quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Atrás da cofragem XXII

O paparazzi
- Estás doente, Pinguim? Estás todo a tremer!
- Admiras-te, com este frio danado que está?!
- Mexe-te! Há aqui muito tijolo para assentar!
- Não é o tijolo que me aquece, Catatua!
- Olha, primeiro, assentas os tijolos dos cantos…
- Eu sei, Catatua.
- Com o fio-de-prumo vês se ficam bem colocados…
- Eu já sei fazer as prumadas guia!
- A seguir esticas uma linha…
- Eu já sei, Catatua! Para servir de guia…
- Depois espalhas a massa de concreto e é só assentar a primeira fiada!
- Isso é a coisa mais fácil, Catatua!
- Não te esqueças que na segunda fiada tens que começar com meio tijolo…
- Não sou, assim, tão estúpido! As juntas verticais têm que ficar desencontradas para que as ligações sejam mais consistentes!
- E tens que verificar o nível apoiado na régua de pedreiro…
- Eu sei, Catatua. Já me aconteceu a última fiada ficar tão torta que parecia a rampa para o castelo!
- Com esse capacete, até pareces um astronauta! Se tivesses aqui a tua máquina fotográfica…
- Pensas que vou trazer máquina para o meio desta lama?!
- Ó Pinguim, diz-me uma coisa! Tu sabes quem é que anda, aí, a tirar umas fotos às obras, por cima da vedação?
- Não, mas isso não me incomoda!
- A equipa da fiscalização não gosta muito…
- O meu avô também me fez a mesma pergunta!
- O teu avô? Ele sabe quem é?
- Um dia passou ali no tractor e viu alguém ao pé da vedação. Quando cheguei a casa perguntou-me se tinha cá vindo algum jornalista…
- Se fosse um jornalista, gostavas que ele fosse tirar fotografias às obras da tua casa?
- Mas isto é uma escola, não é uma casa particular!
- Mesmo assim, não pode!
- O meu avô diz que é uma obra do Estado…
- Mas está resguardada!
- O meu avô é que tem razão! É investimento público pago com os nossos impostos e por isso…
- Mas a fiscalização não autoriza!
- Não autoriza cá dentro!
- Mas ele está a entrar na privacidade de quem cá está!
- Na privacidade? Nós estamos num local público e quem mandou fazer esta escola foi o governo!
- Mas o governo pode proibir que estranhos entrem cá dentro!
- O jornalista, ou lá o que é, não entrou! E o governo não pode ter nada a esconder!
- Não se trata de esconder…
- Olha, eu já ouvi dizer aos políticos certas frases… “que tudo deve ser feito com total transparência” e que… “as obras públicas são do povo e para o povo”!
- Mas só depois de ficarem prontas!
- Qual quê? Nunca ouviste dizer que “o povo tem o direito à informação” desde que não perturbe a segurança e o trabalho das obras?
- Se ele viesse para aqui trabalhar no duro, talvez perdesse a mania de andar para aí armado em paparazzi!
- Paparazzi?! Tu pensas que és alguma estrela?!
- Tu, que andas sempre a dizer mal das obras, devias chamar cá esse paparazzi e mostra-lhe o que está feito!
- Mostrar o quê? Uns pilares no meio da lama, umas paredes de betão preto e algumas paredes de tijolo?
- Estás muito enganado! Há aqui salas quase prontas, basta pintá-las e pôr o pavimento!
- Há aqui muito por fazer… não me doam os dentes!
- O principal está quase feito! Com as máquinas é tudo muito mais rápido.
- O que é que querias mostrar ao paparazzi?
- Olha, podias começar pelo pátio interior. Vai ficar ali uma coisa fina! Nunca vista!
- Acho que ele iria ficar decepcionado…
- Decepcionado? Talvez gostasse de ver a colocação das vigas metálicas na cobertura do ginásio!
- Não vale a pena! Parece-me que a fiscalização não gosta, cá, de paparazzis.
- Não gosta de paparazzis? Há normas de segurança que têm que ser cumpridas!
- Quando entro aqui lembro-me, muitas vezes, do peru da minha avó.
- Porquê? Querias fazer aqui um churrasco?
- Não! Estás a ver o peru com o bico escondido?
- O que é que tem o bico do peru?
- Estou sempre à espera que o papão da segurança me dê uma bicada!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Atrás da cofragem XXI

