A cultura do lixo
- O batatal está em flor, Pinguim! A Primavera já deu um ar da sua graça!
- Finalmente, Catatua! Já não era sem tempo! Mas este vento deita tudo ao
chão!
- Nunca ouviste dizer que “Maio ventoso faz o ano formoso”?
- Falta aí qualquer coisa, Catatua! “Abril chuvoso e Maio ventoso fazem
um ano formoso”! Assim é que é!
- Tens razão, Pinguim! Em Abril não tivemos águas mil!
- É por isso que este vento descabelado seca tudo e ameaça as colheitas,
Catatua!
- Esperemos que não! Olha lá, andavas desejoso de ir aos ninhos! Já encontraste
muitos?
- Infelizmente, não tenho tempo para ir aos ninhos! E a natureza parece
que está doente!
- Doente?! Os campos estão cheios de flores, as árvores estão tão bonitas
e viçosas!
- A crise alastrou por todo o lado, Catatua! Muitos campos estão
abandonados e parece-me que os pássaros já morreram ou emigraram como as
pessoas!
- Há muitos pássaros que só aparecem na Primavera!
- Eu sei! Já vi muitas andorinhas! Mas parece-me que o mundo anda todo ao
contrário!
- Ao contrário, Pinguim?! Não sei porquê!
- Muitos pássaros não encontram nada para comer! Parece que o governo
também lhes corta nas reformas e pensões de sobrevivência!
- Estás enganado, Pinguim! Há aí pássaros que atacam as nêsperas e as
cerejas, mal elas começam a mostrar as suas cores naturais!
- A minha avó diz que só se vêem abutres e outras aves de rapina!
- Abutres?! Onde é que a tua avó viu os abutres?
- Por aí! Quase todos os dias, Catatua!
- O quê? Não me digas que já lhe roubaram alguma galinha ou coelho do
pátio!
- Estes abutres metem as garras, até dentro das casas e muitas pessoas
não dão por isso!
- Pensei que os abutres só vivessem nas escarpas das altas montanhas ou
nas falésias, à beira-mar!
- Os abutres de que fala a minha avó têm outros poleiros, Catatua!
- Não estou a perceber, Pinguim! A tua avó viu abutres ou alguma águia imperial,
de cor vermelha viva?
- Águias dessas não fazem mal às pessoas! Nem leões frustrados, ansiosos
por medalhas, nem dragões vencidos, descontentes com a derrota! O pior são certos
lobos com pele de cordeiro e as raposas manhosas, Catatua!
- As raposas são muito astutas! Cuidado! Os lobos agem como traidores!
- Nesta selva em que estamos metidos, por vezes, acontece que até um
dragão enfraquecido se ajoelha perante uma águia vitoriosa!
- Afinal, a tua avó viu abutres, viu leões ou viu dragões?
- Viu abutres, bufos reais, lobos, raposas manhosas e toda a espécie de
bicharada selvagem que vive em ambientes urbanos mas ataca por todo o país!
- Ambientes urbanos?! As aves selvagens têm habitats próprios e muitas
estão em vias de extinção!
- Estes abutres e aves de rapina não estão em vias de extinção, Catatua!
Cada vez há mais nesses grandes poleiros da capital e de muitos centros
urbanos! E atacam cada vez com mais força!
- Eu sei que, às vezes, os lobos atacam os rebanhos, nas encostas da
serra e devoram uma cria tresmalhada pela calada da noite!
- Qual Quê?! A minha avó diz que estes abutres atacam em pleno dia e
servem-se do melhor que encontram! Não deixam nada!
- A tua avó está a exagerar, Pinguim! Deve andar com alucinações!
- Comem a carne até aos ossos! Fica o povo na miséria, condenado a passar
fome!
- Temos aqui um grande batatal, Pinguim! Espero comer, pelo menos umas
batatinhas!
- A vida é um engano! A minha avó diz que nem lixo a passarada miúda encontra
para meter no papo, Catatua!
