terça-feira, 6 de setembro de 2016

Atrás da cofragem L

O amigo da onça!
- Que bom que se está na praia, Catatua! Com este calor, sabe tão bem dar um mergulho e sentir esta brisa fresca!
- É pena só virmos ao fim de semana! O dinheiro não estica!
- É verdade! Não temos sorte nenhuma!
- Não temos sorte? Por que é que dizes isso?! Estás à espera do euro milhões?!
- Nada disso! O problema é que não temos quem nos convide e nos pague para ver um jogo da selecção ou para umas férias nas Caraíbas ou num daqueles sítios de sonho que nos mostram na televisão!
- Andas a sonhar demais! Trabalha! Trabalha para sustentares esses moinantes! Se não fosse o nosso trabalho, que seria deles?!
- Afinal, em que é que ficamos, Catatua?! Estás do lado deles ou não estás?! Ah! Tu és da mesma cor!
- Alto aí e pára o baile! Eu dou-lhes razão, quando a têm! Se não têm, não dou!
- Não foi isso que disseste no dia da final do europeu de futebol, no café do Alfredo! Não te lembras?! Dizias que a escola pública…
- O Estado tem obrigação de dar educação ao povo para que o povo não fique burro, toda a vida! Mais nada! O Estado não é dono da educação mas ninguém pode ficar de fora!
- Pareces um cata-vento, Catatua! Não disseste ao Alfredo que o governo tem toda a razão quando defende a escola pública? Eu não sou surdo!
- O governo não pode cortar as pernas aos alunos que estudam nos colégios! Era o que faltava!
- Não dizias que o Estado só deve pagar as escolas públicas e que quem escolher os colégios que os pague!
- Isso não é nó que se desate, assim, do pé para a mão, Pinguim! Não são favas contadas! Isso vai fazer correr muita tinta!
- Diz-me uma coisa, Catatua! A tua filha vai para o colégio ou para a escola pública?
- A minha filha vai para a escola onde sempre esteve! É a que está mais perto de casa! Não precisa de andar tantos quilómetros, se tem uma escola ao pé de casa!
- Como?! Essa não é uma daquelas escolas que está na lista dos cortes do governo?!
- A minha Daniela já me disse que não vai mudar de escola!
- Não é isso que a secretária de Estado dizia! Algumas turmas não podiam renovar a matrícula?
- Por que é que o colégio não pode renovar as matrículas, se já cá estava quando foi feita a escola pública?
- Tens razão, Catatua! A escola tem meia dúzia de anos e o Estado gastou lá uma pipa de massa!
- A minha filha não vai deixar as amigas nem os professores! E neste ano, a turma dela vai continuar!
- Então, como é que vais descalçar essa bota no ano que vem? Vais pagar, para a tua filha continuar no colégio?
- Como é que eu posso pagar, Pinguim?! Sabe Deus o que me custa pagar os livros e o material escolar!
- Há por aí muitas famílias que não vão poder pagar, Catatua! Vão ser obrigadas a pôr os filhos na escola pública!
- Obrigadas, Pinguim?! Obrigadas?! Que conversa é essa?! Já não há liberdade neste país?!
- É o que diz a minha avó, Catatua! Eles só falam em liberdade nos comícios, para caçar votos, mas depois, esquecem-se de tudo! Só sabem fazer promessas! É só garganta!
- Como é que eu posso pagar aquelas mensalidades todas, sem trabalho certo, a ganhar esta miséria de ordenado?! Não há trabalho! Não há obras para fazer!
- Foi isso que disse a minha avó: os pobres não têm liberdade! Só os ricos! Como é que os pobres podem pôr os filhos num colégio?!
- Desta vez o governo meteu o pé na argola! Os pobres como eu vão ficar em maus lençóis!
- O Alfredo diz que este governo promove a discriminação, o sectarismo e a exclusão social!
- Oh! O Alfredo?! Ele agora, também se quer armar em intelectual?!
- Ele tem razão, Catatua! O governo está a dividir os portugueses entre ricos e pobres. Os que podem pagar e os que não podem pagar os colégios! Quer voltar à luta de classes!
- Luta de classes?! A professora da minha Daniela disse que um dia vamos todos viver em liberdade, numa sociedade sem classes! Uma maravilha!
- Isso é treta, Catatua! Sociedade sem classes? Como, se quem quiser estudar nos colégios não pode contar com este governo?! Isso é discriminação!
- Isso não pode ser, Pinguim! A minha filha não pode ser discriminada! Eu não pago, também, os meus impostos, como os outros?
- Está visto! Os impostos que pagas não ajudam nada a tua filha! Se quiseres que ela continue no colégio, tens que pagar tudo do teu bolso!
- Amigos da onça! Saíram piores do que a encomenda! São uns amigos da onça!
- Amigos da onça?! Quem?! Os colégios?!
- Não! Este governo e quem os apoia!
- Este governo?! Porquê? Não estou a perceber!
- Não estás a ver, Pinguim? Não estás a ver?! São como certas pessoas que eu cá sei: quando lhes interessa, é só beijinhos e abraços, mas quando não lhes interessa, mandam toda a gente à fava!
- E muitos professores vão ficar no desemprego, Catatua! Vai ser um desastre! É isso que o governo não quer ver!
- Todos os anos há professores no desemprego, nas escolas do Estado! E muitos vão ficar lá com horário zero!
- Isso está certo, Catatua? Que grande injustiça! Já viste um pedreiro com horário zero a receber o ordenado sem fazer nada?!
- Isso não é bem assim, Pinguim! Quem tem horário zero tem que ir para uma escola onde tenha trabalho!
- Como?! Não há alunos! Cada vez há menos alunos! Por isso é que a minha avó diz que o primeiro ministro devia ter vergonha!
- Se nunca teve vergonha não é agora que a vai ter! Devia ter vergonha porquê, Pinguim?
- Cada vez há menos alunos e a natalidade em Portugal é das mais baixas da europa, mesmo assim, o primeiro ministro paga 100% a todas as mulheres que fazem abortos!
- Ó Pinguim, isso, do aborto, faz parte da liberdade da mulher!
- Que liberdade, Catatua?! Então, achas bem que o primeiro ministro dê toda a liberdade às mulheres que façam abortos, lhes pague todas as despesas e não dê liberdade nenhuma às mulheres que queiram escolher a escola para os seus filhos a quem não paga nada ou dá um abono miserável?!
- Eu sou pela liberdade, Pinguim! Mas essa é também uma grande argolada que vai sair cara a este governo!
- É por isso que o Alfredo também não pode com eles!
- O Alfredo?! Ele tira um bom ordenado no café! Pode bem escolher o colégio!
- Não é o que ele diz! A clientela está a baixar e os impostos levam-lhe tudo!
- O pior é aturar os bêbados, todos os dias! Quem é que ele vai pôr no colégio?!
- O filho, o Marito!
- O Marito?! Ele não tinha já deixado de estudar?
- Tinha, mas o Alfredo é teimoso, quer que o filho volte a pegar nos livros! Por isso é que o quer pôr no colégio!
- Tempo perdido, Pinguim! O melhor era arranjar-lhe um trabalho para o pôr na ordem!
- Isso queria ele! Onde é que ele consegue um trabalho a sério? Isso é coisa rara!

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