Dúvidas
- Não dizes nada, Catatua? Passa-se alguma coisa?
- Não! Não se passa nada. Porquê?
- Andas muito calado… parece que andas… a moer qualquer coisa! Não?
- Não te rales comigo, Pinguim! Deixa!
- Só falei para… que… se quisesses… desabafar ou…
- Não, não quero. Estou bem!
- Como disseste, há dias, que tinhas discutido, lá em casa! Pensei…
- Não te metas na minha vida, Pinguim! Isso é comigo!
- Pronto! Não é preciso martelares, assim, com tanta força! A tábua não tem culpa!
- Só me apetece partir isto tudo!
- Tem calma, Catatua!
- …
- …
- Viste o jogo do Benfica? Aquilo é que foi!...
- Já te disse, Pinguim! Deixa-me! Deixa-me!
- Já não posso falar contigo?! Ena! Não posso crer!
- Deixa-me! Não me digas nada!
- Nem de futebol?!
- Vamos assentar tijolo! Vá!
- Nem posso abrir a boca?!
- Passa-me esse, aí!
- Toma! Tijolo é coisa que não falta!
- Temos muito que fazer! Não vês?!
- Pronto! Hoje estás com a telha… quer dizer, com o tijolo!
- Temos que nos despachar!
- Deu-te a pressa, agora?!
- Temos estas paredes todas para fazer!
- Olha! E se falássemos de mulheres? De gajas? De gajas boas?!
- Está calado, Pinguim!
- Olha aquela miúda gira, ali, na rua!
- Já te disse! Cala-te!
- Estás mesmo esquisito, hoje, Catatua!
- Não és tu que queres ver a escola acabada?
- Eu já não sei… Tanto trabalho!
- Tanto trabalho?! As coisas não se fazem sozinhas!
- Já tenho estas botas quase rotas de tantas voltas que dei por aqui!
- Agora sou eu que não te percebo…
- Olha para as minhas botas cheias de lama! Já correram isto tudo, tudo!
- E eu não?!
- As vezes que já subi estas escadas, que trepei aos andaimes!
- Ó Pinguim, tu estás mesmo variado!
- As vigas, as tábuas, os prumos que me passaram pelas mãos! Estás a ver?
- Estou a ver o quê?
- Há dias, a minha avó perguntou-me como é que estavam as obras.
- Como estavam as obras?
- Sim. Se faltava muito para a escola ficar pronta…
- Porque é que a tua avó quer saber? Ela também quer vir para cá?
- Não! Mas diz que o Estado está, aqui, a gastar tanto dinheiro, tanto dinheiro que quer saber que resultado é que isto vai ter.
- E tu? O que é que lhe disseste?
- Que ainda falta muito, mas que vai ficar muito melhor do que era antes!
- Falta muito?! Quando o Bunker S8 começar, aí, a trabalhar, vais ver as paredes rebocadas num instante!
- Acho que a minha avó é que tem razão!
- Tem razão? Porquê?
- Diz que os alunos agora não estudam nada, que passam sem saber…
- A tua avó sabe lá! Se não fizermos uma boa escola não podemos ter bons alunos!
- O pior é se temos uma boa escola e não temos bons alunos! Andamos aqui a matar-nos e o Estado a gastar tanto dinheiro para nada!
- Passa aí mais tijolos. Olha, aqui vai ser uma sala de aula… quantas vezes sonhaste que?...
- Muitos alunos vêm para aqui mas não fazem nada. Nem sequer trazem os livros!
- Estás enganado! Quem te disse? A tua avó?!
- Ó Catatua, a minha irmã diz que muitos colegas dela não têm respeito nenhum pelos professores…
- Sabes muito bem que nestas idades, muitas vezes…
- E passam as aulas na brincadeira! Não aprendem nada nem deixam que os outros aprendam. Por isso é que a minha avó diz que andamos aqui a trabalhar para nada…

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Obras para a Educação VIII

Imagens
Algumas fotos das obras do Agrupamento de Escolas de Montemor-o-Velho e de alguns trabalhadores, nesta primeira quinzena de Janeiro de 2010.


