A escola é um livro
- Que calor, Catatua! Nem parece que estamos em Outubro!
- Assim é que está bom, Pinguim! Não há lama, é melhor para trabalhar.
- A minha avó diz que isto é sinal de que o mundo vai acabar. Não chove, Morre tudo. É um castigo de Deus!
- Ela é que vai acabar!
- E tu também. Não ficas cá para a semente!
- Segura esta viga P20 simplex. Põe-na no cabeçal.
- P20 Simplex? O simplex não é do governo?
- Há mais simplexes. Mas estes funcionam a sério. Já viste os painéis de cofragem que colocámos em duas horas?
- É por isso que já tenho dores no pescoço e nos braços por assentar tantos prumos. Quem me dera voltar para a escola.
- Só pensas na escola, Pinguim.
- Sonhei que já tinha voltado para a escola!
- Como é que acabou essa história do encarregado a fazer discursos?
- Sonhei que o encarregado chamou toda a gente, subiu para cima de um andaime e pôs-se a falar: “quero saudar todos os trabalhadores e felicitá-los porque estão a contribuir para o progresso do país e para nos ajudar a vencer a crise.”
- Tens a certeza de que era o encarregado?
- Parecia ele…
- Não era o engenheiro?
- Qual engenheiro?
- O que costuma estar ali no gabinete e que às vezes anda por aí com uns papéis e uma fita métrica.
- Não sei. Pelo capacete parecia o encarregado.
- Não disse mais nada?
- Não me lembro muito bem. Só me lembro que fez alguns gestos com os braços estendidos e disse…: “ este investimento público é prioritário, mas nós não fazemos investimento só para dar emprego a cabo-verdianos e ucranianos, como diz a oposição. Nós também damos emprego a indianos, marroquinos, guineenses e árabes. Esta escola é muito importante e verifico que os trabalhos têm decorrido a um bom ritmo."
- Ó Pinguim, devias ter-lhe dito que nós, aqui, trabalhamos a sério, não brincamos em serviço.
- Depois disse mais umas coisas que eu não percebi muito bem: “Orgulhamo-nos de receber bem quem quer trabalhar connosco. Portugal está nos lugares da frente de quem recebe bem os seus imigrantes. Além do emprego queremos dar muito mais. A pá e a picareta, a colher e o martelo são as canetas com escreveis o vosso saber.”
- O martelo é uma caneta?
- “Esta escola é um grande livro feito com as lanças das gruas, os braços mecânicos das máquinas e com as mãos humanas que ligam as vigas aos pilares e desenham as paredes como páginas escritas com a tinta em suor. Quem sabe fazer uma escola, quem trabalha o ferro e o betão de uma forma tão profissional mostra competências que não estão só no papel. Esta é uma, entre muitas novas oportunidades para que os professores vos reconheçam essas competências. Proponho atribuir, no fim, a todos os que aqui estão, o título de ‘engenheiro honoris causa’, depois de se inscreverem no mais famoso sistema de formação e validação de competências da população trabalhadora, reconhecido de norte a sul do país e além fronteiras. Para isso todos têm que requisitar o célebre Magalhães. Temos que aumentar o nível de escolaridade dos portugueses distribuindo diplomas e computadores a todos.”

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