terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Atrás da cofragem XVIII

O Natal do Pinguim

- Com o temporal que tem estado, bem se vê que estas paredes de betão armado estão bem feitas, senão já estaria tudo em derrocada…
- Não choveu assim tanto, Catatua, que desse para destruir a obra!
- Olha, olha, Pinguim! Olha estes pilares bem aprumados e alinhados!
- Estou a ver…
- Não estás a ver nada! Tu não gostas de ver a obra a avançar?!
- A avançar como?
- A ficar cada vez mais completa, a mostrar mais… como vai ser?!

- Gosto, gosto!
- Gosto… gosto… parece que não comeste nada hoje, Pinguim! Vamos tirar esta cofragem.
- Estou pronto, Catatua.
- Não sentes curiosidade em ver como é que ficou o pilar?
- O pilar? Como?
- Um pilar ou uma viga, se ficaram bem feitos, sem arestas na face…
- Sinto. Claro que sinto! Se o betão não for bem vibrado fica com bolhas de ar! Toda a gente sabe…
- Não acredito! Não te dá gozo nenhum quando…
- Sim, sim!
- Para mim, quando o betão fica à vista é quase como olhar para uma mulher bonita pela primeira vez!
- Eu sei, já percebi!
- Tu andas macambúzio, Pinguim! O que é que se passa contigo?
- Nada!
- Nada?! Vejo-te com uma cara!
- Quanto mais durmo mais sono tenho, não sei o que se passa comigo…
- Também me parece que ainda estás a dormir.
- Não me apetece fazer nada, se eu pudesse…
- Neste fim-de-semana, do Natal, não aproveitaste para descansar?
- Gostava muito do Natal em casa da minha avó, quando era pequeno!
- E agora não gostas?
- Gosto, mas, já não é a mesma coisa…
- Porquê?
- Quando era pequeno gostava muito de ajudar o meu pai a apanhar o peru para a minha avó assar no forno.
- Apanhar o peru?
- O peru é perigoso! Às vezes apanhava, cá, umas bicadas! Eu tinha que fugir pelo meio dos patos e das galinhas para me esconder no palheiro quando o peru corria atrás de mim.
- Já vi tudo, Pinguim! Por não teres o teu pai contigo, já não gostas do Natal?
- É a festa da família…
- Para ti não continua a ser a festa da família? Só se não quiseres…
- Não gosto de famílias a fingir… com quem não se pode contar…
- A fingir? Um bom prato de peru bem regado, isso é que não é a fingir. É bem bom! É o melhor que tem o Natal!
- Uma das coisas de que mais gostava era de me sentar à lareira da minha avó!
- A tua avó já não tem a lareira?
- Tem. Mas era diferente. Como não havia aquecedores, ninguém saia dali. À lareira, até o arroz parecia mais doce!
- Eu sei que a tua avó faz uns bons petiscos! Estraga-te com mimos!
- Depois da missa íamos almoçar todos juntos.
- Tu também vais na cantiga dos padres, Pinguim?
- A minha avó diz que os padres não inventam o que dizem e que a religião é importante para nos guiar.
- Guiar para onde? Os padres são como as outras pessoas e há tantas religiões! Ela sabe lá qual é a melhor!
- A minha avó diz que nem todas são iguais e temos que escolher a verdadeira.
- Para mim são todas falsas. Tu pensas que vais para o céu?
- Isso não te sei explicar… mas acho que a minha avó tem razão!
- Tem razão em quê?
- Quando morre alguém, só os padres é que celebram missas para os mortos.
- Nem sempre, Pinguim. A tua avó está enganada.
- Mas muitos só vão à missa depois de mortos quando vão para o cemitério.
- Não me fales mais em mortos! Deram-te muitas prendas Pinguim?
- A minha mãe ofereceu-me uma bicicleta de montanha!
- E o teu pai? Aposto que não se esqueceu de ti!
- Não.
- Ah!