- Sabes muito bem que as pessoas já se habituaram a reciclar! É natural
que haja menos lixo nas lixeiras!
- Já não há lixo nas lixeiras, Catatua! Nós é que já estamos reduzidos a
lixo! Somos lixo!
- Somos lixo? Tu és lixo, Pinguim?! Era o que faltava!
- A minha avó diz que vivemos na era do lixo! Somos governados pelo lixo!
- Governados pelo lixo? Porquê, Pinguim? Essa agora!
- O lixo manda muito mais nas nossas vidas do que nós! Ainda não te deste
conta?
- Na minha vida mando eu! E o lixo vai para a lixeira!
- Na lixeira estamos nós, Catatua! Um simples saco de plástico é, hoje,
um artigo de luxo!
- Artigo de luxo ou de lixo, Pinguim?!
- De lixo, mas de luxo! Os sacos de plástico tornaram-se a galinha de
ovos de oiro do governo!
- Temos que voltar à moda antiga, aos sacos de serapilheira e aos cestos
de vime, Pinguim!
- Estas taxas são uma autêntica ditadura fiscal, camuflada com plástico,
Catatua! Só para iludir o zé-povinho!
- Já não uso sacos de plástico, Pinguim! Estou livre disso!
- Livre?! Se já não usas sacos de plástico, és um cidadão condicionado na
tua liberdade!
- Acho que a tua avó, desta vez tem razão!
- Mas há mais, Catatua! A maior parte das fábricas deste país está reduzida
a um monte de lixo e sucata!
- É natural, Pinguim! Não dizem que estamos em recessão?!
- É a era do lixo a dominar! A nossa economia também está classificada
como lixo ou mesmo lixo negativo! Este lindo batatal não passa de um monte de
lixo para as grandes praças financeiras de Tóquio, Londres ou Nova Iorque!
- As bolsas não querem lá batatas nem batatais!
- Olha, agora, só nos falta, aqui, uma cereja!
- Uma cereja de lixo, Pinguim?
- Uma cereja de lixo para pôr em cima do bolo!
- De um bolo de lixo?!
- Claro, Catatua! Para depois ser comida pelas finanças!
- Pelas finanças! Então, as finanças, agora, comem cerejas de lixo?
- A minha avó diz que o IRS é, hoje, o maior depósito de lixo que nós
mandamos reciclar nas finanças!
- Não me digas que as finanças se tornaram, agora, num grande centro de
tratamento dos resíduos, dos portugueses! Não me digas que se transformou numa
incineradora gigante!
- É verdade, Catatua! O país não produz, positivamente, nada. Os
portugueses emigraram, as fábricas estão fechadas, as importações estagnaram e
a única forma de sobreviver é reciclar o lixo nas finanças!
- Não estou a perceber, Pinguim! Tens que me explicar isso melhor!
- Quando comemos as batatas, guardamos as cascas, se comeres carapau
guardas as espinhas!
- Estás enganado! As espinhas?! Dou-as ao gato! O gato é o meu reciclador
de espinhas!
- Quando comes um frango, guardas os ossos!
- Calma, aí, Pinguim! Eu não guardo lixo lá em casa!
- Então, por que é que as finanças te obrigam a guardar todas as
facturas, talões e recibos de tudo o que comes e bebes durante o ano?!
- Isso é para os abatimentos à colecta ou lá o que é!
- Estes abutres, de que falava a minha avó, chupam-te até aos ossos,
controlam a tua vida de manhã à noite pelas facturas, tratam-te como lixo, prometem-te
um carro de luxo...
- Estás a falar daquele sorteio, que fazem lá, de uns carros, não é?!
- Sabes o que te digo, Catatua?! O IRS é uma espécie de cereja em cima
do bolo do lixo. Estamos metidos na lotaria da lixeira nacional, mas os abutres
ficam sempre com a taluda!

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