- Então não vais, hoje, à escola, Pinguim?
- Eu não! Nem quero saber!
- Então, como é?! Ora dizes uma coisa ora, outra?!
- Aquilo não me dá gozo nenhum, Catatua! Novas oportunidades?!
- Se estudasses a sério…
- Estas a dizer que eu não estudo a sério? E não está tudo nos livros, não foi o que me disseste, há tempos, Catatua?
- O que tu queres, já eu sei! Paródia!
- Olha, já aprendi francês e nem precisei de livros…
- Não acredito! Aprendeste francês? Então, se tivesses um patrão francês, eras capaz de lhe pedir um aumento?
- Oui messier! C’est vrai! J’ai déjà eu un patron français! J’ai travaillé en France pendant six mois. Tu as compris?
- Estamos em Portugal, fala-me em português. Deixa-te disso, Pinguim!
- Já não queres que fale em francês? Je vais inviter mon patron à visiter le château à Montemor-o-Velho et le nouvel ascenseur pour les touristes. Ils ne seront pas plus fatigués pour monter jusqu’à ce beau château.
- Turistas? Só pensas em turistas! Em passear…
- Mon patron, il ne connais pas cette région très belle, les plages, les montagnes, le soleil et les monuments.
- Passa-me esse balde de massa e deixa-te de lérias!
- Vou voltar para França, um dia, e não me vês mais! Estou farto de obras e de andar aqui a comer pó, a subir e a descer a encosta do castelo de Montemor!
- És um troca-tintas! Ora dizes que vais estudar para ser engenheiro, ora dizes que vais emigrar ou que vais…
- Isto não é vida, Catatua! Olha as minhas mãos todas gretadas, cheias de calos! Tira-me a vontade de estudar!
- Dizes sempre o mesmo!
- Para quê? Para ficar desempregado?
- Estás muito mal habituado! Também tenho calos nas mãos e não me queixo!
- Passo o dia a trabalhar no duro, Catatua! Quem é que tem paciência para olhar para aquela letra miudinha…?
- Os livros não têm só letra miudinha! E são mais leves do que estas pedras!
- Não dá, Catatua? Como é que eu tenho tempo? À noite, depois de um dia de trabalho?
- Pois é, mas não perdes um jogo do Ronaldo, no café do Alfredo, com o Zé, o Ricardo, o Fernando…
- Mentira, Catatua! Tenho que ajudar a minha avó… Sabes há quanto tempo não ponho lá os pés?
- Eu não te vi, na semana passada, com o filho dele, de mota?!
- Só fizemos um giro de motocross! Mas foi no domingo, só para tirar a ferrugem!
- O Alfredo quer que o miúdo se agarre aos livros, mas tu…
- Ó Catatua, bem sei que o Márito é um baldas, mas eu não tenho culpa!
- Ele não pega nos livros! Não estuda nada! O Alfredo martela-lhe os ouvidos, mas…!
- O Márito?! O Márito devia andar aqui a carregar baldes de massa, de manhã à noite, a montar cofragens…
- Se fosse eu que mandasse, era isso que fazia! Para ele ver o que custa a vida!
- Olha este muro, Pinguim! Já está a ficar alto! Estás a ver? Nunca esteve assim! Tudo em pedra!
- Está a ficar bonito, Catatua! Mas essa pedra passou-me toda pelas mãos, não te esqueças!
- Quem te ouvir, há-de pensar que só tu é que trabalhas aqui!
- O Márito, a estudantada toda e os políticos! Esses é que deviam andar aqui seis meses! No duro! E só deviam comer sopa e peixe! Todos os dias!
- Peixe?
- Sim, Catatua! A minha irmã conta-me que ninguém, lá na cantina da escola, quer peixe! Nem sopa!
- Ias ver se não comiam! Com a fome a apertar! Se não tivessem mais nada…!
- E os políticos? Nem punham cá os pés! Eles sabem lá pegar numa colher de pedreiro?
- Deviam sentir, aqui, os pés cheios de pó e dores no corpo todo para aprenderem!
- Aprenderem o quê? Nem sabem para que serve o fio-de-prumo, quanto mais…

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