segunda-feira, 10 de maio de 2010

Atrás da cofragem XXVIII

A escola e a crise
- Tens andado muito enganado, Pinguim!
- Enganado porquê, Catatua?
- Teimavas que a escola nunca mais ficava pronta, que não havia meio de te livrares do cimento, da colher de pedreiro, dos andaimes, dos…
- Ainda aí há muito que fazer, Catatua!
- Só se for para electricistas, técnicos de ar condicionado, de isolamento…
- Ainda sobra muito para a colher de pedreiro: lancis, passeios, caixas!
- A escola está fina! Quase pronta! Já viste?!
- A minha avó não acredita! Mas também não adianta…
- Não lhe disseste que a Escola vai ficar pronta muito antes do prazo? Uma coisa nunca vista!
- É por isso que ela não acredita… diz que “depressa e bem há pouco quem”!
- Ela que venha cá e veja! “Depressa e bem somos nós quem”! Se não fossemos bons profissionais ainda andávamos aí montar cofragens ou a assentar tijolo!
- Quando vier o Inverno é que ela quer ver! Que um tecto vai cair na cabeça das pessoas como tem acontecido por aí...
- O quê?! Esta escola não é como a ponte da Figueira!
- Eu também lhe disse que demos, aqui, o máximo…
- Digo-te uma coisa, Pinguim! Gostei muito de trabalhar aqui… e ver esta escola como está agora! Uma maravilha! A obra mais importante de Montemor!
- A obra mais importante ou a obra mais nova de Montemor?
- Se eu fosse professor dava-lhe a nota máxima! Até gostava de ficar aqui todos os dias! Começo a ter inveja dos alunos…
- Estás sempre a tempo de voltar, Catatua!
- Acho que já não tenho paciência, Pinguim! Nem tempo… há muito tempo que não pego num livro…
- Não vale a pena estares com lamúrias!
- Mas vou ter muita pena quando me for embora…
- Ontem a minha avó disse-me que só andamos aqui a perder tempo, que o país cada vez tem menos dinheiro e estas obras não resolveram nada… só ficamos com mais dívidas! A crise é cada vez maior!
- Não lhe disseste que se não fossem estas obras, o desemprego ainda seria pior?
- Ela diz que mesmo assim, cada dia que passa, os desempregados são cada vez mais e que a escola não mata a fome a ninguém…
- Não mata a fome a ninguém?! Se não for a escola não podemos ter bons médicos, bons engenheiros que, no futuro, possam fazer bem ao país!
- Diz que temos mais médicos, mais engenheiros, mais professores e mais políticos e cada vez estamos pior… não se vê bem nenhum!
- A tua avó não sabe o que diz… deixa-a falar…
- E que o dinheiro que veio para aqui devia ser para os agricultores! Eles é que matam a fome e não são ajudados…
- Vai tu, Pinguim! Vai ajudar a tua avó e o teu avô! Estás contente?!
- Olha, Catatua, não sei o que vai ser o meu futuro! Acho que a minha avó tem razão em certas coisas.
- Em certas coisas? Em quê?
- Há dias estive com a Sónia…
- A tua namorada?! Agora é que vai!
- Não tenho emprego estável, ela trabalha no centro comercial, mas ali também não tem futuro… quase todos os dias fecha uma loja!
- Sabes muito bem que a crise é mundial, temos que aguentar…
- Quem são os culpados da crise? A minha avó diz que quando se tinha que mondar o arroz à mão é que havia crise. As pessoas trabalhavam de sol a sol e não tinham nada…
- O governo diz que há mais de cem anos que não havia uma crise assim!
- Se soubesse governar não havia crise!
- Pensas que o governo não faz tudo o que pode?!
- Podia fazer melhor! Se os pedreiros não souberem trabalhar e estiverem sempre a emendar, a voltar a fazer, a estragar materiais, a perder tempo, qual é o resultado? Só prejuízo!
- Nós demos, aqui, muito prejuízo? Nem por isso!
- Olha, aquele muro de betão ficou empenado! Já viste o tempo que estive ali a picar, a martelar, a partir?!
- E achas que o governo não sabe o que faz?
- Quantas vezes é que diz uma coisa e depois diz e faz outra, ao contrário do que tinha dito antes? Isto não é como ter um pedreiro que só dá prejuízo?

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