1 - Base do depósito da água.


2 - Betonagem.


3 - Bloco D e a (nova) ligação ao Bloco A.


4 - Quatro trabalhadores indianos (equipa de armação de ferro)


5 - A equipa prepara a nova entrada.


6 - Vista geral da zona de entrada em frente ao Bloco A.


7 - Um trabalhador faz a aplicação de placas de mármore no novo edifício do 1.º Ciclo.


8 - Edifício para as aulas do 1.º Ciclo.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Atrás da cofragem XX

A vacaria do avô
- Pinguim, prepara-te, o camião betoneira está aí.
- Estou preparado, Catatua.
- Repara como esta viga vai unir as cabeças de todos estes pilares.
- Claro, Catatua. É isso mesmo!
- Estes espaçadores e calços fazem com que os varões fiquem afastados da cofragem.
- Estou a ver, Catatua! Isso não é para evitar a corrosão do aço?
- A colocação dos varões deve permitir a betonagem e a compactação do betão.
- Eu sei, Catatua. Os varões têm que ser bem distribuídos.
- Já viste como se dobra isto no mandril de dobragem?
- Eu não sou assim tão nabo, Catatua!

- Os varões das vigas devem ser dobrados em forma de gancho, de laço ou de cotovelo para uma maior aderência do betão. Estes, aqui, estão na forma de gancho.
- Eu sei Catatua! O laço é para forças de tracção e o gancho e o cotovelo para forças de compressão.
- Já estás um mestre, Pinguim! E sabias que a transmissão de forças de um varão para outro pode fazer-se por meio de soldaduras!
- A transmissão de forças?
- Esta viga vai suportar a cobertura e por isso tem que suportar muitas forças. O aço é como a coluna vertebral de uma viga. A coluna não pode estar partida.
- Soldam-se os ossos uns aos outros?
- Usa-se a soldadura ou a sobreposição de varões ou aplicam-se porcas na rosca do varão.
- Para que são estes parafusos soldados na armadura?
- Vão servir para ancorar as vigas que vão suportar a cobertura.
- É por causa do vento?
- Se vier um vento muito forte, a cobertura do ginásio já não vai toda pelos ares!
- Esta viga é enorme…
- Vamos enchê-la, Pinguim. O camião já está a encher o balde!
- Um camião betoneira como este é que fazia um grande jeito ao meu avô, Catatua!
- Onde é que o teu avô iria pôr dez metros cúbicos de betão?!
- Na vacaria!
- Na vacaria?! Isso é um desperdício! O teu avô não tem palha para fazer a cama às vacas? Vai fazer-lhes a cama de cimento?
- É o que o meu avô diz, mas não é ele que manda…
- Então, quem é que manda? Não é ele que manda lá em casa?
- O meu avô foi tirar uma licença para fazer umas obras e deram-lhe um papel onde estava tudo escrito!
- Tudo escrito, como?
- Que tem que promover o bem-estar dos animais na exploração bovina.
- O bem-estar dos animais na exploração bovina?!
- Que as vacas têm que estar num sítio confortável que não lhes cause mal-estar ou sofrimento e que seja fácil de limpar e desinfectar.
- Não queres que as vacas durmam em cima de estacas ou fueiros, pois não?
- Mas o meu avô nunca tratou mal as vacas e tem-nas sempre limpas!
- Já vi quem tenha as vacas no meio da lama e do estrume que nem têm sítio para se deitarem!
- A minha avó diz que pedem tanta coisa que só falta pintar as unhas das vacas, fazer-lhes a maquilhagem e pôr lá um sofá para cada uma!
- Se assim dessem mais leite!
- Catatua, puxa a alça que eu ajeito a manga.
- Aponta a manga para a cabeça do pilar...
- Não se pode começar no meio da viga?
- Isto não é como regar o milho. Temos de começar no ponto mais seguro da cofragem!
- É bem mais fácil regar o milho do que fazer betonagem!
- Tens muita sorte, Pinguim! Se tivesses de alombar com baldes de massa, nem amanhã ao meio dia tinhas o trabalho feito!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Atrás da cofragem XIX