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Atrás da cofragem XVII

O combate à crise

- A tua mãe veio cá, Pinguim?
- Não, Catatua. Eu é que sonhei!...
- Ah! Andas sempre a sonhar!
- Se um homem não sonhar, morre mais depressa!
- A tua mãe ainda trabalha no escritório?
- Ainda. Sonhei que quando estávamos a colocar o betão de limpeza na sapata daquele pilar, o porteiro chamou-me…
- Chamou-te para quê?
- A minha mãe estava lá e queria falar comigo.
- Ficaste aflito? Pensaste que era uma má notícia?
- Mais ou menos… normalmente telefona-me.
- E então?
- Disse-me que o patrão a tinha mandado cá porque estava interessado em fornecer materiais para a obra.
- O senhor Mário pensa que não há mais ninguém que venda uns tijolos e umas carradas de areia?
- Ó Catatua, isto foi só a sonhar!
- Até nos sonhos ele é danado para o negócio!
- Com a crise, o negócio está fraco…
- Não tenhas pena dele, Pinguim!
- Já despediu algum pessoal e se as vendas baixarem mais…
- A tua mãe está com medo de ir também para a rua?
- Não sei, mas o desemprego está a aumentar todos os dias…
- Ah! A tua mãe, agora, passou a ser escriturária e “caixeira viajante”!
- Antes assim do que ir para o desemprego!
- “Caixeira viajante”? Isso não é trabalho para mulheres!...
- Nos tempos de hoje nada se pode desperdiçar!
- É um trabalho sem horário e bastante perigoso!
- E a lei da paridade não é também para “caixeiras viajantes”?
- Nunca ouviste falar do problema do caixeiro-viajante?
- Não, qual é?
- Contaram-me há tempos... mas eu não sei explicar muito bem!
- Mas que problema é? Faz com que as mulheres não possam ser “caixeiras viajantes”?
- Não! Ser homem ou mulher é indiferente. Parece-me que o problema tem a ver com a matemática…
- Com a matemática? A minha mãe é boa em matemática! Passa a vida a fazer contas!
- Se eu percebi, o problema é mais ou menos assim: se fosses caixeiro-viajante e tivesses de visitar, por exemplo, clientes na Figueira, na Tocha, em Cantanhede, em Pombal, em Condeixa, em Penela e em Coimbra e se o da Tocha só estivesse disponível ao meio dia, o de Pombal às 9 da manhã, o da Figueira às 3 da tarde e os outros em qualquer hora, qual seria o percurso mais rápido e económico para os visitares a todos e voltares a Montemor?
- Isso não é um problema, é um quebra-cabeças!
- E ainda achas que ser caixeiro-viajante é trabalho para mulheres?!
- Por que não, Catatua? Pensei que fosse um problema diferente!…
- Um problema diferente?
- Sim! Uma mulher sozinha… por sítios desconhecidos…
- Já ouviste falar de “a morte do caixeiro-viajante”?
- Olha! Tu queres meter-me medo?
- Não! Eu também não sei bem... acho que é um filme!
- A minha mãe só veio trazer uma carta para o encarregado, da parte do senhor Mário Pires.
- Mas afinal, o que é que o senhor Mário Pires queria?
- Vender materiais porque o governo mandou fazer obras em quase todas as escolas do país para dar emprego aos desempregados e pôr a economia a mexer.
- Ele é muito esperto! Tem olho! Se fornecesse só o ferro que gastámos aqui era como se lhe saísse a sorte grande!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Feliz Natal

Feliz Natal e um Bom Ano Novo de 2010 para todos os operários das obras do Agrupamento de Escolas de Montemor-o-Velho, especialmente, para o "Pinguim" e "Catatua" e para todos os internautas do betão na educação.


domingo, 20 de dezembro de 2009

Atrás da cofragem XVI

Parede de betão
- Isto é que é uma parede de betão bem feita, Pinguim. Nem é preciso fazer mais acabamentos!
- Estou cansado de desmontar tantos prumos, tantas vigas e tantas tábuas, Catatua.
- Coloca os prumos naquela palete para que a grua os possa içar.

