segunda-feira, 31 de maio de 2010

Atrás da cofragem XXIX

Que futuro?
- Alegra-te, Pinguim! São os últimos pingos de suor!
- Não sei se hei-de rir ou chorar, Catatua!
- Porquê? Não estás satisfeito depois de todo este trabalho?! Olha como ficou a escola! Não gostas? Não está melhor? Vê!
- Sabes o que me disse a minha avó?
- Já estava espera! Tu e a tua avó! Sempre do contra! Sempre a desfazer! Livra!
- És capaz de me dizer que ela não tem razão, és?
- A tua avó já cá veio ver? Se viesse não se punha a dizer…
- Nem vale a pena! A diferença entre o que estava antes o que está agora não é muita.
- Não é muita?! A tua avó deve estar cega ou não quer ver!
- Se os alunos quisessem estudar, estudavam! Não era por isso que…
- Tu não vês que agora tem melhores condições? Olha para estas salas, estes…
- O problema não está nas salas, Catatua! Nem nos quadros novos ou nos computadores!
- Já mexeste num computador? Nem sabes o que é! Está lá muito mais do que está nos livros, Pinguim!
- Eu sei, Catatua! Mas o problema não é esse…
- Então, para a tua avó, uma escola nova é a mesma coisa que uma escola velha?
- Não, Catatua! Se os alunos não quiserem estudar, tanto faz ser nova como ser velha!
- É muito diferente, Pinguim! Não se compara!
- Se não quiserem, não estudam! Não vale a pena…
- Temos cá alunos muito bons! Eu conheço alguns!
- Mas também, há muitos que só querem brincar e passar o tempo… estudar não é com eles!
- Esta escola nunca mais vai ter maus alunos! Não pode! Maus alunos aqui?! Nem pensar!
- Fia-te nisso! Vais ver! Isto não lhes custou nada!
- Já estou a ver aquelas salas novas, bem confortáveis, com aquelas janelas grandes, cheias de alunos a estudar… com os computadores…
- Também tenho sonhos assim, quando estou a dormir, Catatua!
- Sonhos?! Isto é a realidade! É o futuro!
- Um futuro de nada! Ilusões!
- Esta escola é uma ilusão, é? E este jardim tão bonito é uma ilusão?!
- A relva já está quase toda amarela! É o que acontece à escola: hoje é tudo muito bonito, mas amanhã ou depois…
- Estás enganado, Pinguim! Temos que esperar que o dia de amanhã seja melhor do que o de hoje!
- A minha avó já me disse, Catatua, que em cada dia que passa, estamos mais pobres. Não tarda, vamos passar fome…
- Se não fossem estas obras estaríamos muito pior! Não te esqueças.
- Quem é que pode estar nas aulas com a barriga vazia? Aprende-se alguma coisa?
- Isso era no tempo da tua avó! E agora mete-te isso tudo na cabeça, não é?
- No tempo da minha avó? Vinha ontem no jornal: na zona de Lisboa, há crianças que vão para a escola sem comer nada… à noite nem uma sopa! Só comem o que lhes dão na cantina!
- Acreditas em tudo o que vem nos jornais? Mas não acreditas no nosso trabalho… na escola…?!
- Temos uma escola nova mas ficámos de tanga, Catatua! O que é que nos valeu?
- De tanga? Tu não ouviste? O governo disse que a economia já está a melhorar!
- Isso é mais uma mentira! Cada vez há mais desempregados… sem dinheiro para subsídios…
- Sem subsídios? Conheces algum desempregado sem subsídio?
- O governo disse que criava medidas contra a crise, para ajudar os desempregados! Viste o que fez depois?!
- Mas não acabou com os subsídios! Sabes muito bem que a crise é mundial!
- Disse que não aumentava os impostos. Viste o que aconteceu? Quem é que pode acreditar?
- Mas ele disse que fez tudo, tudo, para não aumentar! Ele não tinha intenção…
- A minha avó diz que de boas intenções está o inferno cheio…
- O governo cumpriu o seu dever! Não podia fazer outra coisa! Ou querias…?
- Porque é que ele não baixa os ordenados dos presidentes executivos que ganham, numa hora, mais do que nós ganhamos em seis meses?
- Até que enfim que dizes uma coisa acertada, Pinguim! Mas, acho que fizeste mal as contas…

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