O convite do avô


- Pinguim, Pinguim, liga o compressor.
- Já está ligado, Catatua! Não é preciso gritares tanto!
- Não parece! Estás surdo que nem uma porta!
- Desculpa, Catatua! Estava distraído…
- Parece-me que ainda andas a pensar no fim de semana… não é? Mas acabou-se a papa doce!
- Pões-te a adivinhar… mas não tens sorte!
- Andas a pensar nas prendas que te deram?! Aposto contigo!
- Estás muito enganado, Catatua!
- Vamos limpar estes painéis de cofragem.
- Eu tinha-os deixado limpinhos! Ficaram prontos para serem usados outra vez!
- A chuva e vento arrastaram as folhas das árvores, o lixo e…
- Não é para admirar! Durante todos estes dias, ali…
- Então! Dizias que o teu pai se tinha esquecido de ti, mas…
- Há muito tempo que, nem pelos meus anos, se lembrava!
- E agora?
- Eu nem sei se foi ele que me mandou uma…
- Não sabes se foi ele? Como?
- A minha avó, uns dias antes do Natal, mostrou-me uma encomenda que tinha chegado no correio. No endereço dizia: “Filipe José de Sousa Martins”.
- E não sabes de quem era?
- A encomenda vinha da Suíça!
- Da Suíça? E o nome do remetente?
- Tinha o primeiro e último nome do meu pai. Mas há muitas pessoas com o mesmo nome!
- Não sabes que o teu pai, agora, é motorista de transportes internacionais? Ele corre toda a Europa!
- Só sabia que era camionista quando trabalhava para o senhor Mário!
- O que é que vinha na encomenda?
- Uma máquina fotográfica e tabletes de chocolate.
- Estás a ver? Deve ser uma boa máquina! E chocolates da Suíça! Eia!
- A minha avó diz que não é com vinagre que se apanham moscas…
- A tua avó é uma… desmancha-prazeres! Tu não ficaste contente?!
- Os chocolates eram muito bons!
- E a máquina fotográfica?
- Fotográfica e de video. É muito complicada! Não me entendo muito bem com aquilo…
- É por isso que tens andado a magicar…
- Não! Nada disso! Tenho andado a pensar no que o meu avô me disse um dia destes…
- Não concorda que continues fora da tua mãe, não é?
- Não! Disse-me que se eu quisesse deixar isto…
- O quê? Vais deixar as obras?
- Não! Para já, não!
- Então?
- No domingo à tarde, saí com o meu avô no jipe. Fomos até à quinta da Azenha Grande.
- Dar um passeio?
- Deu-me o volante para as mãos e disse: “hoje vais tu a conduzir. Já és um homem, tens andado um pouco desvairado desde que o teu pai se foi embora, mas tens que assentar, tens que ganhar coragem!” Eu fiquei um bocado atrapalhado…
- Nunca conduziste um jipe?
- Já! Mas não estava à espera… assim… que o meu avô fizesse aquilo. Depois disse-me que estava a precisar de alguém que o ajudasse…
- Que o ajudasse em quê?
- Disse-me que, há já algum tempo, tem andado à procura de um homem que o ajude no campo, a tratar dos animais…
- E tu?
- Disse-lhe que ia pensar…
- Andas sempre a dizer que estás farto disto… que não podes ver betão à tua frente! É uma boa oportunidade!
- O que é que tu farias? Se fosses tu? Diz-me.
- Se ele pagasse bem, não pensava duas vezes!
- Eu não sei o que lhe hei-de dizer…