segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Atrás da cofragem XLI

O relatório do Marito sobre Wundt

- Tu viste quem passou ali agora, Catatua?
- Ali, onde?
- Ali, no castelo!
- Tu pensas que eu não tenho mais que fazer? Temos estas peças todas para montar!
- Não perdes muito tempo só por estares a olhar!
- Quem era? Uma turista sueca... de mini-saia?!
- Qual turista! Só pensas nisso, Catatua!
- E penso mal? Que eu saiba a crise ainda não acabou com as mulheres bonitas!
- Eu sei! Eu sei! E por enquanto, olhar, ainda não paga imposto...
- Era o que faltava ter que pagar impostos para ver mulheres bonitas! Essa é boa!
- Tu não viste passar ali o Marito?
- O que é que tem o Marito? Quero lá saber!
- Faltou outra vez às aulas e veio com a namorada para o castelo!
- Estás enganado, Pinguim! Ele já não falta às aulas! Já mudou!
- Mudou?! Não acredito!
- O pai dele, o Alfredo, já me contou, ontem, quando fui tomar café!
- Como? O Chico, o colega dele, disse-me que continua na mesma, um baldas. Todos os dias tem faltas.
- Mentira, Pinguim. Desde que começou a estudar Psicologia...
- Psicologia? O Marito gosta de Psicologia? Não pode ser!
- Foi o que me contou o Luís da Isaura.
- O Luís da Isaura? O Luís já é quase um doutor!
- Ora aí está! É por isso mesmo, Pinguim!
- Estás enganado, Catatua! O Luís percebe do assunto, agora o Marito?!
- Se ele me contou é porque é verdade!
- O que é que ele estuda em Psicologia?
- A Psicologia é uma ciência muito importante!
- Eu sei! Mas...
- O Luís da Isaura ficou admiradíssimo! O Marito fez cá um relatório!...
- Um relatório? Só se for sobre a Psicologia das mulheres!
- Eu estou a falar a sério, Pinguim!
- Já estou a ver o Marito a estudar Psicologia com a namorada, ali, no castelo de Montemor.
- A Psicologia não é só das mulheres! Estuda o comportamento!
- O comportamento? Eu porto-me sempre bem! Não ando por aí escondido como o Marito!
- Não é nada disso, Pinguim!
- A Psicologia estuda o comportamento humano.
- O Marito só pôs isso no relatório? Que estuda o comportamento humano?
- Não. Escreveu muito mais!
- Então?
- Que um alemão, que nasceu há 180 anos é que criou a ciência chamada Psicologia!
- Então, antes não havia Psicologia?
- Havia, havia! Mas não era como a desse alemão! Estava misturada com a Filosofia.
- E como é que se chamava o Alemão? Parece-me que já ouvi falar dele!
- É um nome muito esquisito!
- Muito esquisito? Como?
- Não era Manuel nem Joaquim. Era... era Wun...
- Wun?
- Wundt. Ah! Já sei, era Wilhelm Wundt.
- O Marito pôs no relatório o que é que ele fez para criar a Psicologia?
- Claro! Disse que foi Wundt que construiu o primeiro laboratório.
- O primeiro laboratório? Não havia já laboratórios há 180 anos?
- O primeiro laboratório de Psicologia Experimental!
- Para fazer o quê, Catatua?
- Queria estudar a consciência.
- Não me disseste há pouco que a Psicologia estuda o comportamento humano?
- Mas Wundt achava que o objecto da Psicologia devia ser a consciência.
- Estudar a consciência? Como? Ele tinha um método novo?
- O Marito escreveu no relatório que o método era a instrospecção controlada!
- Que nome tão arrevesado, Catatua!
- Pois é, Pinguim! E o Marito disse que o Wundt não teve grandes resultados com este método.
- Porquê?
- Porque é muito difícil de aplicar. Era como se tu estivesses ao mesmo tempo à janela e a veres-te a passar na rua.
- Como é isso Catatua? Não estou a perceber!
- Tu tinhas que te dividir em dois Pinguins: um andava a passear na rua e o outro ficava à janela para observar.
- Ah! Pois! Isso não dá! Eu sou só um, não sou dois. O método da introspecção não deve dar muito jeito para estudar a consciência.
