sexta-feira, 28 de agosto de 2009

"Atrás da cofragem" II

Obras
- Parece que não comeste nada, hoje. Deixas cair tudo? Ias-me matando.
- Desculpa, Catatua. Magoaste-te?
- Não, mas foi por um triz que não apanhei com a aduela na cabeça.
- Eh pá, eu hoje não estou bem. Só comi uma maçã às dez horas e fumei um cigarro…
- Ó Pinguim, assim não te safas, pá. Se não comes tás tramado, pá.
- Não sei para que é que estamos a tirar tudo daqui. Esta porta está nova! ...
- Temos que tirar tudo lá para fora. Vamos deixar só as paredes. Isto vai ficar tudo novo. Sabes? Novinho em folha! Vai ser bom para a educação! Agora é que o país vai para a frente!
- A tia Júlia do Freixo é que tem a casa toda a cair. Até as cobras lá entram! Isso é que era trabalho!
- Isso não são obras para o Estado. Não és pedreiro?
- E quem é que me paga? A reforma do velho vai toda para o vinho!
- Vamos, arranca essa janela.
- Ó Catatua, diz-me uma coisa: se isto está como novo por que raio é que precisa de obras?
- Já te disse que é para melhorar a educação. Daqui a uns anos já não há ninguém como tu ou como eu, que mal sabe ler.
- Eu só tenho a quarta classe e não me envergonho nada de o dizer. Mas ainda espero voltar à escola.
- Podes tirar o nono ano, se quiseres. Já tens essa oportunidade.
- Ah! Esses cursos de três meses ou lá o que é?
- Três meses não. Mas já há muita gente com diplomas.
- Isso posso eu fazer na Associação lá da terra. Nem é preciso fazer uma escola nova só para tirar esse curso!

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