- Com tantas paredes de betão, isto nem parece uma escola, Catatua!
- Não parece uma escola?
- Parece mais um bunker. Mesmo que aconteça aqui um grande tremor de terra, a escola não cai.
- Os engenheiros é que sabem. Só temos que fazer o que eles põem no papel…
- Eu não estou contra eles, Catatua. Só gostava de saber porque é que são precisas paredes assim, para uma biblioteca!
- Uma obra como esta tem que ficar bem segura, para durar muitos anos! Não pode cair ou abrir fendas se vier um terramoto…
- Mesmo assim!
- Ó Pinguim, não sabes que estas paredes podem estar sujeitas a fortes esforços de compressão, de flexão e?…
- Eu é que ando aqui sujeito a esforços de compressão, de tracção e de deformação, Catatua!
- Os engenheiros é que fizeram os estudos sobre o comportamento sísmico, deslizamento ou abatimento de solos, quando a chuva ensopa a terra…
- É pena que os engenheiros só façam estudos para isto e ninguém pense noutros terramotos...
- Noutros terramotos? Não estou a perceber, Pinguim!…
- Sabes muito bem que terramotos são, Catatua…
- Quais?
- Já viste na televisão as casas todas destruídas, as paredes desfeitas, nos sítios de grandes tremores de terra?
- Já!
- Olha que eu tenho pensado muito nisto…
- Pensado muito em quê?
- Na minha vida!
- Na tua vida? Nos tremores de terra? O que é que tu queres dizer?
- No grande terramoto da minha vida.
- O grande terramoto da tua vida? Deves estar a brincar, até me dás vontade de rir…
- Mas não é para rir, Catatua. Desde que o meu pai saiu de casa a minha vida ficou feita em cacos…
- E o que é que querias que os engenheiros fizessem?
- Que fizessem qualquer coisa como uma parede de betão como esta, construída na obra, para impedir que o meu pai e muitos pais abandonassem os filhos!
- Querias que o teu pai ficasse fechado dentro de casa?
- Não… que ele sentisse que tinha uma parede de betão à frente quando pensasse em abandonar-me.
- Ó Pinguim, não vale a pena!... Deixa!... Estás sempre a voltar ao mesmo!
- Ainda me lembro, como se fosse hoje. Foi numa sexta-feira. Fiquei à espera, à espera, junto à escola primária e o meu pai nunca mais apareceu.
- Já passaram mais de dez anos… esquece isso…
- O meu tio viu-me ali, perguntou-me o que estava ali a fazer, tão tarde. Eu disse: “o meu pai esqueceu-se de mim”! Ele, então, ofereceu-me boleia na carrinha dos pedreiros.
- Tens que olhar para o futuro, Pinguim.
- Desde então, eu é que tenho construído, sozinho, a minha vida.
- Foi por isso que vieste para as obras?
- Não quero favores de ninguém!
- Se vivesses com a tua mãe, a tua irmã e o teu padrasto, estarias a pedir-lhes favores?
- Padrasto não é pai. É um pai de segunda!
- Ele não é bom para ti?
- Não é bom, nem mau. Para mim é como uma pessoa qualquer...
- Agora que já tens uma irmã, que é filha dele e da tua mãe…
- É por isso que eu não gosto nada de misturas, de meios irmãos e meias irmãs.
- Não falas com a tua “meia irmã”?!
- Falo. Ela não tem culpa de nada.
- Pediste-lhe os livros para estudar, não foi?
- Alguns livros do ano passado.
- Estudaste muito no domingo e ouviste música?
- O meu avô tinha uma dor nas costas, dizia que era uma pontada, que não conseguia fazer nada. Pediu-me para tratar das vacas todas, das galinhas… nem descansei quase nada!
- Se tivesses vindo, comigo, à pesca tinhas descansado mais…
- Quando estou cansado até tenho mais sonhos!...
- Se os sonhos forem bons, tens que fazer, aqui, os trabalhos mais duros!
- Sonhei que a minha mãe tinha vindo aqui...
- Para ver as obras?
- Não! Veio perguntar se precisávamos de materiais de construção.
- Materiais de construção?
- Como ela está no escritório e as vendas são poucas, o patrão mandou-a cá!

domingo, 13 de dezembro de 2009

Escola mete água em Lisboa

É bom prevenir
Parece que as obras na Escola Gil Vicente em Lisboa não estão a correr bem, a avaliar pelas notícias que nos chegam pela comunicação social. Esperemos que não nos aconteça o mesmo e que a nova ex-Escola Secundária de Montemor-o-Velho, agora Agrupamento de Escolas, não fique a meter água como antes.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Atrás da cofragem XV

