quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Atrás da cofragem XXXII

Uma escola para a República
- Primeiro disse-me que não vinha, que não vinha e que não vinha!...
- Porquê, Pinguim? Falava tanto da escola... pensei que gostasse de vir!...
- Tive que teimar... teimar...! Tu nem fazes ideia, Catatua!
- A tua avó?!... nem sei o que te diga, Pinguim! Não sei!... Mas ela estava com medo de quê?!
- Sabes?! Ela não atina muito com estas coisas...
- Estas coisas? Que coisas?!
- Cerimónias... bater palmas... gente engravatada...
- A tua avó... a tua avó!... ela não podia deixar a quinta, os tractores, as vacas, o milho... nem só por um bocadinho?!
- Disse que não vinha cá fazer nada!...
- Aqui, ninguém lhe manda fazer nada! Está tudo feito.
- Que só vinha perder tempo!
- Perder tempo? Festa é festa! Não é dia de trabalho!
- Ela também não atina muito com políticos... alguns nem os pode ver!
- O que é que ela tem contra os políticos?! Já lhe fizeram algum mal?!
- Diz que passam a vida a pedir, a pedir, mas nunca dão nada a ninguém!
- O que é que já lhe pediram?
- Impostos, cada vez mais impostos! Trabalho... Votos...
- Impostos?! Há quem pague muito mais e não se queixe...
- A minha avó diz que se não fosse ela...
- Se não fosse ela, o quê?
- Muitos políticos estavam a passar fome...
- A passar fome? Deve estar maluca! Mas quem pensa ela que é? Pensa que é mais do que os outros?
- Diz que não produzem nada! Só gastam! Só dão prejuízo ao país!
- Prejuízo? O trabalho deles é governar!
- Diz que eles só fazem promessas! Só prometem! Prometem... mas cumprir?!...
- Só promotem?! Ai é?! Olha aqui esta escola toda nova! Nova! Novinha!
- Diz que isto só foi dinheiro mal gasto! Isto é um desgoverno! A outra escola servia muito bem!
- Mal gasto?! Dinheiro mal gasto?! Ela já viu alguma escola como esta? E esta cantina?! É um mimo!
- É por isso que estamos todos com a corda na garganta!
- Eu é que estou com um nó na garganta de tanta parvoice da tua avó!
- O que ela diz é que estamos na miséria, na bancarrota!
- Ela sabe lá o que é a bancarrota!
- Diz que temos dívidas de milhões que vão sobrar para os teus netos e bisnetos!
- Mas afinal, ela veio ou não veio à inauguração da escola, no centenário da República?
- Veio, veio! Veio comigo!
- E não gostou?! Não me digas que não gostou desta escola toda moderna!
- Gostou e não gostou!
- Gostou e não gostou? Não percebo nada! Ou gostou ou não gostou!
- Disse que o jardim estava bonito, as janelas...
- Só?
- Quando subiu as escadas assustou-se! Ia-lhe dando um ataque!
- Assustou-se?! Com quê?
- Que estava tudo muito escuro, muito feio e muito triste...
- Muito feio?! Muito feio para ela! Para mim não...
- Diz que a escola é toda negra, negra! Se viesse para cá todos os dias, ficava doente!
- Doente?! Isso já ela está, Pinguim! Toda negra?!... Isso é mentira!
- Diz que é negra como o carvão! E que esta escuridão até lhe mete medo!
- A tua avó, Pinguim... Oh! Tudo lhe mete medo...
- E disse mais! Que é negra como o nosso futuro e o do país! É mesmo um retrato!
- Um retrato, um retrato!... Só as paredes é que lhe meteram medo?
- Perguntou-me se não havia soalhos mais bonitos para uma escola!
- Soalhos? A madeira ganha caruncho! Isso já não se usa!
- Diz que o chão é feio e está todo às ondas!
- Às ondas? Não pode ser! Fui eu que fiz as lajes de betão!... Tudo direitinho!
- Direitinho? E a tela cheia de bolhas de ar!
- Aquilo é o revestimento mais moderno e...
- A minha avó disse que lhe parece mais um tapete de plástico do campismo...
- Um plástico de campismo? A tua avó só sabe pôr defeitos!
- Sabes o que ela me disse ao meu ouvido, Catatua?
- Não foi coisa boa, com certeza!
- É melhor não te dizer, tu não vais gostar...
- Diz, diz, Pinguim! Agora quero saber!
- Que estes acabamentos são...
- São o quê?!
- Que o piso, onde as vacas lá da quinta põem as patas, é mais bem acabado e de melhor qualidade do que o destas salas!
- Eu não acredito, Pinguim! Eu não acredito! E ainda pôs mais defeitos?
- Perguntou-me onde estava a internet!
- Ela nunca viu a internet?
- Já! Mas pensava que aqui era diferente...
- Diferente? Como?
- Porque lhe disseram que os alunos podiam ver a internet nos jardins, nos passeios, nos campos de jogos! Que nem precisavam dos professores para nada!




 

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