não permitindo que tenham acesso ao emprego”!
- Que conversa é essa, Pinguim? Paridade? Discriminação?
- É o discurso que o encarregado fez de cima do andaime, Catatua.
- O encarregado ou o engenheiro?
- Não sei.
- Já vens outra vez com os teus sonhos malucos! Paridade, tu sabes bem o que é isso?
- Quer dizer que temos que andar sempre aos pares!
- Aos pares? Essa agora!
- Não trazes um par de botas, uma esquerda e outra direita?
- O que é que a bota tem a ver com a perdigota?
- Não calçaste duas botas direitas ou duas esquerdas, pois não?
- Não tenho os pés aleijados!…
- E para haver paridade, em vez de sermos dois, teríamos de ser um e uma.
- Ah! Eu acho muito bem! Vou já dizer ao encarregado que mande uma mulher para aqui!
- Isso é um disparate! Gostarias de ver a tua mulher a trabalhar aqui?
- Eu não disse que era a minha?
- Como é que uma mulher pode com este trabalho?
- Nunca ouviste dizer que numa sociedade progressista não há diferenças entre homens e mulheres?
- Como é que uma mulher pode assentar blocos de 20 ou de 28 ou mesmo tijolos de 15 de manhã à noite?
- Há outros materiais, mais leves!... e em vez disso, fazem-se grandes painéis em betão maciço. E as gruas…
- Já viste uma mulher com as botas atoladas nesta lama, com um estojo destes à cintura?!
- Há muitas que deviam vir para aqui, para depois não atirarem com certas coisas à cara!... O que é que o encarregado ou o engenheiro disse mais?
- “Esta é a escola do futuro. Um edifício inteligente, construído com as mais avançadas técnicas da engenharia, aquilo que eu chamo uma escola para o séc. XXI. Dispensaremos os professores que só nos dão complicações. Um aluno que entra para o primeiro ciclo, depois de percorrer os seus anos de escolaridade, sai diplomado automaticamente, como se saísse de uma moderna linha de montagem.”
- Ó Pinguim, essa de dispensar os professores é que não estou a perceber muito bem.
- Nunca ouviste falar de casas que ligam e desligam as luzes, abrem e fecham as janelas e regulam a temperatura?
- Que é que isso tem a ver com os professores?
- Quer dizer que uma escola inteligente transmite a sabedoria aos alunos sem precisar de professores. Foi o que eu percebi…

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Obras para a Educação III

Algumas fotos mais recentes.










Atrás da cofragem X

A escola é um livro

- Que calor, Catatua! Nem parece que estamos em Outubro!

- Assim é que está bom, Pinguim! Não há lama, é melhor para trabalhar.

- A minha avó diz que isto é sinal de que o mundo vai acabar. Não chove, Morre tudo. É um castigo de Deus!

- Ela é que vai acabar!

- E tu também. Não ficas cá para a semente!

- Segura esta viga P20 simplex. Põe-na no cabeçal.

- P20 Simplex? O simplex não é do governo?

- Há mais simplexes. Mas estes funcionam a sério. Já viste os painéis de cofragem que colocámos em duas horas?

- É por isso que já tenho dores no pescoço e nos braços por assentar tantos prumos. Quem me dera voltar para a escola.

- Só pensas na escola, Pinguim.

- Sonhei que já tinha voltado para a escola!

- Como é que acabou essa história do encarregado a fazer discursos?

- Sonhei que o encarregado chamou toda a gente, subiu para cima de um andaime e pôs-se a falar: “quero saudar todos os trabalhadores e felicitá-los porque estão a contribuir para o progresso do país e para nos ajudar a vencer a crise.”

- Tens a certeza de que era o encarregado?

- Parecia ele…

- Não era o engenheiro?

- Qual engenheiro?

- O que costuma estar ali no gabinete e que às vezes anda por aí com uns papéis e uma fita métrica.

- Não sei. Pelo capacete parecia o encarregado.

- Não disse mais nada?

- Não me lembro muito bem. Só me lembro que fez alguns gestos com os braços estendidos e disse…: “ este investimento público é prioritário, mas nós não fazemos investimento só para dar emprego a cabo-verdianos e ucranianos, como diz a oposição. Nós também damos emprego a indianos, marroquinos, guineenses e árabes. Esta escola é muito importante e verifico que os trabalhos têm decorrido a um bom ritmo."

- Ó Pinguim, devias ter-lhe dito que nós, aqui, trabalhamos a sério, não brincamos em serviço.

- Depois disse mais umas coisas que eu não percebi muito bem: “Orgulhamo-nos de receber bem quem quer trabalhar connosco. Portugal está nos lugares da frente de quem recebe bem os seus imigrantes. Além do emprego queremos dar muito mais. A pá e a picareta, a colher e o martelo são as canetas com escreveis o vosso saber.”

- O martelo é uma caneta?

- “Esta escola é um grande livro feito com as lanças das gruas, os braços mecânicos das máquinas e com as mãos humanas que ligam as vigas aos pilares e desenham as paredes como páginas escritas com a tinta em suor. Quem sabe fazer uma escola, quem trabalha o ferro e o betão de uma forma tão profissional mostra competências que não estão só no papel. Esta é uma, entre muitas novas oportunidades para que os professores vos reconheçam essas competências. Proponho atribuir, no fim, a todos os que aqui estão, o título de ‘engenheiro honoris causa’, depois de se inscreverem no mais famoso sistema de formação e validação de competências da população trabalhadora, reconhecido de norte a sul do país e além fronteiras. Para isso todos têm que requisitar o célebre Magalhães. Temos que aumentar o nível de escolaridade dos portugueses distribuindo diplomas e computadores a todos.”