A pesca
- Vamos à pesca, no domingo, Pinguim?
- À pesca?! Estás doido?! Preciso de descansar, Catatua?
- Não te cansas… sentamo-nos num sítio calmo…
- Todos os dias me levanto cedo! … ao meio dia vou com a minha avó à missa.
- Vais à missa?!
- Sempre fui, desde pequeno com a minha mãe, a minha avó, o meu avô…
- Vamos de tarde! … A minha mulher vai visitar a mãe, eu não fico em casa! … e tu…
- Não tenho paciência para estar à espera de nada, a olhar para uma cana espetada no chão…
- Não te dá gozo?! Quando Vês a cana a balançar puxas a linha, ela curva-se e tens um grande peixe no anzol a sair da água!...
- Tens muita sorte, Catatua!... Gaba-te! Não?! O peixe é manhoso!...
- Há dias fiz cá um petisco com umas carpas e bogas, nem te digo nada!
- Pescar?!... ao domingo à tarde?!
- Não é bom? É melhor do que andar por aí a gastar gasolina! Não precisas de poupar dinheiro?!
- E quem te disse que não poupo?
- Conheço cá um sítio! Trago sempre peixe! E do bom!
- Onde?
- No açude do Laranjal, uma maravilha!
- Isso é para reformados! …
- Ah! Tens outros planos!... Pronto! Tens a tua vida… amigo não empata amigo!
- Preciso de descansar, Catatua! Estou farto de betão e de cofragens…
- Agora temos menos cofragens, vamos assentar tijolo. Os acabamentos é que demoram mais. Vai ficar aqui uma escola que é um mimo!
- É por isso que eu preciso de descansar…
- Não queres ir à pesca porquê? … vais estar com a Sónia no domingo?
- Quero ficar sozinho! Descansar, ouvir música, estudar…
- E não vais fazer companhia à Sónia? Vai ficar triste…
- Já te disse que acabei tudo com ela! Só somos amigos!
- Não acredito. Na festa do S. Martinho estava toda contente ao pé de ti!
- As mulheres são muito fingidas!
- Eu sei que não vale a pena escolher muito, vai tudo dar ao mesmo!
- É por isso que não estou com pressa para me enforcar.
- Mas olha que a Sónia é boa rapariga, tiveste bom gosto!
- Já te disse! Não quero pensar na Sónia nem em mais ninguém.
- Olha que te arrependes! Não podes pensar assim, desanimar…
- Não tenho emprego certo! Não quero andar toda a vida a pedir papinhas à minha avó e à minha mãe!
- Não hás-de arranjar um emprego qualquer? Tens de procurar…
- Não quero um emprego qualquer. Quero um bom emprego. Quero ser independente!
- Anima-te, rapaz! Vais comigo à pesca ou vais namorar? Não fiques sozinho, ainda enlouqueces!...
- Nem uma coisa nem outra. Vou ficar em casa.
- A estudar? Não me digas que já voltaste para a escola e não disseste nada?
- Não! A minha irmã já está no sétimo ano e eu…
- Ah! Abandonaste a escola e a tua irmã, agora, está a passar-te à frente, não é?
- Mostrou-me alguns livros de Língua Portuguesa, de Ciências, de História …
- Agora é ela que te dá lições?! Já sabe mais do que tu!...
- Sabe, algumas coisas! Mas olha, se eu estudasse aquilo, a sério, fazia tudo a brincar! Não me custava nada…
- Já não vives com a tua avó? Estás com a tua mãe, a tua irmã e o teu padrasto?
- Nem me fales nesse nome. Ele não me é nada. Só lá fui a casa ver os livros. Mais nada!
- Se a tua mãe gosta dele… Isso não é vida para ti. Porque é que não vives com a tua família?
- Família?! Eu é que sei! O meu pai teve liberdade para me abandonar. A minha mãe teve liberdade para se juntar. E eu não tenho liberdade para viver a minha vida?
- Não estou a perceber. O que é que queres fazer? Estás a pensar em...
- Nada. Quero aprender mais do que o que o meu pai e a minha mãe me ensinaram!
- Como? Sobre o quê?
- Hei-de voltar para a escola. Quero saber se lá se ensina o que é a liberdade. Se um pai pode abandonar a família e um filho mesmo que ele não queira.
- Mas já sabes que sempre foi assim! Não podes fazer nada!
- Sempre ouvi dizer que a liberdade de uma pessoa não pode prejudicar a liberdade das outras.
- E alguém te prejudicou a tua liberdade?
- O meu pai. Só ele é que é livre de ir para onde quer e eu não sou livre de querer que ele fique?!
- Se sabes o que é a liberdade, nem precisas de ir para a escola…
- Há muitas outras coisas que eu não sei: sobre História, Ciências, Geografia. E quero aprender línguas!
- Está combinado! Quando a escola de Montemor ficar pronta quero ver-te a estreare-la…
- Estudar e trabalhar não vai ser fácil, Catatua!
- Eu sei, Pinguim. Nunca ouviste dizer que “querer é poder”?
- O problema é outro, Catatua. Temos de olhar para o futuro.
- Que problema, Pinguim?
- Quando as obras da escola acabarem vamos ficar todos no desemprego…
- Espero que o patrão tenha mais obras para fazer!
- Não vês as notícias?!
- Às vezes vejo. E depois?
- Todos os dias fecham fábricas, escritórios… O governo não tem dinheiro para pagar as obras que já mandou fazer, quanto mais…
- Só pensas no pior! Ganha confiança, Pinguim!
- Cá para mim, quando acabarmos esta obra, estas gruas e tudo o resto vai ficar a enferrujar por aí…
- Estás enganado. Não há-de haver mais trabalho?

