O Marito e as meias-finais da taça da Liga
- Nem queria acreditar, Pinguim? Fiquei pasmado!
- Não querias acreditar em quê, Catatua?
- Eu não vi nada, mas, pelo que me contaram, a coisa aqueceu… Aqueceu bem!
- Não sei do que estás a falar, Catatua. Tem estado tanto frio e tanta
chuva!...
- Às vezes, a chuva é outra!
- Chuva é chuva! E não aquece nada!
- Não discutiste com o Zé da Ponte, no café do Alfredo?
- Só lhe disse o que pensava! E tenho as minhas razões!
- Mas ele queria ir-te aos queixos?! Olha que ele é ferrenho!
- O Zé da Ponte? Nada disso, Catatua! Estás enganado!
- Ele é dragão! Põe-te a pau!
- E o que é que tem?
- Olha que os dragões são perigosos! Não te metas com eles!
- Não são mais do que os outros! E os diabos vermelhos? E os lagartos?
- O árbitro é que apita para acabar o jogo! É preciso discutir assim? Ele
é que manda!
- Mais minuto, menos minuto, que diferença faz?
- Os jogos tinham que começar e acabar, todos, à mesma hora. A lei tinha
que ser cumprida, Catatua!
- Tu nunca te atrasaste três ou quatro minutos ao trabalho? Acontece a
qualquer um!
- Não é a mesma coisa, Catatua!
- Tu trabalhas nas obras, eles jogam futebol!
- Vir todos os dias às oito para o trabalho não é o mesmo que jogar uma
vez por semana, Catatua!
- Às vezes jogam duas ou três vezes!
- Um jogo para a Taça da Liga? Meias-finais? Não é como assentar tijolos
ou despejar um balde de massa!
- É a profissão deles! Também se atrasam!
- Pensa um bocadinho, Catatua! Um jogo destes, com o estádio cheio de
gente, é como fazer um exame! Uma prova real!
- Não há alunos que chegam atrasados aos exames?
- Claro que há, o Marito é um deles! Chega sempre atrasado!
- Mas os professores deixam-no entrar! Por isso...
- Qual quê? Se passar a tolerância, não entra, fica à porta!
- Não me disseste, um dia destes, que o Marito já tinha mudado, que não
faltava às aulas?
- Tem dias, Catatua! Mas continua a ser um grande baldas!
- Eu sei que o Marito já se habituou a levar os livros para a escola e,
às vezes, faz o TPC, mas...
- Estás a ser injusto com o Marito, Pinguim! Já não é assim, um
baldas!...
- O Alfredo foi à escola. A directora de turma chamou lá os pais e...
- E no futebol não há tolerância?
- Se uma equipa cumpre, todas têm que cumprir! Tolerância zero, Catatua!
- Podia ter havido um motivo forte. Ninguém sabe! Não tiveram intenção
de...
- Motivo? Intenção?
- Sim, sim! Alguém sabe se a equipa teve a intenção de atrasar o jogo?
- Como é possível saber qual foi a intenção, Catatua? A intenção é uma
decisão íntima!
- E não é possível saber?
- Vai ver um livro de Filosofia! Vai!
- Livro de Filosofia? O que é que a Filosofia tem a ver com o futebol,
Pinguim?
- Não é só com o futebol! É com tudo o que a gente faz!
- Tudo o que a gente faz? Como? Isso é muito vago!
- Sobre a acção humana, Catatua!
- O que é que tem a acção humana?
- As características da acção humana! Sabes quais são?
- O que é que isso me interessa, Pinguim?
- Olha, só, uma coisa! Quem é que manda entrar uma equipa em campo?
- Não sei, Pinguim! Só se for o capitão!
- E ele não sabe que tem que mandar entrar a equipa toda, na hora
marcada?
- Deve saber! E depois?
- Ora aí está, Catatua! Ele tem consciência do que está a fazer!
- Mas pode ter havido algum impedimento!
- Qual impedimento? Qual quê? Eles estão lá com muita antecedência!
- Pode ter sido sem intenção, Pinguim! Já te disse!
- A justiça julga factos, não julga intenções!
- Factos, como?
- Factos, factos! Aquilo que toda a gente vê e que é possível provar.
- E as intenções não são factos?
- Não, claro que não! As intenções não se vêem, estão na cabeça das
pessoas!
- Não percebo! As intenções não se vêem? E os factos...
- O facto que toda a gente viu foi que a equipa não compareceu. Não
interessa saber se houve ou não intenção! A intenção não se vê!
- Não é bem assim, Pinguim! Se eu pegar no martelo toda a gente vê que eu
quero martelar um prego!
- Nada disso, Catatua!
- Nada disso como? Não se vê que o martelo serve para pregar um prego?
- É claro que a intenção mais provável é essa. Mas, se pegares no martelo,
eu não sei se vais martelar um prego, se vais partir um tijolo ou partir a
cabeça de alguém!
- Estás sempre contra eles, Pinguim! Por isso é que o Zé da Ponte...
- Não estou contra nem a favor! Factos são factos!
- Não me disseste que eram acções? E que a Filosofia...
- Tens razão, Catatua! Mas as acções também são factos!
- Que confusão! Que embrulhada! A filosofia só complica as coisas!
- Não complica nada! Pelo contrário, põe tudo muito claro!
- Misturas Filosofia com futebol, acções, factos... eu não te entendo!
- A filosofia diz que as acções humanas são conscientes, voluntárias,
livres, intencionais e têm, habitualmente, um motivo!
- Ainda agora disseste o contrário! Não te quero ouvir mais!
- Eu só disse que as intenções não se vêem e que os motivos...
- Se não se vêem, acabou. A equipa não teve culpa!
- Quando pegas no martelo toda a gente sabe qual é a tua intenção! Não
foi o que me disseste? O mesmo acontece quando toda a equipa se atrasa!
- Tu pensas que eles são alguns anjinhos? Que iam fazer de propósito?
- Não sei se são anjinhos ou se são diabos! Isso não interessa!
- Não ataco ninguém! Lei é a lei, ponto final!
- Eu bem te conheço, estás, sempre, contra o sistema! Tu não me enganas!
- O sistema? O sistema da Filosofia diz que todas as acções exigem a
responsabilidade!
- Responsabilidade? Responsabilidade de quê?
- Quem faz o que faz de forma livre, deve assumir as consequências!
- Quem marca, ganha, quem não marca, perde! Estas são as consequências!
- E quem não cumpre a lei, deve ser castigado! É como o Marito, chega
atrasado, chumba no exame!
- Mas a equipa jogou mais de noventa minutos e o Marito nem sequer
entrou, ficou à porta!
- É um jogo ilegal, Catatua, não conta! É nulo!
- Então, os dragões devem ser eliminados?
- Claro! Os lagartos começaram a horas. Quando o jogo acabou estavam
apurados!
- O almoço acabou, Pinguim! Vamos à segunda parte! Se não começares o
trabalho a horas, vais ter um dia de trabalho nulo! E o patrão não te paga!

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