sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Atrás da cofragem VI

Emigrar

- Hoje é que vai ser, pá. Isto não é vida para mim, Catatua.
- O que vais fazer, Pinguim? Vais mesmo embora, para o desemprego? Não tens coragem…
- Estou farto de obras. Vou arranjar outro emprego.
- Onde? Aproveita o que tens, pá e já te podes dar por muito feliz.
- Vou emigrar.
- Tu, emigrar? Para onde?
- Não sei.
- Tu estás doido! Não vês que agora a emigração é ao contrário? É para cá! Olha à tua volta!
- Há mais a ir do que a vir. Não há trabalho, nem dinheiro. Já viste o que eu ganho?
- Mas eles não se importam. Olha, marroquinos, indianos, guineenses, cabo-verdianos. Não ganham muito mais do que tu! …
- Vou conhecer outros sítios. Hei-de encontrar alguma coisa melhor.
- Andas muito iludido. O mundo agora é todo igual… a crise chegou a todo o lado…
- Mas eu quero viajar. Viajar. Nunca saí daqui. E hei-de encontrar trabalho…
- Queres viajar ou ganhar mais dinheiro?
- As duas coisas.
- E a tua família, deixa-te ir?
- A minha família? Eu já sou maior. Estou em casa dos avós. Mas eles não mandam em mim…
- Já disseste ao teu pai e à tua mãe?
- O meu pai? Sabes muito bem que ele há muito que não quer saber de mim. Até aos dezoito anos ainda me dava uma mesada, às vezes almoçava comigo. Passam-se meses que não falo com ele…
- De certeza que a tua mãe não te deixa ir…
- Mas eu vou. Lá porque ela me lava a roupa e às vezes me faz o almoço na minha avó, não quer dizer que…
- E a tua namorada?
- Namorada? Eu estou livre…
- Já disseste ao encarregado que te vais embora?
- Não. Mas…
- Tens de cumprir o contrato até ao fim, senão tens de pagar... Não podes ir…

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