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Atrás da cofragem XIV

A desilusão da avó
- Ontem, a minha avó foi ao Centro de Saúde.
- A tua avó está doente, Pinguim? Não me digas que  está com gripe suína!
- Não. Queixa-se dos olhos. Diz que às vezes não consegue ler...
- Talvez precise de mudar de lentes…
- Sabes o que ela me disse quando, ontem, cheguei a casa, Catatua?
- Não ficou contente com o médico?!...
- E não só! Que passou aqui quando veio da consulta!
- E depois?
- Que mais valia estarmos quietos, que estava aqui uma escola que era um mimo e agora é uma lástima!
- Uma lástima?! Porquê?

- Que havia um jardim e agora é só lama; a verdura e as árvores desapareceram e nem os pássaros podem fazer ninho!
- Agora que está a chegar o Inverno é que a tua avó queria ver os pássaros a fazer ninhos?!
- Que com todo este barulho os pássaros fogem!
- As árvores estão cá! … Algumas tiveram que ser cortadas… não dava para trabalhar! …
- Que ouviu dizer que esta era a escola mais moderna mas só viu tapumes a toda a volta que nem dava para ver quase nada…
- A tua avó não sabe o que diz! Ela queria que ficasse tudo aberto aos ladrões?!
- Que ficou desiludida, que só viu gruas no ar, ouviu o barulho de máquinas e viu camiões de cimento a entrar e a sair!
- O que é que ela queria ver mais?
- Não sei!
- Ela sabe muito bem que “Roma e Pavia não se fizeram num dia”.
- Eu disse-lhe que quando esta escola ficar pronta todos os alunos vão ter a educação de melhor qualidade…
- Não lhe disseste que a escola vai ter um novo ginásio, dos mais modernos?! …
- Disse! Claro!
- E que ali vai ficar uma grande biblioteca para todos os alunos desde o primeiro ao décimo segundo ano?
- Mas ela disse que está farta de promessas. E que, se hoje se aprende tantas coisas e se faz tudo tão depressa porque é que é preciso esperar meses e meses por uma consulta e gastar tanto dinheiro para tratar da saúde?!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Atrás da cofragem XIII