- Pois não! Por isso os outros psicólogos apontaram muitos defeitos à instrospecção.
- Que defeitos, Catatua?
- Olha: o Marito disse que não tinha rigor, depois, que as sensações passam depressa e por isso não se podem estudar!
- Não se podem estudar por passarem depressa? Não estou a perceber!
- Sim! Não se pode pôr uma sensação em cima da mesa para se analisar como se faz com a água no laboratório.
- A introspecção ainda tem mais defeitos?
- Tem! Disse que quando tomamos consciência de uma coisa, essa coisa torna-se diferente.
- Como, Catatua?
- Se tu te sentires apaixonado pela tua namorada e se pensares o que é estar apaixonado, a emoção sentida e depois pensada já não é igual.
- Isso é muito complicado, Catatua!
- E disse mais! Que a introspecção não dá para conhecer a consciência das outras pessoas e as palavras usadas podem ser entendidas de formas diferentes.
- As palavras podem ser entendidas de outra maneira?
- Sim, claro. O Marito diz que não há uma linguagem unívoca e os factos da consciência não são objectivos como os da física e da química. Também diz que o método instrospectivo não se pode aplicar nas crianças.
- Que grande relatório! O Marito não disse mais nada sobre Wundt?
- Disse que a Psicologia de Wundt ficou conhecida como associacionista e estruturalista!
- Que nomes tão complicados, Catatua! O que é que esses nomes querem dizer?
- Que Wundt queria dividir a consciência em partes mais simples, as sensações, como faz o cientista no laboratório de química que decompõe a matéria em átomos e moléculas para as voltar a juntar.
- Para as voltar a juntar? Para quê?
- Para poder explicar melhor a consciência, as leis da associação das sensações e perceber melhor qual era a sua estrutura.
- Não estou a perceber uma coisa, Catatua!
- O quê, Pinguim?
- Se a Psicologia de Wundt não deu resultado porque é que o Marito gosta tanto de Psicologia?
- Houve mais psicólogos!
- Mais psicólogos? Quais?
- Amanhã conto-te. Temos que acabar esta escada rolante para ver as turistas que vêm a Montemor-o-Velho a subir para o castelo.
- As suecas ou as holandesas?
- Todas!

terça-feira, 13 de novembro de 2012

“Atrás da cofragem” XL



Pinguim e a filosofia
- A minha avó disse-me que, quando era pequena, subiu estas ruas e vielas dúzias de vezes e nunca precisou destas escadas rolantes!
- A tua avó não sabe o que diz, Pinguim! Se cá viesse hoje, nem subia dois degraus!
- Estás enganado, Catatua! Gosta muito de cá vir! Mais devagar, mas vai até lá acima!
- Não me disseste que nem tem tempo para tratar da horta, dos patos e das galinhas?!
- Também gosta de ver o nosso castelo, ver as ruas e as pessoas!
- Vem matar saudades? Ah! Ela gosta de cá vir!
- Quem é que não gosta, Catatua?
- Aqui tem outros ares e outras vistas!
- Mas às vezes fica muito triste.
- Triste, porquê, Pinguim?
- Diz que agora não há crianças nas ruas, as portas das casas estão quase todas fechadas, velhas e a cair. Diz que está tudo abandonado.
- Não lhe disseste que agora tudo vai mudar? Isto é um obra que fica para a história!
- Eu disse-lhe, mas...
- Não lhe disseste que vamos ter mais turistas a visitar o castelo, que as ruas vão ficar mais animadas e toda a gente vai querer experimentar esta escada rolante, a subir, encosta a cima?
- Sabes o que me respondeu?
- Que quer vir à inauguração!
- Nada disso, Catatua!
- Então?
- Que os gatos não precisam de escadas destas. Eles trepam e saltam como o vento!
- A tua avó... Ó Pinguim!
- E os pássaros também não. Têm asas. Diz que só estamos aqui a deitar dinheiro ao lixo.
- Tu e a tua avó ainda deitam mais dinheiro ao lixo!
- Eu? Que dinheiro é que eu deitei ao lixo?
- Não andas a estudar essa coisa que não vale nada?
- Qual coisa que não vale nada, Catatua?
