sexta-feira, 25 de junho de 2010

Atrás da cofragem XXX

Destruir/construir+emprego
- Andas muito pensativo, Pinguim! O que é que se passa contigo?
- E tu? Não andas pensativo? Não vês o que se passa à tua volta? Andas com os olhos tapados?
- Acordaste mal disposto? Com os olhos tapados? Eu?
- Sim! Não pensas na vida, nos problemas, no futuro…?
- Anima-te! Vá lá! Não sejas assim!
- A minha avó diz que uma vida que não é pensada não é bem organizada!
- Vamos ao trabalho! Tens aqui mais uma obra para fazer e ainda estás assim?!
- Como é que havia de estar?
- Andas sempre a pensar na crise, no desemprego! São as conversas da tua avó...!
- E tu! Pensas que essa praga não chega cá?... que só acontece aos outros? Desegana-te!
- Ainda tens que largar, aqui, mais alguns pingos de suor! Podes dar-te por muito feliz! E deixa-te de lérias!
- Lérias, Catatua?! Lérias?
- Isto é uma maneira de falar...
- São coisas muito sérias...! Dão-me, cá, uma volta ao miolo!
- Volta ao miolo?
- Lembras-te das obras no “Salão” da tua mulher, que fizemos ao sábado?
- Lembro, porquê? Precisas de arranjar o cabelo para ficares melhor do miolo?
- Diz-me uma coisa: tu partiste tudo, fizeste a casa toda em cacos?
- O que é que queres dizer com isso? Não fizemos um bom trabalho?
- Para mudar a canalização e pôr uns azulejos novos precisaste de partir as paredes todas?
- Não. Porque é que perguntas?
- Não vês isto? É por isso que a minha avó diz que tudo o que fazemos, aqui, é “um faz de conta”!
- “Um faz de conta”?! Agora é que não te entendo, Pinguim.
- Olha para estas paredes novas, em bom estado. Até parece que estão ainda pintadas de fresco, a cheirar a tinta.
- E depois?
- Porque é que têm de ir todas abaixo? Isto é um crime!
- Esta cantina não cumpre as normas ambientais e de energia! Alguns materiais poderiam provocar o cancro… uma cantina tem que obedecer às normas!
- Se daqui a meia dúzia de anos as normas mudarem, vamos deitar tudo abaixo, outra vez?
- Isto não tinha condições!
- Não tinha condições? Foi feito há meia dúzia de anos! Olha os pilares e o ferro das lajes!
- Era muito acanhada! Não chegava para tantos alunos! É para servir todos os alunos de Montemor!
- Isso não é problema! Cada vez há menos! já há por aí escolas a fechar!
- E então! É por isso que é “um faz de conta”?!
- É! Andamos, aqui, a trabalhar para o boneco!
- Não estás bom da cabeça! Esta escola pode, lá, fechar?
- Se deixar de haver alunos...! e os que há nem precisarem de vir às aulas...! para que é que são precisas as escolas?
- Não estás nada bom do miolo, Pinguim! Já viste algum aluno que não precise de ir às aulas?
- Já, já! Foi a minha avó que me disse!
- A tua avó?!
- Ela não perde as notícias... todos os dias...!
- Não me disseste há dias que ela tinha problemas nos ouvidos?
- Ela ouviu muito bem...
- Ouviu, ouviu! Ouviu o quê?
- Que os alunos do oitavo ano, com quinze anos, podem saltar para o décimo sem ir às aulas!
- Ah! Mas têm que fazer exame! Foi o que me disseram!
- Como é que podem passar no exame do nono ano se nunca foram às aulas, porque ainda estão no oitavo?
- Se se prepararem bem, se estudarem... agora têm computadores...!
- Isso é como fazer uma obra sem alicerce, passado um tempo cai tudo no chão!
- O nono ano é um alicerce, Pinguim?! Para mim já está perto do telhado...
- É como fazer um pilar ou uma parede de esferovite! O que ficar por cima fica sem apoio!
- Podes ter a certeza de que esta obra não vai cair. Já viste os alicerces?
- O que vai cair é o governo, diz a minha avó! E não tarda... antes que o país se afunde!
- O que é que a tua avó percebe de política?
- Ela vai sempre votar! Não falha!
- Eu também! Também voto sempre!
- Mas ela lá sabe! Diz que o governo anda todo desorientado! Olha as SCUT!
- Desorientada, está a tua avó!
- Não sabe nada o que anda a fazer!
- Eu gostava de lá ver a tua avó!
- Manda destruir as escolas para depois as construir...!
- Se não fosse o governo onde é que ias encontrar trabalho?
- Ó Catatua, se precisares de mudar a canalização lá de casa e se estiveres com dívidas até aos cabelos e com a corda na garganta deitas a casa toda ao chão e voltas a pô-la de pé, só para arranjares emprego para ti e para os amigos?

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