O Magusto

- Tem cautela, Pinguim! Estamos a mais de cinco metros de altura! Segura esse prumo!
- Parecemos uns macacos no circo, Catatua!
- Temos que cumprir as normas de segurança!
- Quais normas de segurança?! Estou farto betão, cofragens, prumos, vigas…
- Todas as obras têm plano de segurança! Não vês aí essas guardas vermelhas, essas…
- Pois e estes cintos e argolas de correr, os cabos de aço…
- O arnês é a tua segurança. Se caíres ficas suspenso, não bates com as costelas no chão!
- Espero bem que não!
- Olha que se caíres não temos Magusto?
- Magusto?
- Não me digas que não vais amanhã à Associação? Vai haver festa!
- A minha mãe vai jantar à minha avó. Traz também a minha irmã! … E vai assar as castanhas…
- Porque é que não lhe dizes para vir no domingo?
- No domingo não pode, vai sair com o meu… padrasto!
- Vais-te arrepender! A Sónia não vai faltar e vai perguntar por ti…
- Está tudo acabado entre mim e ela!
- Olha que ela ainda não te esqueceu! Há dias falou-me de ti!
- Não quero saber, Catatua! Diz-lhe que nunca mais a quero ver!
- O quê? Não acredito! Mas?!
- É isso mesmo, nunca mais a quero ver!
- Porquê? Aconteceu alguma coisa, algum problema?
- Problemas tenho eu demais, todos os dias!
- Andas assim tão desanimado, Pinguim?
- Só sei que me mato a trabalhar, todos os dias, de manhã à noite… para quê?
- Tens de acreditar no futuro!
- A minha avó também me diz a mesma coisa, mas…
- Mas o quê?
- A vida está muito difícil! Se eu quiser comprar uma casa para mim, nem daqui a trinta anos…
- Mas não podes desanimar!
- Não vês a notícias todos os dias? Uns têm tudo outros não têm nada!
- Mas isso foi sempre assim!
- Era já bem tempo disto mudar! Estou farto de promessas! Só vejo mentiras e corrupção e ninguém faz nada!
- Anima-te, Pinguim! Porque é que não vais com a tua mãe, a tua irmã e os teus avós ao Magusto, na Associação, no sábado à noite? Não te vais arrepender!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Atrás da cofragem XII

A Gripe

- Estás doente, Pinguim? Tens a cara um pouco pró amarelo…


- Estou cheio de lama, dos pés à cabeça, Catatua! Estou amarelo, e de todas as cores! E ainda perguntas?!…


- Estás sempre a tossir, pensei que estivesses doente! Não tens dores de cabeça?!


- Não me dói só a cabeça, Catatua, dói-me o corpo todo! Estou farto disto!


- Cuidado com a gripe! Se pegas a gripe a este pessoal todo…


- Isso é que era bom! Iríamos todos para casa! Estou farto de obras, cimento e ferro até aos cabelos!


- Nem penses! Quem é que faz a escola? Estás maluco?!


- A minha avó diz que esta gripe é um grande negócio… mais nada!


- Um negócio? Mas já morreram muitas pessoas!... Eu vou pedir para ser vacinado...


- Também queres encher a carteira a quem vende as vacinas, as máscaras e os desinfectantes?


- O meu pai sempre me disse: “HOMEM PREVENIDO VALE POR DOIS!”


- Mas nem toda a gente pode ser vacinada! ...


- Se os pedreiros adoecerem quem é que faz a escola?


- Há muitos no desemprego. Qualquer pedreiro pode ser substituído por outro!


- E se morrerem os pedreiros todos com a gripe?


- Podemos passar bem sem pedreiros! ... Não fazem cá falta nenhuma! …


- Não fazem falta?! Essa agora?! Como é que a escola pode ficar feita daqui a um ano e tal?!


- Se não houver pedreiros qualquer um faz este trabalho…


- E os pedreiros não merecem ser vacinados? Eu não quero morrer! … Tenho mulher e uma filha, tenho amigos…


- Todos temos amigos, para isso toda a gente teria que ser vacinada!


- Assim é que devia ser! Não somos todos iguais?!


- Não há dinheiro para vacinar toda a gente e, por isso, é preciso escolher!


- Escolher quem?


- Quem faz mais falta!


- E nós não fazemos falta? E o encarregado? E o engenheiro?


- Nada! Só o governo, os deputados, os médicos…


- Não acho bem. Se não houver pedreiros não há escolas, se não houver escolas não há professores nem alunos…


- Se o governo morrer com a gripe quem é que governa?


- E se morrer toda a gente, o governo governa quem?


- É por isso que é preciso vacinar os médicos para que acudam ao governo e às pessoas!... e não morra toda a gente!


- Se eu mandasse, mandava vacinar, primeiro, os agricultores e os padeiros porque esses é que dão comida a toda a gente. Desses é que ninguém se lembra!