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Atrás da cofragem IX

O sonho do Pinguim

- Ajeita aí o ferro, Pinguim. Põe o fio-de-prumo.

- Está aprumado! Isto está bem, Catatua!

- Os pilares não podem ficar defeituosos. São eles que suportam todo o edifício.

- Não vão cair por falta de ferro! Já viste as barras de 12 desta armadura?

- Agora leva aqui a cofragem metálica e é só fazer a betonagem.

- Estou farto disto, Catatua! Ou é poeira, ou é lama! Que bem estaria agora na escola!

- Nunca estás bem onde estás, Pinguim. Vê se assentas de vez…

- Há tempos sonhei que tinha voltado à escola! Foi um sonho muito fixe! Foi nessa altura que pensei, mesmo a sério, em voltar!...

- Não fazes outra coisa senão sonhar! Põe os pés na terra! Tu, para escola? Fazer o quê?

- Tive um cinco no fim do quarto ano! Se voltar à escola vou tirar ainda melhores notas!

- Um cinco? Qualquer um tira um cinco!

- Mas, na semana passada tive um sonho muito estranho!

- Sonhaste que os professores não te quiseram na escola, não foi?

- Nada disso! Foi uma espécie de pesadelo.

- Pesadelo?

- Sonhei que o encarregado nos chamou a todos para aquele largo e se pôs em cima de uma andaime a fazer um discurso.

- O encarregado? Ele não tem jeito para discursos… o que é que ele dizia?

- Que todos têm que ter o máximo cuidado em cumprir as normas de segurança na utilização de ferramentas, principalmente no uso de máquinas para que não ocorram acidentes.

- Diz sempre a mesma coisa: o capacete de protecção, as luvas e as botas de pedreiro.

- Mas disse mais: "este é um grande investimento na educação. Ainda está para nascer o primeiro-ministro que tenha feito tanto investimento na educação. Nesta escola do Baixo Mondego os alunos terão ao seu dispor uma escola melhorada, com instalações de qualidade superior como nunca se fez em Portugal. A requalificação desta e de outras escolas vai custar-nos muito dinheiro, mas temos que olhar para o futuro com esperança e sem desânimos. Não aceitamos o discurso do 'botabaixismo'."

- Ó Pinguim, era o encarregado que estava a falar ou o primeiro-ministro?

- Como ele tinha um capacete branco e um colete reflector novo, ao longe, pareceu-me o encarregado.

- Fizeste confusão, de certeza, Pinguim! Não disse mais nada?

- Disse. A grua está a descer o painel da cofragem, cuidado!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Atrás da cofragem VIII

O Catatua

- Ó Catatua, o teu Benfica, agora, ganha tudo! A águia nunca voou tão alto!
- Nem me fales nisso, Pinguim.
- O quê? Já não és do Benfica?
- Não tem nada a ver … quer dizer… tem e não tem…
- Não estou a perceber!
- Nem quero falar nisso…
- Pensei que estivesses contente com o Benfica!...
- Estou, claro que estou, mas…
- Só estou a falar de futebol… o que é que se passa? Cada vez percebo menos…
- Nem podes perceber. Tu não sabes… não tens mulher!...
- Ah! Já vi tudo! Houve bronca?! Ela queria ver a novela e…
- Nada disso, Pinguim. Embirrou! Vi a segunda parte no “Café”, bebi duas cervejas, demorei-me mais um bocadinho, quando cheguei... pôs-se a arengar!… nem quero falar nisso…
- A minha avó e a minha mãe também me estão sempre a controlar! Pensam que eu ainda sou uma criança…
- Se eu um dia perco a paciência, não a aturo mais! Juro! Mulheres, há muitas!…
- Não tinhas coragem, aposto contigo!
- Ah! Não?! Na próxima…
- E deixavas a tua filha?!
- Isso é que me mói…
- Por isso é que não me quero casar, para depois trair um filho ou uma filha…
- Não acredito. Não precisas de casar para ter filhos…
- Isso é complicado!…
- Vi-te com a Sónia na feira de ano. Não foste ao concerto?
- Fui. Mas acabou tudo. Só somos amigos…
- Mas dançaste com ela, todo coladinho!…
- Mas está tudo decidido. Não quero, um dia fazer como o meu pai!...
- Um dia mudas de ideias...
- Quem tem filhos tem que assumir! Não os pode trair!
- Trair? Essa agora! Eu sou livre! Não posso fazer o que quero?
- O meu pai diz o mesmo! Também fez o que lhe apeteceu! E eu? Não sou livre?!
- Claro, também és livre. Alguém diz o contrário?
- Eu não sou como um cão vadio, sem família, sem pai! Quem faz um filho tem que assumir. Traiu-me! Eu fiquei…
- Traiu-te? Continua a ser o teu pai.
- Ele teve a liberdade para me abandonar, mas eu não posso ter a liberdade para o ter a pé de mim! Não é? Não tive culpa de ter nascido! Eu nem pedi para nascer!...
- Tens uma certa razão, mas tens que ver que sempre foi assim.
- Nem sei para que andamos, aqui, a trabalhar. Para quê fazer uma escola nova? Um ginásio novo? Uma biblioteca?
- Não andas bom da cabeça… temos que fazer um futuro melhor. Temos que acreditar…
- Acreditar? Como? Só se fala em crise. Não há dinheiro. Só há desemprego. As notícias são sempre as mesmas, todos os dias…
- Não sabes que a vida é uma luta?
- Se todos os pais fizerem como o meu e não tiverem paciência para aturar os filhos para quê fazer mais escolas e obrigar os professores a fazer aquilo que os pais não querem? Os professores não são livres também?