- Não me contaste que a Filosofia deixa a gente tal e qual? Para que é que estudas isso?
- Muitos como tu é que dizem isso da Filosofia.
- Eu não disse nada. Tu é que...
- Isso foi história! Contaram-me que um dia uns cábulas que não queriam estudar escreveram no muro da escola: “a filosofia é a ciência com a qual, na qual e pela qual a gente fica tal e qual”.
- E não é verdade, Pinguim?
- É claro que não! Isso é uma grande desculpa para quem não quer fazer nada!
- Ó Pinguim, estás a ver esta escada rolante?
- Estou. Porquê?
- Já viste estas engrenagens todas?
- O que têm as engrenagens?
- Diz-me uma coisa: os filósofos sabem fazer destas coisas?
- Os filósofos? Os filósofos fazem coisas muito mais interessantes?
- Se não fossem os engenheiros tu tinhas que andar a pé e o teu avô tinha que lavrar as terras do milho e do arroz com juntas de bois, como antigamente!
- Se não houvesse filósofos também não havia engenheiros!
- Não digas isso!
- É verdade, Catatua! A filosofia é a mãe de todas as ciências. Está escrito nos livros!
- Se os filósofos e os políticos soubessem do ofício como sabem os engenheiros não estávamos agora em crise!
- Os políticos, sim! Esses é que têm a culpa de tudo! Os filósofos, não!
- É tudo a mesma coisa, Pinguim!
- Os filósofos sabem fazer discursos, são rigorosos e não dizem coisas à toa!
- Tu acreditas nisso?
- Tu és como os sofistas, Catatua!
- Sofistas? Que raio de nome é esse?
- Um bom filósofo distingue
A verdade da opinião;
Os sofistas são falsos sábios,
Os filósofos é que não!
- Eu tenho a minha opinião! Estamos em democracia! Hoje temos liberdade para dar a nossa opinião!
- Mas a tua opinião pode estar errada e é diferente da verdade!
- Pode estar errada? Como?
- Os filósofos apresentam teses e argumentos! Não dão só uma opinião!
- Teses e argumentos? O que é isso?
- A tese é a ideia principal e o argumento é a razão pela qual tu defendes a tua tese.
- Isso é muito confuso, Pinguim.
- Para aprenderes estas coisas tens de filosofar, Catatua!
- Filosofar? Estás doido!
- Se não filosofares não sabes o que é a liberdade. Tens de filosofar para te sentires mais livre e mais sábio!

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Pelo direito à educação


Com o objectivo de criar emprego na construção civil e nalgumas indústrias e, alegadamente, dinamizar a economia e aumentar o nível escolar e cultural dos portugueses, o anterior governo decidiu requalificar grande número de escolas, um pouco por todo o país, como nunca se tinha visto até hoje. Em 2009, o edifício da Escola Secundária de Montemor-o-Velho, que tinha cerca de 23 anos de existência, foi totalmente demolido com a força das máquinas. No seu lugar foi construído um novo edifício com um orçamento de alguns milhões de euros. No dia 5 de Outubro de 2010 a escola de Montemor-o-Velho foi umas das cem escolas inauguradas nas comemorações do Centenário da República num ambiente de festa e de alguma vaidade.
Mas a festa acabou depressa. Hoje, com o objectivo de poupar dinheiro, o actual governo está a cortar em tudo o que de mais elementar existe nos Serviços do Estado, que são indispensáveis no quotidiano e que deveriam estar à disposição dos portugueses. A educação é um dos sectores fortemente afectado, o que se traduz na negação e/ou redução de um dos mais importantes direitos: o direito à educação. A gestão danosa das contas públicas, a que temos assistido nos últimos anos, fez com que agora falte o financiamento à educação, hipotecando o futuro. Para que nos serve, agora, uma escola nova, feita com o dinheiro dos nossos impostos, se ficar com as salas vazias e com as portas fechadas? Que é feito da escola para a República? O investimento foi na educação ou só no betão?
