O convite do avô
- Pinguim, Pinguim, liga o compressor.
- Já está ligado, Catatua! Não é preciso gritares tanto!
- Não parece! Estás surdo que nem uma porta!
- Desculpa, Catatua! Estava distraído…
- Parece-me que ainda andas a pensar no fim de semana… não é? Mas acabou-se a papa doce!
- Pões-te a adivinhar… mas não tens sorte!
- Andas a pensar nas prendas que te deram?! Aposto contigo!
- Estás muito enganado, Catatua!
- Vamos limpar estes painéis de cofragem.
- Eu tinha-os deixado limpinhos! Ficaram prontos para serem usados outra vez!
- A chuva e vento arrastaram as folhas das árvores, o lixo e…
- Não é para admirar! Durante todos estes dias, ali…
- Então! Dizias que o teu pai se tinha esquecido de ti, mas…
- Há muito tempo que, nem pelos meus anos, se lembrava!
- E agora?
- Eu nem sei se foi ele que me mandou uma…
- Não sabes se foi ele? Como?
- A minha avó, uns dias antes do Natal, mostrou-me uma encomenda que tinha chegado no correio. No endereço dizia: “Filipe José de Sousa Martins”.
- E não sabes de quem era?
- A encomenda vinha da Suíça!
- Da Suíça? E o nome do remetente?
- Tinha o primeiro e último nome do meu pai. Mas há muitas pessoas com o mesmo nome!
- Não sabes que o teu pai, agora, é motorista de transportes internacionais? Ele corre toda a Europa!
- Só sabia que era camionista quando trabalhava para o senhor Mário!
- O que é que vinha na encomenda?
- Uma máquina fotográfica e tabletes de chocolate.
- Estás a ver? Deve ser uma boa máquina! E chocolates da Suíça! Eia!
- A minha avó diz que não é com vinagre que se apanham moscas…
- A tua avó é uma… desmancha-prazeres! Tu não ficaste contente?!
- Os chocolates eram muito bons!
- E a máquina fotográfica?
- Fotográfica e de video. É muito complicada! Não me entendo muito bem com aquilo…
- É por isso que tens andado a magicar…
- Não! Nada disso! Tenho andado a pensar no que o meu avô me disse um dia destes…
- Não concorda que continues fora da tua mãe, não é?
- Não! Disse-me que se eu quisesse deixar isto…
- O quê? Vais deixar as obras?
- Não! Para já, não!
- Então?
- No domingo à tarde, saí com o meu avô no jipe. Fomos até à quinta da Azenha Grande.
- Dar um passeio?
- Deu-me o volante para as mãos e disse: “hoje vais tu a conduzir. Já és um homem, tens andado um pouco desvairado desde que o teu pai se foi embora, mas tens que assentar, tens que ganhar coragem!” Eu fiquei um bocado atrapalhado…
- Nunca conduziste um jipe?
- Já! Mas não estava à espera… assim… que o meu avô fizesse aquilo. Depois disse-me que estava a precisar de alguém que o ajudasse…
- Que o ajudasse em quê?
- Disse-me que, há já algum tempo, tem andado à procura de um homem que o ajude no campo, a tratar dos animais…
- E tu?
- Disse-lhe que ia pensar…
- Andas sempre a dizer que estás farto disto… que não podes ver betão à tua frente! É uma boa oportunidade!
- O que é que tu farias? Se fosses tu? Diz-me.
- Se ele pagasse bem, não pensava duas vezes!
- Eu não sei o que lhe hei-de dizer…

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