A
"legionella"
- O ano começa frio, Catatua! Esta geada não é
para brincadeiras!
- Tu é que não estás habituado, Pinguim. Preferias
andar nas obras, não era? Olha ali a escola secundária! Parece um palácio
moderno!
- Estás
enganado, Catatua!
- Lá, sempre podias acender uma fogueira num canto
da obra mais abrigado, para aquecer as mãos!
- Já podei estas vinhas muitas vezes e se for
preciso faço uma fogueira aí, no meio da vinha, para me aquecer!
- Com esta crise, nunca mais voltamos para as
obras. É uma calamidade, Pinguim!
- A minha avó tinha toda a razão quando dizia: “um
dia, o dinheiro do Estado acaba-se, as escolas ficam cheias de dívidas e os
pedreiros, no desemprego”.
- Havia escolas que precisavam de obras, outras
nem tanto.
- Pois é! Gastaram aquele dinheiro todo para nada,
Catatua!
- Para nada, não! Há aí escolas bem boas para os
alunos poderem estudar!
- Sabes o que a minha avó diz? Agora, há escolas
novas fechadas, sem alunos, onde foram gastos milhões de euros e outras, onde
os alunos apanham frio de rachar e onde chove quase como na rua.
- A tua avó está sempre a exagerar!
- O que nos vale é estas vinhas do meu avô,
Catatua! Se não fosse isso, estaríamos no desemprego e a viver na rua.
- Um pedreiro não pode ficar sem trabalho. Está
sempre pronto para todo o serviço.
- Mas hoje, a geada está forte. Não se vê ninguém
na rua e o fumo das chaminés espalha-se por esses campos frios e cinzentos.
- O frio é bom para matar a bicharada e essas
pragas que há por aí, Pinguim!
- É verdade, Catatua. Mas há muitas pragas que,
mesmo assim, resistem. São muito difíceis de matar!
- A filoxera? A filoxera é danada. Quando apareceu
deu cabo das vinhas todas!
- Isso já foi há muito tempo, no séc. XIX. O meu
avô já me contou a história toda. Mas, há pragas muito mais perigosas!
- Estás a falar da legionella? Essa dá cabo das
pessoas! Livra!
- A minha avó diz que é pior do que sarna,
Catatua!
- Se uma pessoa ficar infectada, não escapa, vai
para debaixo dos torrões!
- Eu não sabia que se transmitia com tanta
facilidade! É preciso muito cuidado!
- Estava difícil, mas lá conseguiram descobrir que
vinha das torres de refrigeração da fábrica de Vila Franca.
- Não, Catatua! A minha avó diz que essa praga é
muito mais antiga e que veio mesmo, do centro de Lisboa.
- Do centro de Lisboa? A tua avó está enganada,
Pinguim!
- Não está! Ela sabe bem o que diz!
- A legionella veio da fábrica dos adubos!
- Tu acreditas nisso, Catatua?
- Não viste a reportagem? Esta praga vinha pelo ar
nas gotas de água e as pessoas...
- Isso diziam eles para enganar! Essa grande
epidemia teve origem em Lisboa, ali para as bandas do Largo do Rato!
- Do Largo do Rato, Pinguim? Não há lá nenhuma
fábrica de adubos!
- Mas há lá uma fábrica muito mais perigosa!
Então, agora, os adubos é que têm a culpa de tudo?!
- A tua avó endoideceu. O que é que há lá no Largo
do Rato que empeste toda a gente?
- Tens andado com os olhos fechados, Catatua! E há
muita gente assim!
- Então, tu não ouviste o que eles disseram? É uma
praga que entra nos pulmões quando respiramos...
- Entra nos pulmões, nos olhos, nos ouvidos, no nariz
e na carteira das pessoas!
- Na carteira? Não estou a perceber!
- É por causa dessa grande praga que nós vivemos nesta
austeridade danada e no desemprego!
- Tu estás a baralhar-me os neurónios! Essa
bactéria vem nas gotas de água, pelo ar...
- Por ar e por terra. Por isso é que estamos todos
infectados. É o que diz a minha avó!
- As pessoas infectadas têm que estar no hospital,
Pinguim! Não sei onde queres chegar com essa conversa!
- A minha avó tem toda a razão, Catatua, diz que
esta praga já cá está há mais de 40 anos.
- Há mais de 40 anos? Então a bactéria apareceu ali,
há dias, em Vila Franca!
- Estás enganado, Catatua! Uma destas terríveis
bactérias já foi apanhada e já está na cadeia, lá para as bandas do Alentejo!
- Ah! Isso é outra história! Isso é uma bactéria
de dois pés!
- Pois é. Diz que é um animal feroz e farta-se de
espernear para sair de lá.
- Coitado do animal! Mas ele diz que está inocente,
Pinguim!
- E tu acreditas nisso, Catatua?
- Não sei, Pinguim! Mas...não podemos fazer
julgamentos na praça pública!
- Na praça pública, Catatua? Que eu saiba todos
temos a liberdade de fazer os nossos juízos na praça privada!
- Mas não os podes divulgar, Pinguim!
- Também me queres acusar de delito de opinião?!
- Estás a participar no aparato mediático,
Pinguim! Não podes fazer isso!
- Aparato mediático? Então, nós não vivemos, hoje,
na era da comunicação?
- Se te parece que ele é culpado não o podes
dizer! Chiu...
- Queres mandar calar todos os órgãos de
comunicação? És pior do que a censura do lápis azul, Catatua!
- E tu estás a pôr em causa a sua inocência,
Pinguim!
- Isso é o que dizem todas as outras bactérias
iguais, que o vão visitar.
- E todos
dizem que não há provas!
- É só para enganar o zé-povinho, Catatua! É só
para baralhar! O processo mal começou e está em segredo. Não se pode pôr o
carro à frente dos bois!
- Ele, pelos vistos tem muitos amigos. Quase todos
os dias tem visitas!
- Amigos? A minha avó diz que fazem todos parte da
mesma quadrilha!
- A tua avó está outra vez a exagerar, Pinguim.
Essa agora!
- E vêm todas do mesmo sítio! Têm lá ninho!
- No Largo do Rato?!
- Lá é que está a peste toda, diz a minha avó!
Algumas pestes são muito velhas e já estão reformadas! São como parasitas!
- Parasitas ou bactérias, Pinguim?!
- É tudo a mesma coisa! Vê lá se se lembram de vir
para aqui, ajudar a podar a vinha!
- Querias vê-los aqui a sujar os sapatos?
- A sujar os sapatos ou as botas! Não são mais do
que os outros!
- Ó Pinguim, tu também vais fazer o que eles
fazem?
- O que eles fazem, Catatua? Tu vê-los fazer
alguma coisa?
- Só fui uma vez a um comício!
- Pois é! Só sabem fazer promessas e agitar bandeiras, mas depois, quem se
lixa somos nós que ficamos mais na miséria!