O chamado ensino recorrente ou ensino nocturno destinado às pessoas que não tiveram oportunidade de concluir os seus estudos durante o período normal de escolaridade irá desaparecer dos “curricula” escolares em Montemor-o-Velho. Se até agora quem trabalhava e estudava à noite já sentia dificuldades em conciliar os horários de trabalho com as actividades escolares e vencer distâncias entre o trabalho, a casa e a escola, a partir do próximo ano lectivo a situação ficará muito pior, já que no concelho de Montemor-o-Velho, nenhum estabelecimento de ensino irá disponibilizar os cursos de Ciências e tecnologias, Ciências socioeconómicas ou Línguas e humanidades. Por outro lado a escola possui um quadro de professores competentes e habilitados nas disciplinas destes cursos do décimo, décimo primeiro e décimo segundo ano. Muitos destes professores correm o risco de ir para o desemprego por não terem alunos enquanto muitas pessoas do concelho de Montemor-o-Velho sentem necessidade e vontade de continuar os seus estudos sem o poderem fazer. Não podemos admitir que a escola fique encerrada obrigando quem quer estudar a deslocar-se para grandes distâncias.
Apelo, por isso, a todas as pessoas do concelho de Montemor-o-Velho, que queiram estudar à noite, que não fiquem em casa. Se o povo é quem mais ordena, esta é a oportunidade de mostrarmos a nossa força e o nosso poder. Vamos forçar o governo a abrir a escola à noite para os cursos do ensino recorrente por módulos capitalizáveis no 10º, 11º e 12º ano. Não podemos tolerar este apagão cultural que o governo nos quer impor. Muitos governos apostam na ignorância e no analfabetismo para escravizar e sacrificar o povo com austeridade, fechando-lhe os olhos do conhecimento, para que não reaja e não se revolte contra as injustiças. Vamos exigir que a escola abra as portas à noite, que tenha vida e animação para que não se pareça com o espaço de silêncio e de paz dos cemitérios.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Atrás da cofragem XXXIX

Marito “O Baldas”
- Agora acabou-se a comédia, Catatua!
- Não acredito, Pinguim! O Alfredo já não tem mão nele! Não o segura, de maneira nenhuma!
- Se o Marito fosse teu filho, não fazias o mesmo?
- Talvez! Não sei!
- Só tirou negativas nos testes, falta às aulas, não pega nos livros! O que é que tu fazias?
- E achas que vai dar resultado? Só se o prender como um cão, à casota!
- Pelo menos já não vai andar, por aí, de mota … talvez aproveite o tempo!
- O que adianta trancar a mota a cadeado? Ele tem as dos amigos!
- Não, não! Sem mesada para a gasolina?! E com rédea curta?!
- Arranja sempre maneira de escapar! Já o viste alguma vez, em casa, agarrado aos livros?
- Só se for a servir de bandeja! Já estão cheios de nódoas de café!
- De bandeja?! Não, isso não vi, mas…
- E já não têm metade das folhas. Nas aulas,  o Marito tem falta de material todos os dias.
- Isso pode lá ser, Pinguim? Se fosse assim já tinha chumbado!
- Chumbado? Já está mais que chumbado! É por isso que eu digo: ele devia vir para aqui, para o duro! Abrir alicerces, montar cofragens, atar ferro! Gostava de o ver com martelo pneumático nas mãos!
- Nem penses! Não o queria cá! Já que falaste em ferro, segura, aí, essa barra. Cuidado, se caíres, partes as costelas, lá, no fundo! Só páras na rua doutor José Galvão!
- Se o castelo de Montemor tivesse armaduras como estas, nas fundações, não estava, assim, em ruínas!
- Não está mau de todo! Tem, aí, muralhas vistosas! E vêm cá muitos turistas!
- É por isso que mandaram fazer esta escada nova?
- Escada rolante, Pinguim! Não é uma escada qualquer! Vai ser um mimo trepar esta encosta até ao castelo!
- Que grande baldas! Diz que não gosta daquilo! Não faz nada!
- Se não gosta e se está chumbado a meio do ano, porque é que não o põem a andar?
- Só quando os professores lhe derem as notas! Mas mesmo que esteja chumbado, não se rala!
- Ah! O Alfredo, um dia, chega-lhe a roupa ao pêlo! Chega, chega! A gastar dinheiro para o menino andar à boa vida?!
- A gastar dinheiro?! Estás muito enganado, Catatua! Não gasta, nem um cêntimo!
- Não gasta um cêntimo?! E a matrícula, os livros, os…?
- E ainda tem subsídio! Tem tudo pago, Catatua! Tudo pago! Livros e tudo!
- Tem tudo pago?! Espera aí! Há qualquer coisa que eu não entendo: vai todos os dias para a escola, tem faltas de material, não estuda, está chumbado e a escola ainda lhe paga!
- É isso mesmo! Foi o que me disse o Alfredo!
- Tens, mesmo, a certeza disso?
- É como te digo! E quando quer lanchar, basta pedir uma senha!
- Para a minha filha, eu pago o passe todos os meses, a senha do almoço todos os dias, paguei não sei quanto da matrícula! Gastei um dinheirão nos livros, cadernos, canetas!… e o Marito…!
- Tem tudo de borla! Tudo de borla!
- Não poder ser, o Alfredo mentiu! De certeza! Foste enrolado!
- O Alfredo não é desses! Já alguma vez te mentiu? Pergunta-lhe!
- A minha filha paga, as colegas também! Sempre pagaram e agora…
- Da turma do Marito, ninguém paga nada!
- Não sei porque é que na turma da minha filha todos têm que pagar! Então, umas turmas são mais do que as outras?
- A tua Daniela só está no oitavo! O Marito não! Está mais adiantado!
- Mais adiantado?! Não estuda nada e está mais adiantado? Como pode ser isso?
- Não sei, Catatua! Parece mistério! No ano passado já era repetente e ia chumbar mais uma vez. O pai não esperava outra coisa! Era chamado cada vez que tinha negativa! Mas no fim, passou!
- Os professores não sabem o que fazem? Está visto! Passaram o Marito sem ele saber nada?
- Não sei! Sabes o que me parece? Os professores é que se passaram com ele e passaram-no! Perderam a paciência! Só pode ser!
- Não! Estás a imaginar coisas! A minha Daniela…
- O Marito, com negativas atrás de negativas! Os professores passaram-se, Catatua! Deram-lhe nota para passar e pronto! Se não, perdia o subsídio!
- Deram-lhe nota?! Sem ele merecer?! Tu estás maluco?
- Depois de estar no papel, quem é que vai saber? Fica com o diploma e…
- E os exames?! E os testes? E os trabalhos de casa? Está lá tudo! Há diplomas e diplomas! A minha Daniela tem cinco a tudo!
- Como é que os professores podem obrigar o Marito a estudar se não lhe podem levantar um cabelo e o pai não faz nada dele?
- O que os professores mandam é para cumprir! Eles têm outros modos, outras maneiras! O que não percebo é porque é que ele não paga! Não paga nada porquê?!
- A turma do Marito é profissional. É diferente, Catatua!
- Profissional? Então, o Marito já está chumbado e é profissional? Profissional de quê? E os outros não são profissionais?
- O Marito diz que o curso é profissional. No fim, vai trabalhar.
- A minha Daniela quer ser médica. Também vai trabalhar!
- Mas o Marito não quer estudar mais!
- Que não quer estudar sei eu! Se não tem notas…!
- Ele não quer ser médico nem engenheiro, não quer ir para a universidade e…
- Não quer ser médico e é profissional? E ainda lhe pagam! Essa agora!
- Não sei explicar, Catatua! Só sei que na turma do Marito ninguém paga nada!
- Não pagam, não pagam! São profissionais? E os médicos?
- O Alfredo poupa muito dinheiro! O negócio está fraco. É o que lhe vale para se safar da crise!
- E eu esfolo, aqui, o coiro a trabalhar, todos os dias! Pensam que sou rico?! Não é justo!
- O Marito é um sortudo! Não faz nada e dão-lhe tudo! Mas a minha avó também é contra!
- É contra o quê?
- Diz que os pais, agora, dão tudo aos filhos e por isso é que estamos em crise!
- A tua avó não sabe o que diz. Há pais que deixam os filhos a passar fome!
- Mas há outros que sempre deram tudo aos filhos que depois vão para deputado ou para o governo e nunca estudaram nada como o Marito. Acham que sabem mandar e têm direito a tudo mas põem toda a gente na miséria. Depois chamam a troika e fogem para viver à grande e à francesa!